O estilista que apresentou seu último de prêt-à-porter em Paris vai dedicar-se apenas à alta-costura, seu perfume e participações especiais de figurinos e decoração de interiores

NYT

Quando Jean Paul Gaultier anunciou, no início da temporada de mostras de moda feminina, que o desfile de sua coleção prêt-à-porter de 27 de setembro seria o último e que ele passaria a se dedicar só à alta-costura, seu perfume e participações especiais como figurinos e decoração de interiores, a impressão que deu foi a de que uma era chegava ao fim.

A primeira reação foi de choque: "Oh, não! Não dá nem para imaginar o calendário sem o enfant terrible da moda francesa". Seus desfiles, aliás, sempre estiveram entre os mais disputados das semanas da moda, com os editores literalmente saindo no tapa por um convite – mesmo que, nas últimas temporadas, muitos deles (eu, inclusive) tenham achado (ou escrito) que suas criações estavam se tornando cada vez mais irrelevantes, baseadas em ideias antigas que podem ter sido sensacionalistas há 15 anos, mas que hoje parecem dolorosamente familiares.

Aí veio a tristeza: seria aquele mais um exemplo do comércio levando a melhor sobre a criatividade? Afinal o conglomerado espanhol Puig, que comprou a maior fatia da empresa de Gaultier da Hermès, em 2011, simplesmente suspendeu o apoio à grife quando ela deixou de ser um negócio lucrativo (afinal, o negócio era comercializar licenças). Ausente do circuito prêt-à-porter e sem a atenção que ele atrai, será que Gaultier, assim como Christian Lacroix – outro nome francês que já foi muito famoso, que também desistiu da moda comercial por causa das más vendas e que hoje se concentra em fazer figurinos (a-hã) e outras participações especiais – vai cair no esquecimento?


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Mas depois de ver desfile após desfile em Nova York, Londres e Milão, comecei a achar que talvez estivesse vendo a coisa pelo ângulo errado. Talvez seja um reconhecimento público mais que necessário de um assunto que foi discutido e comentado em ateliês e jantares durante uma semana inteira, exatamente como os "vintage" isso e "acessível" aquilo que são repaginados e apresentados como a nova tendência. Talvez seja alguém finalmente fazendo algo porque acredita que o ciclo exigido hoje dos estilistas – criatividade e originalidade a cada dois meses – não é sustentável. Talvez seja alguém fazendo uma escolha e simplesmente se recusando a aceitar uma imposição.

Afinal, quando Gaultier começou seu negócio, em 1982, a moda não era nem uma indústria ainda. Os estilistas faziam duas coleções por ano. Quando introduziu a alta-costura, em 1997, o total de coleções subiu para quatro. Com a masculina, então, o número subiu para seis, nossa! Hoje, como se sabe, o estilista em uma posição semelhante tem pelo menos o dobro, graças ao surgimento das pré-coleções e das coleções ocasionais. E em se considerando que, de 2003 a 2010, Gaultier também foi o diretor artístico do setor de moda feminina da Hermès, essa lista fica um pouco mais longa.

E o resultado foi que, como explicou o estilista em carta a Women's Wear Daily explicando sua decisão, "com as restrições comerciais, assim como o ritmo frenético das coleções, não sobrava mais liberdade, nem o tempo necessário para descobrir ideias, inovar". Há quem diga que a culpa pela crise criativa é do próprio Gaultier, por ter se expandido demais ao longo dos anos, por melhores que tenham sido as razões para fazê-lo na época (para ajudar sua grife; pelo desafio; pelos dois), mas não há prova maior de suas palavras que sua carreira.

Graças à sua técnica extraordinária e à habilidade de montar uma peça, artes que aprendeu nos ateliês de Pierre Cardin e Jean Patou, o francês virou a moda de cabeça para baixo, desafiando os conceitos de vestimenta e da sociedade sobre o lugar das roupas de baixo, a santidade dos trajes religiosos e a simplicidade das peças básicas. Tais ideias, porém, por mais que tenham sido aplicadas com elegância em suas passarelas, desapareceram há muito tempo. Em vez disso, o que se vê são participações especiais de ímãs de paparazzi como a stripper Dita Von Teese e a drag Conchita Wurst, vencedora do concurso Eurovision deste ano.

Se a ideia de fechar o negócio prêt-à-porter veio do próprio Gaultier ou não – Ralph Toledano, diretor da divisão de moda da Puig, diz que a decisão foi sim do estilista – e considerando-se que o grupo é dono também da Paco Rabanne e da Nina Ricci, duas casas que sobreviveram durante décadas apoiadas só em perfumes antes de recomeçar como grifes comerciais, dá para entender porque a aceitaram. O fato é que, ao desistir do jogo, ao mesmo tempo Gaultier coloca o tema para discussão.
E, pela primeira vez, não é por causa de crises como a implosão de John Galliano na Dior, em 2011, ou o suicídio de Alexander McQueen, em 2010, ocasiões que causaram dúvidas momentâneas da indústria em relação a si mesma, mas sim de uma decisão consciente e articulada.

A questão agora é se esse passo fará alguma diferença óbvia. Se Gaultier puder resgatar a mágica do início da carreira nos desfiles de alta-costura – a mesma que mudou a minha percepção de como as roupas podem transcender seus antecedentes (a prova de um vestido longo, de noite, que começava na forma de uma marinière francesa de tricô e terminava com o movimento suave de penas de avestruz ficará gravado para sempre na minha memória) – então o mundo da moda, que adora mais que tudo redescobrir a genialidade (ou será "Gênio!"?), irá usá-lo mais uma vez como exemplo. Talvez até um que mereça ser seguido. Se não, como é de costume, a moda vai piscar e seguir adiante, é claro. Teremos que esperar até janeiro para ver qual das duas hipóteses é a verdadeira.


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