Os adeptos do estilo unissex são consumidores curiosos, inventivos e que gostam de experimentar modelagens teoricamente feitas para vestir o sexo oposto

Não é um movimento inédito, mas a moda sem gênero tem sido cada vez mais apropriada por homens e mulheres que optam por misturar peças para criar o próprio estilo. Os adeptos são consumidores curiosos, inventivos e que gostam de experimentar modelagens teoricamente feitas para vestir o sexo oposto. A variedade de estampas e os cortes mais ajustados do setor feminino agradam aos homens desse estilo. Já as mulheres se mostram interessadas pelo conforto das peças originalmente masculinas.

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Nos anos 1920, a estilista Coco Chanel foi uma das primeiras a observar a inclinação das mulheres para vestir a roupa que era desenhada apenas para os maridos. O feminismo ganhava fôlego e o guarda-roupa dos homens inspirava mais conforto, igualdade entre os gêneros e uma pitada de rebeldia. A atriz Marlene Dietrich ficou famosa por incentivar o uso de calças compridas, brincando com a androginia e espalhando a tendência boyfriend, boyish ou tomboy, nomes usados para denominar o estilo das mulheres que se influenciam pelo guarda-roupa, em princípio, masculino.

Entre os homens, David Bowie hipnotizou a todos durante os anos 1970 com seu personagem Ziggy Stardust, caracterizado por roupas justíssimas e multicoloridas, além de seus cabelos impecáveis e da maquiagem caprichada. No Brasil, Ney Matogrosso à frente do Secos e Molhados foi um dos primeiros e mais simbólicos reflexos do quanto a estética glam - definida por uma ousada androginia e ambivalência na escolha das roupas e acessórios - influenciou o que hoje conhecemos como um estilo sem gênero.

"A linha de pensamento do consumidor é algo bem mais simples: 'eu gosto, eu compro, eu uso'. Sem grandes análises de gênero. Acredito que quando o mercado compreender isso por completo, vamos ver surgir lojas sem divisão de gênero", diz Nuta Vasconcellos, jornalista de moda e blogueira no Girls With Style. "As marcas ainda consideram muito importante a divisão de peças masculinas e femininas e reparo que a nova geração de consumidores não se importa mais tanto com isso", completa.

Para atender à demanda do consumidor de estilo híbrido, é preciso entender que muitas das mulheres garimpam o setor masculino atrás de peças menos justas, que tragam conforto e que não as aprisionem em numerações restritivas. "Para as marcas, o padrão de mulher jovem e ligada à moda ainda é a mulher que veste no máximo 42 e calça 38. As mulheres fora desse padrão encontram na seção masculina uma segunda alternativa para peças jovens, estilosas e em numeração maior", diz Nuta.

A stylist e consultora de moda Manu Carvalho ressalta que a tendência do estilo unissex deve ficar cada vez "mais normal de acontecer nesse tempo sem regras que vivemos na moda contemporânea". Apesar do charme do armário masculino para a mulher, reforçado pela tendência da moda boyfriend, Manu acredita que o caminho inverso ainda é desafiador. "Temos um tabu que não é apenas de roupa, mas de gênero e orientação sexual. Mesmo tendo tão forte o (movimento) glam-rock e androginia dos anos 1970 e 1980, o tabu é maior do que a moda."

Mulheres no setor masculino

"A peça masculina tem uma relação diferente com conforto, ela é naturalmente maior do que você, então a sensação de liberdade é maior, de não se sentir apertada na roupa", diz a produtora de moda, personal stylist e figurinista Renata Morrone. Ela compra roupas no setor masculino com frequência, tanto que suas peças se confundem com as do namorado, com quem divide o guarda-roupa.

A publicitária Carol Caixeta veste roupas do setor oposto desde pequena, quando acompanhava os irmãos nas compras. "Sempre acabava levando uma peça masculina para mim. Calças têm que ser femininas por causa do gancho, ou mando fazer uma masculina, mas com o gancho menor", explica. "As marcas estrangeiras têm se posicionado melhor. Acho que não teremos mais tantas medidas femininas e masculinas, mas uma medida unissex", acredita a publicitária.

"Normalmente, o setor de roupas masculinas tem estampas mais legais, sem brilhos", compara a web designer Mariana Neri, que gosta de comprar camisetas, meias e tênis para eles. A designer costuma surpreender as pessoas quando revela a origem de algumas de suas peças. "Às vezes, algumas amigas ficam até espantadas quando elogiam uma camisa ou um tênis e eu falo que comprei na parte masculina ou que peguei do guarda-roupa do meu marido", conta. "Até calça jeans dele eu usei e as pessoas nem perceberam que era uma peça masculina."

Homens no setor feminino

O caminho contrário, de homens invadindo o setor feminino, segue a passos um pouco mais lentos se comparado com a tendência boyfriend já acatada pelas mulheres. O homem que opta por montar um guarda-roupa sem gênero pode encontrar mais dificuldades na hora da compra. "Ao mesmo tempo em que tem loja que chega a me constranger dizendo 'o setor masculino é ali do outro lado, senhor', tem loja em que os próprios vendedores dão dicas de tamanho de peças do setor feminino", diz o publicitário Pedro Cerqueira.

Pedro explica que gosta de comprar calças e casacos femininos por causa do tamanho das peças, que se ajustam melhor a sua altura de 1,68 metro. "As (roupas) do setor masculino normalmente ficam enormes em mim." No entanto, a reação das pessoas às escolhas de estilo sem gênero nem sempre são positivas, observa. "Às vezes você esta usando uma calça jeans básica e ninguém fala nada. Basta falar que é feminina que muita gente solta um risinho debochado. Fica claro o preconceito que um rótulo de gênero gera."

O assistente editorial Luiz Romano também gosta de comprar peças do outro setor. "Minha primeira calça feminina foi uma que roubei da minha mãe, em 2005. Não tinha calça skinny para menino, todas eram de corte reto", relembra. O guarda-roupa unissex de Luiz acabou criando uma tendência dentro de sua própria casa, apesar da resistência inicial. "Minha mãe tinha achado horrível essa calça apertada, mas hoje ela acha legal a estética e compra esse modelo de calça slim até para o meu pai."

Para os homens que gostam de transitar entre os gêneros, a seção feminina ainda oferece mais opções de cores, estampas e tecidos. "(No setor masculino) a estampa é bem discreta. Se você procura um negócio diferente, raramente encontra. Já as calças femininas têm mais estampas, como tie-dye, floral ou motivo de azulejos", destaca Luiz.

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