Diretora de faculdade de Israel e estilista árabe revelam os desafios de trabalhar na moda em áreas de conflitos

Em julho, enquanto o mundo da moda lotava o Palais de Chaillot para ver o desfile de alta costura da Armani Privé ‒ contemplando, preguiçosamente, a possibilidade de uma possível boca livre, cortesia da Caviar Kaspia, ou imaginando se a Emma Watson apareceria na primeira fileira outra vez ‒ Leah Perez, diretora do programa de moda do Shenkar College of Engineering & Design, famosa faculdade de Israel, participava de um desfile bem diferente, pensando em questões completamente diversas, do tipo que jamais ocorreria aos seus colegas do Istituto Marangoni, Central Saint Martins ou do Fashion Institute of Technology.

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"Eram umas 18h30 e estávamos começando o primeiro desfile de formatura. Haveria dois. Acho que tinha umas 700 pessoas na plateia: pais, responsáveis, jornalistas e celebridades como a atriz Keren Mor e o arquiteto Amir Mann. A música estava bem alta, como sempre acontece nessas ocasiões, então não dava para ouvir nada mais. Aí, de repente, todo mundo começou a receber torpedos nos celulares dizendo que as sirenes tinham sido acionadas e que foguetes vinham na direção de Tel Aviv. Estávamos num espaço de exibições imenso, sem abrigo antibomba, e eu tive que decidir se sairíamos todos ou não", conta. Ela optou por ficar.

"Os alunos mereciam a oportunidade de exibir seu trabalho. E a vida continua, não importa o que esteja acontecendo lá fora. Quase ninguém foi embora. Havia uma tensão no ar, como se todos soubessem que estávamos desafiando uma situação. Só que depois não consegui dormir; fiquei pensando em toda aquela gente por quem eu era responsável".

A noção de que a moda valha esse tipo de risco ‒ ou qualquer coisa que seja ‒ em uma zona de conflito, em meio a questões vitais de vida ou morte e diplomacia geopolítica, pode parecer anormal para muita gente, absurda até. De fato, mesmo antes de começar o conflito atual na Faixa de Gaza, quando dizia a amigos que ia a Israel para explorar o mundo da moda, a reação quase sempre era uma sobrancelha arqueada e um riso meio sarcástico, tipo, "Eles não têm coisa mais séria com que se preocupar do que roupas?".

"Sei que parece ridículo", admite Leah. "Eu ainda estava na escola durante a Guerra do Yom Kippur, que foi terrível. E estávamos estudando a mulher de Picasso; não aguentei e perguntei para o professor: 'Sério mesmo, quem é que se importa com a mulher do Picasso?' Mas a questão acabou se tornando a prova na crença de que o bom e o belo sempre prevalecem. Afina, qual é a outra opção? Sucumbir ao ódio e à feiúra?".
A pergunta não é retórica nem se limita somente ao conflito em Israel; ao contrário, as palavras simbolizam uma verdade inesperada, pois em praticamente todo país tradicionalmente considerado zona de perigo há moda de qualidade.

Há moda no Afeganistão. A Ucrânia realizou a Semana da Moda de Kiev, em março, durante o auge da turbulência política da ocupação russa. A Zâmbia, um dos trinta países mais pobres do mundo, também tem uma Semana da Moda. No ano passado, a Colômbia organizou uma festa imensa para comemorar o 25º aniversário da inexModa, evento que promove a moda e a indústria têxtil locais, e que incluiu um desfile do estilista Haider Ackermann realizado perante a primeira-dama, vários embaixadores e o prefeito de Medellín, em uma tentativa de mudar a percepção nacional, que quase sempre envolve o tráfico de drogas e as mortes que causa, para o negócio da moda.

Em Israel, o programa de Leah praticamente dobrou de tamanho, passando de 25 alunos/classe em 1994, quando assumiu o cargo, para 41 formandos em 2014, com 60 alunos matriculados no primeiro ano. E embora a Shenkar seja tradicionalmente a faculdade de moda mais conhecida, a popularidade de suas duas principais concorrentes ‒ a Academia de Artes e Estilo Bezalel de Jerusalém e a Academia de Estilo e Educação WIZO de Haifa ‒ já está crescendo. Depois de um jejum de trinta anos, em 2011 a Semana da Moda de Tel Aviv ressurgiu, mesmo que todos os estilistas recém-formados em Israel saiam para fazer estágio no exterior, voltem para criar suas grifes e menos da metade continue no negócio uma década depois.

Em parte isso ocorre com quem tenta ser empreendedor em um mercado minúsculo no qual grifes exclusivas são preteridas em favor de nomes mais comerciais, incluindo duas grandes empresas locais, Castro e Renuar. Porém, além dos problemas óbvios, há questões específicas a Israel que também dificultam a introdução de novas marcas: o fim da indústria têxtil local, que já foi uma das maiores do mundo, a ascensão de marcas estrangeiras de baixo custo, como a H&M, além da falta de uma estrutura formal (não há showrooms, a maioria das lojas trabalha apenas sob consignação ‒ ou seja, o estilista acaba responsável pelo excedente de estoque ‒ e não há um órgão central de administração do setor como o Conselho de Estilistas dos EUA ou a Câmera Nacional de Moda na Itália). Sem contar o apoio praticamente inexistente do governo, que prefere investir em setores como o de tecnologia e o militar, como sugere Assaf Shem-Tov, jovem estilista que fundou a Colle'cte com o marido, Tal Drori.

E embora haja várias histórias de sucesso de israelenses fora do país ‒ como a de Alber Elbaz, o prestigiado diretor criativo da Lanvin, que se formou pela Shenkar, a Gottex, grife de roupas de banho fundada em Tel Aviv em 1956, os estilistas de Nova York Elie Tahari e Yigal Azrouël, e Kobi Halperin, outro ex-aluno da Shenkar, atualmente diretor criativo da Kenneth Cole ‒ a grande maioria dos formandos continua a sonhar com o trabalho na terra natal e não em capitais como Paris ou Milão.

Naim K. Qasim, por exemplo, é um jovem estilista árabe que se formou pela Shenkar, em 2001, e trabalhou em Nova York, Turquia e Itália antes de voltar, em 2007, para "oferecer sua visão à comunidade". Hoje ele administra um ateliê em Tira com a irmã, produzindo vestidos exclusivos. Nadav Rosenberg, que se formou pela Shenkar em 2010 e fez um rápido estágio com David Koma em Londres, criou grife própria, a Northern Star, com estética leve e urbana, em 2012 ‒, mas só recentemente conseguiu se mudar da casa dos pais, que também era seu estúdio, para abrir um espaço de moradia/trabalho/comércio em Tel Aviv. Considerando-se o número de obstáculos, até que foi rápido.

"A moda une os povos", diz Tal Drori, que fez estágio na Azzedine Alaïa de Paris e Donna Karan de Nova York antes de voltar para abrir a Colle'cte. "Funciona como uma ponte entre todas as raças e credos".

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