Somos uma espécie falante. Pena que entre falar e conversar existe um vazio, nem sempre fácil de transpor...
30% das famílias não conversam na hora das refeições. Meio perdido entre as tantas informações que compõe o perfil da família brasileira no estudo do Datafolha, o número faz pensar...ou ninguém senta para comer ou comem em silêncio ou...conversar é o quê?
Conversar é mesmo uma arte; feito fazer pão em casa, exige prática, dedicação, tempo e muita informação! Longe de ser coisa assim intuitiva, que todo mundo a rigor deveria ou poderia tirar de letra, a arte da conversação pressupõe logo de cara um repertório comum de informações, o que, convenhamos, podia ser bem fácil de dominar nas pequenas e refratárias aldeias dos nossos bisavós, mas que é desafio quase intransponível neste nosso mundo globalizado.
A Torre de Babel estava indo muito bem até todo mundo começar a falar em línguas diferentes! Agora experimente ampliar o conceito de língua e deixar que ele inclua os gestos, a história, a cultura e até a linguagem espiritual, as infindáveis variações e especificidades que definem e isolam cada um de nós num universo de sentido difícil de penetrar, quanto mais de compreender...
Conversar é mesmo uma arte!
Deborah Tannen é doutora em linguística e autora de vários livros sobre esse assunto complicado que é a comunicação entre os humanos. Um dos seus primeiros livros chamou-se Não é isso que eu quero dizer, justamente sobre como as pessoas têm estilos de conversação diferentes e de como esses estilos acabam embaralhando as falas: você diz uma coisa, o outro entende outra...a confusão pode ser maior ou menor, dependendo da origem, da classe social, do ambiente cultural e do gênero de cada um!
E se socialmente a gente pode sempre dar uma disfarçada, fingir que não se importa, mudar de turma, em família, a coisa ainda é mais complicada: não bastassem as tensões naturais entre pais e filhos e irmãos entre si, as conversas entre seres de idades diferentes já partem de dois pontos de vista totalmente diferentes em relação a...praticamente tudo! E a linguagem de uns e outros é cheia de armadilhas...
Uma pena, porque existem estudos que mostram o quanto a mesa do jantar é importante para ancorar as relações entre pais e filhos. Em volta da mesa, no final do dia, a família recuperaria uma intimidade, constantemente desafiada pela correria e a dispersão das nossas vidas urbanas. Em volta da mesa, no final do dia, a gente pode brincar de esticar o tempo e de “jogar conversa fora”, como diria o Zé Pazeto, sentado no alpendre da casa, olhando pro céu pintado de luz, entre uma baforada e outra do cigarro de palha...
Mas, como hábitos a gente precisa formar devagar, mas insistentemente, aí vão algumas idéias que andei amealhando aqui e acolá...
Desligue essaTV. Meu palpite é que esses 30% de gente que não conversam entre si, jantam ouvindo o blábláblá da TV...acertei? Por que será, hein? Medo da intimidade? Receio de não ter o que dizer? Cansaço? Preguiça? Um homem muito sábio certa vez me disse que não tinha medo da Morte, aquela que a gente representa de foice em punho, porque “morrer, de verdade, era ver a vida perder o encanto e as pessoas se transformarem em coisas...” Fico imaginando que às vezes a gente se deixa morrer um pouco na hora do jantar....além de tudo, comer vendo TV faz mal, a gente come mais do que deve, nem saboreia o capricho da cozinheira, não é à toa que os franceses têm os menores índices de obesidade da Europa, são eles que mais preservam o hábito saudável do “dinner en famille”...
Esqueça o questionário. A psicóloga Rosely Sayão, num dos seus artigos semanais para o encarte Equilíbrio da “Folha de São Paulo”, faz uma reflexão absolutamente iluminada. Ela conta de um pai que tentava em vão puxar conversa com a filha, fazendo perguntas as quais a garota invariavelmente respondia com “foi normal”, “tudo bem”, “legal”...um dia, ele cansou e resolveu parar de perguntar e apenas contar como havia sido o dia dele, as coisas que ele tinha visto ou sentido...foi um “santo remédio” (diria o Zé Pazeto, lá de cima...). Aos poucos, ambos foram percebendo que as melhores conversas nascem de uma certa gratuidade que não tem nada a ver com controle, nem com “querer saber da vida do outro”. Adolescentes estão recém-descobrindo sua privacidade, e, por isso, sentem-se facilmente ameaçados de perdê-la. Páre de tentar pular essa cerca e simplesmente, deite ali na grama do lado dele, falando de si mesmo...um dia, quem sabe, sem pressa, ele surpreende você com uma frase inteirinha vinda do coração...
Tem hora para ser mãe. Relacionamentos entre pais e filhos são hierárquicos, avalia, Deborah Tannen. É fundamental que sejam assim. No entanto, tem hora para tudo. Talvez aquela horinha do jantar não seja o melhor momento para você fazer grandes e inflamados discursos sobre os “certos” e “errados” da vida – eu sei, porque às vezes também me empolgo! Administrar aquele tal “tempo de qualidade” é tarefa para mães com phD: o tempo com os filhos é curto e quem quer bancar a “mãe horrorosa” naquelas poucas horas em que estamos juntos com eles? Páre de pensar e apenas reserve a hora do jantar para ser um momento “sem broncas”, nem nos filhos, nem no marido, nem na vida!
Quanto tempo é um bom tempo? Toda mãe que já tentou manter filhos e marido em volta da mesa sabe quão difícil é driblar os “tenho que estudar”, “tenho que ver o Jornal Nacional”, “tenho que ir ao banheiro”, “xiiii, telefone!” Não descobri nenhuma receita infalível para diminuir o ritmo fastfood das nossas refeições. Mas, confiando em algumas estatísticas que relacionam o tempo que deveria durar uma refeição com úlceras e outras mazelas de “estilo de vida”, combinei com minha turma que 20 minutos é o tempo mínimo necessário para uma refeição, menos é sinal que ninguém mastigou a comida, 30 minutos é nossa meta...1 hora são vitórias devidamente celebradas!
Falar do quê? Sinto que todas as vezes que o assunto empolga, os convivas esquecem por alguns minutos ao menos das suas urgências. E com tanta coisa acontecendo no mundo, você não deveria ter muita dificuldade para colocar um tópico eletrizante na roda. Lá em casa, temas polêmicos sempre fazem sucesso, ainda que acabem em brigas...Dizem que na família do meu marido, eles gostavam tanto de discutir à mesa, que se alguém perguntasse algo absurdo do tipo: “uma hidra, vagando no espaço, de que se alimenta?”, era capaz de todo mundo sair falando apaixonadamente sobre o assunto...Segundo a doutora Tannen, os homens se envolvem mais quando o tema envolve soluções para um problema. Ou seja, eles se conseguem passar um jantar inteiro discutindo qual o melhor jeito de criar uma rede de computadores em casa. As mulheres, por outro lado, se divertem com explorações mais ou menos aleatórias sobre a vida dos outros. Ou seja, elas fofocam...não, não torça o nariz porque isso não tem nada a ver com nossos estereótipos chauvinistas de gênero e falar sobre os outros não é falar contra os outros. Por isso, suas filhas têm grandes chances de chegarem felizes à sobremesa se o assunto girar em torno dos humanos e das suas emoções...