Depressão pós-parto e cesariana
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Delas – Se o parto é traumático, pois “separa mãe e bebê”, então a cesárea é um fator ainda mais forte para desencadear a depressão?

Vera Iaconelli - A cesariana é uma cirurgia de médio porte e como toda cirurgia tende a debilitar o paciente no pós-operatório, baixando suas resistências e diminuindo seu humor. Ninguém sai "saltitante" de uma cirurgia. Não é a condição mais indicada para enfrentar toda a demanda emocional do puerpério (pós-parto). Cesariana é fator de risco para a depressão pós-parto, ou seja, é mais uma variável que fragiliza a mulher.

Delas – A nossa sociedade condiciona a formação de um pensamento favorável à depressão (individualismo, desigualdades), ou a depressão pós-parto acomete diferentes mulheres, de diferentes sociedades, em diferentes épocas?

Vera Iaconelli - A falta de apoio social, a pressão para a volta ao mercado de trabalho, as questões relacionadas com o corpo perfeito que se espera da mulher, a fragilidade das relações de casal são apenas alguns dos fatores que incrementam a DPP nos nossos dias. A depressão pós-parto encontra um solo fértil para se manifestar na atualidade.

Delas – Como avaliar uma mulher que abandona o bebê logo depois do parto? Ela poderia ser “simplesmente” uma pessoa em condições psíquicas “normais” que cometeu um crime?

Vera Iaconelli - As causas do abandono são múltiplas e não podemos generalizar. Uma mulher se vendo sem condições de cuidar dignamente de seu bebê por questões sociais, de saúde, por exemplo, pode abandonar seu filho para que outra cuide num gesto de desprendimento amoroso. Como a mãe que diante do rei Salomão prefere dar o filho a vê-lo morto.

Já os casos, tão assustadoramente freqüentes na mídia - fora os que conhecemos, mas nem chegam aos jornais - sejam porque a mulher está psiquicamente doente ou temendo represálias diante de uma gestação ilícita (fruto de incesto, de adultério, adolescentes, solteiras), devem ser avaliados individualmente.

Seja como for, quando uma mulher atenta contra a vida de seu bebê, podemos ter certeza que toda a rede social a sua volta falhou. Os pais da gestante, o pai da criança, os colegas de trabalho, aos professores, os vizinhos, a assistência social, os serviços de saúde, onde estavam todos quando este bebê foi deixado aos cuidados de uma mulher incapacitada? Que opção (moral, legal e médica) esta mulher tinha de evitar ou interromper esta gestação? Estes casos precisam ser entendidos para muito além dos distúrbios psíquicos de uma mulher específica, muito além da DPP. Existe uma condição social maior da qual eles fazem parte.

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