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O retrato da família brasileira do século 21
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A Folha de S. Paulo publicou na edição de domingo (7/10) um caderno especial sobre o retrato da família brasileira. A revista é o resultado de uma pesquisa do Instituto Datafolha que compara as mudanças dos valores e relações familiares de 1998, quando foi feita a primeira edição, até os dias de hoje.

Desde então, as questões ligadas à sexualidade foram as que mais sofreram mudanças nesse período. Os pais continuam mais conservadores com relação às meninas do que com os meninos. Mesmo assim, já estão lidando melhor com tabus como homossexualismo, virgindade e gravidez das filhas solteiras.

O maior medo dos pais do começo do século 21 é que os filhos se envolvam com drogas, provavelmente porque as drogas estejam tão ligadas ao narcotráfico quanto com a violência, além dos riscos de praxe como os de saúde e os danos psicológicos.

A família está mais sólida e os homens (quem diria!) se consideram mais felizes dentro do casamento do que as mulheres, mas todos concordam que a fidelidade e traição, respectivamente, são valores que trazem felicidade e infelicidade ao casamento.

Essa análise comparativa vem para mostrar que em nove anos é possível constatar mudanças comportamentais extremamente relevantes para entender a sociedade de hoje.

Pais e filhos... e filhas
A tolerância com alguns comportamentos sexuais aumentou. Mas os pais continuam conservadores, principalmente com as meninas. Há 10 anos, a grande maioria, 78%, declarou que não deixaria (de jeito nenhum) as filhas dormirem com os namorados em casa. Em 2007, esse número caiu para 66% entre as meninas e de 63% foi para 55% entre os filhos homens.

Em compensação,a família está mais aberta para aceitar a homossexualidade dos filhos (queda de 77% para 57%), já não consideram virgindade uma “virtude” necessária (de 39% para 55%) e estão mais acessíveis para lidar com uma possível gravidez de filhas solteiras (de 17% para 30%).

Medo das drogas
Quanto aos valores pessoais, entre bebida, sexo, homossexualismo e mentiras, o uso de drogas é a atitude mais reprovada pelos pais: 85% absolutamente censuram os filhos que fumam maconha.

Mesmo com as discussões sobre descriminalização da maconha, o uso de drogas vem associado à violência gerada pelo narcotráfico, com a idéia de que o usuário contribui para essa violência, além de estar mais exposto à ela.

As famílias dizem NÃO ao aborto!
Enquanto aumenta a tolerância sexual, a aceitação dos relacionamentos inter-raciais e até homossexuais, as pessoas que declaram-se contra o aborto aumentaram. Somente 3% dos entrevistados consideram o ato aceitável, contra 87% que entendem o aborto como uma atitude "moralmente errada".

O curioso é que apesar das leis e as discussões evoluírem para a descriminalização perante a lei, dentro das famílias a evolução é justamente contrária à legalização. Em 1998, 61% dos entrevistados consideraram a prática do aborto muito grave, mas em 2007, essa porcentagem cresceu para 71%.

O aborto nunca esteve tão em voga (aqui no Delas já fizemos uma série de matérias e enquetes), mas a posição com relação a esse assunto tomou uma proporção que transformou-se em juízo de valor que julga “de que lado você está”, o que gera uma discussão entre a vida e a religião.

Religião
Os valores das famílias brasileiras estão muito ligados à religião. Ela está entre uma das instituições mais lembradas, 45% dos entrevistados consideram um tema muito importante.

A instituição "família" também ganhou mais importância e está mais sólida: 69% das pessoas a consideram muito importante. Há até quem diga que esse dado não é um bom resultado, já que ressaltar a família pode significar que a sociedade está concentrando seus valores morais nas instituições privadas e andam desacreditadas do poder público (vide Mensalão, Crise Aérea Renan Calheiros e etc.).

Eles é que querem casar!
Uma outra curiosidade dessa pesquisa comparativa é que, apesar das mulheres serem as famosas casamenteiras e os homens serem conhecidos como os que se esquivam do compromisso, segundo o estudo, eles parecem gostar mais do matrimônio do que as mulheres.

Entre os casados até 25 anos, 92% afirmam que o casamento está "ótimo" ou "bom", contra 89% das mulheres.  A diferença é maior na faixa etária depois dos 41 anos: 87% dos homens contra 77% das mulheres.

Com relação aos problemas do casamento, homens e mulheres concordam que a fidelidade (38%) e amor (35%) são o começo para um casamento feliz, enquanto a traição é a atitude que mais prejudica uma união (53%).

Em 1998, apenas 23% dos entrevistados declararam que a fidelidade era o fator mais importante para o casamento feliz. De lá pra cá houve um aumento de 15 pontos percentuais para 38% em 2007.

Eterna dificuldade das mulheres
Um dado alarmante e que retrata o conservadorismo masculino é que 33% dos entrevistados ainda acham que é dever da mãe (mulher) abrir mão do trabalho pelos filhos, mas 49% concordam com que a mulher trabalhe fora de casa, desde que o salário dela seja realmente necessário para a renda familiar.

Essa mentalidade dificulta o ingresso da mulher no mercado de trabalho com igualdade em relação aos homens. Inclusive essa cultura de que a mulher é a principal responsável pela criação dos filhos justifica um recente estudo britânico que conclui que a luta diária para conseguir conciliar os afazeres domésticos, educação dos filhos e a ambição profissional está fazendo com que mulheres entre os 30 e 40 anos atravessem a "década mais difícil de suas vidas".

Segundo esse estudo, 85% das entrevistadas se sentem freqüentemente cansadas. Paralelos a essa pesquisa, outros dois estudos americanos chegam à conclusão que os homens de hoje são mais felizes que as mulheres. Enquanto elas vêm aumentando as suas atividades desde os anos 60 para cá, eles responderam que trabalham menos e relaxam mais.

Em 1976, 16% dos homens estavam satisfeitos com suas vidas; em 2007, a porcentagem subiu para 25%. Já a porcentagem de mulheres felizes se manteve igual: 22%

Importância dessas pesquisas
Essas pesquisas são extremamente relevantes para entendermos melhor as variações que vêm ocorrendo nos valores da socidade brasileira e para enxergarmos que muitas dessas mudanças seguem uma tendênca global e um determinado padrão de comportamento.

Se antes uma década poderia ser considerada um perídodo muito curto da História, na era da "Pós-Modernidade", Pós-Internet e de franca globalização, as mutações ocorrem de tal maneira e na mesma velocidade que tecnologias de ponta se tornam obsoletas.

Já que as gerações não duram mais o tempo que costumavam durar, esses estudos nos mostram o rumo que a sociedade está caminhando e que ainda existem lutas que estão longe de terminar, como por exemplo o ingresso das mulheres no mercado de trabalho.

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