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Tire suas dúvidas sobre menstruação
Sapatos, essa paixão...
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Não me considero nem de longe uma mulher exageradamente consumista, ao contrário, meu mote vai na linha do “less is beautiful”. E compartilho com as mulheres da minha geração um certo desdém de mentirinha em relação às vaidades femininas, só não consigo entender porque gosto tanto de sapatos...

Pausa nas questões relacionadas à ética e à moral, embora, se a gente entender que essas duas palavrinhas marotas precisam dar conta de todo o arco-íris das ações humanas, essa pausa, na realidade, seja só um desajeito de dizer...

E se até mesmo a omnicitada Clarice Lispector, uma das nossas figuras femininas mais interessantes, misturava sem vergonha nenhuma pura literatura e assuntos de “mulherzinha”, acho que ninguém vai reparar se eu tocar num dos mais típicos temas desse lado B que existe em toda mulher, não importa quão séria ela se julgue: os sapatos!

Toda vez que o problema da existência se resume em fazer caber numa mala tudo que é necessário para embarcar em um entreparênteses na vida, meu marido e eu discutimos sobre a importância dos sapatos.

Ele caminha pelo mundo com um tênis para a corrida sagrada das manhãs, um sapato preto para o terno, um mais esporte para todo o resto. Simples assim...

Sempre começo minha mala imbuída da mesma apreciação pelas bagagens leves...E nunca adianta. Vou parar do outro lado da passagem de avião – ou de carro, ou de trem, só que pior porque as regras das companhias aéreas para bagagens são um grande limitador do guarda-roupa do viajante – com uma sandália havaiana, caso alguém tenha tido a boa idéia de instalar uma piscina ainda que na estepe siberiana; um tênis, para o caso de eu achar mais divertido ir fazer ginástica ou correr em vez de perseguir museus e passear por lugares exóticos; um sapato confortável para peregrinações em geral; uma sandália para a mesma função, só que se fizer um súbito calor -- o clima, como todo viajante sensato sabe é imprevisível e nada impede que os finlandeses acordem um dia ensopados de suor, surpreendidos pelo azul impiedoso de um céu tropical--; um sapato preto para sair à noite, de salto alto; um outro, para o caso de eu não estar no “espírito sapato preto”; uma bota para cavalgar ondas de frio e combinar com a calça jeans; um chinelinho de quarto ou uma havaiana, de outra cor...nunca se sabe...

De onde será que vem esse nosso caso de amor com sapatos?

Simbolicamente os pés nos conduzem, marcam nosso caminho, deixam pegadas. Dizem que Buda, ao nascer, deu sete passos na direção de cada ponto cardeal, enquanto flores desabrochavam acompanhando seus passos. Então firmou os pés sobre terra, apontou para o céu e soltou seu “rugido de leão”. Essas primeiras pegadas de Buda (Buddhapada) até hoje são reverenciadas na Índia, marcam a presença dele na terra.

Os deuses medem o universo com seus pés...Vishnu, o deus hindu da ordem, apresentou-se ao rei dos demônios como um pequeno anão. Pediu um pedacinho de terra, coisa pouca, apenas aquilo que ele pudesse percorrer em três passadas. O rei, gargalhando diante da humildade do anão, acedeu ao pedido. E então o homenzinho transformou-se no gigantesco deus que marcou toda a terra com um único passo e todo o céu com o segundo passo. Diante disso, o rei dos demônios ajoelhou-se em sinal de submissão, deixando que Vishnu pousasse o pé na sua cabeça ao dar o terceiro e último passo...

E as mulheres chinesas mutilaram os pés de suas filhas durante séculos para que eles ficassem minúsculos e praticamente dobrados ao meio. Você achava que era um sinal horrendo de submissão? Eu também, mas estudiosos não descartam a possibilidade da prática ter uma conotação mais sexual e a arte erótica chinesa, de fato, parece ter várias referências às possibilidades sensuais dos pés...

Para Freud também, os pés estão carregados de sensualidade. Seriam símbolos fálicos, que os homens reconhecem e associam ao alívio de alguma ansiedade relativa à castração (sim, a gente anda, anda e não resolve essa história de castração!?).

Nessa linha, os sapatos que os aconchegam os pés-fálicos seriam símbolos do feminino...e, com um pouco de imaginação, a gente até consegue entender porque pés e sapatos, sobretudo os de salto alto, são fetiches tradicionais, daqueles que aparecem em primeiro lugar nas listas dos mais votados, objetos poderosos, mágicos, capazes de evocar fantasias e memórias sabe-se la de que fundo de baú...

E tudo isso porque eu não conseguia decidir que sapato colocar na mala!

Fetiches ou não, sapatos nos ajudam a pisar no mundo. Não são coisas da natureza, impostas, poderíamos perfeitamente bem ser uma espécie descalça. Mas, não, decidimos há eras longínquas agasalhar nossos pés. Pés são afimativos, são companheiros de caminho, escolhas...

Ontem, lendo o recém-chegado Como andar de salto alto, o guia da Cinderela moderna, da jornalista britânica Camilla Morton, fiquei apaixonada pela descrição que o criador dos mais cobiçados pares de sapatos do planeta faz de suas criações. Senhoras, com a palavra, Manolo Blahnik:

“Um bom salto escolhe você, e não o contrário. Não siga tendências, siga a si mesma – você precisa de um sapato que a deixa alta e emperdigada. Sempre fique com a sua primeira escolha, a mais instintiva. Ela é a escolha da sua alma. Você tem de escolher um sapato que a faça parecer ainda mais interessante e sentir-se ainda mais intrépida do que já se sente normalmente. Meus sapatos não têm nada a ver com moda – eles são estados de espírito e momentos querendo ser expressos.”

Naqueles momentos de mulherzinha, tenha à mão o livro de Camilla Morton, recheado de dicas úteis e/ou nem tanto, mas que fazem a gente rir de si mesma....gostoso!

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