Boa tarde Sônia estava lendo a sua coluna no DELAS e me identifiquei.
Estou saindo de um casamento, que nesse ano faria 25 anos. Minhas amigas quando me chamam para sair, mas estou sem dinheiro e quando eu as chamo, elas não podem por alguma razão. Eu não saio sozinha, porque além de me sentir mal, sei que mulher sozinha à noite, tomando um chopinho, comendo pizza é sempre muito mal vista. Me sinto muito sozinha, e às vezes meu ex vem a minha casa e assim não fico sozinha, mas não quero mais ficar nem criar expectativas, o que fazer? Um abraço carinhoso.
DIA DE MUDANÇA - Primeira reflexão
Mudar é muito difícil! E quando mudar significa terminar uma relação de 25 anos, a mudança parece uma pequena morte. Morte de pedaços significativos daquela vida, que o corpo guarda bem fundo, que os sentimentos escondem, mas não podem negar. As marcas que aquela pessoa gravou em nós, sejam boas ou nem tanto, ficarão lá para sempre. E essa relação pode ser de amor, de amizade, ou até de invejas mal resolvidas...
Todos temos uma “caixa-preta”, onde as palavras, os temores, os êxtases, tudo que passamos naquele período estão indelevelmente gravados. Quando há uma separação conflituosa, alguns casais teimam em abrir essa caixa, mas a análise dela é delicada e perigosa e não pode ser feita sob grandes emoções, como acontece após um grande desastre de avião.
Nos casamentos longos, um se torna uma parte do outro e depois de alguns anos, já não se sabe mais o que é de quem. Fico pensando nessa expressão jurídica dos divórcios: “separação de corpos”, indicando que cada um vai viver em um lugar separado. Não é o corpo inteiro que se separa. Eu diria que é apenas uma separação de parte dos corpos, mesmo que haja mágoa e rancor. Os momentos compartilhados são indivisíveis...
Nenhuma amiga vai deixá-la sentir-se menos solitária. Nem ele deveria. Você é que deve mudar o jeito de arrumar suas caixas internas, suas crenças, seus preconceitos.
Os ex-casais seguem suas vidas carregando aquela “caixa preta”, que pode conter relíquias ou entulho. Exatamente como acontece quando mudamos de uma casa em que vivemos muito tempo, ou que passamos os melhores momentos da nossa vida. No dia da mudança de casa, precisamos decidir se levamos as recordações como caixa preciosa ou colocamos o que não queremos mais para reciclar.
Esse é o seu momento de decidir: sua caixa-preta desse casamento contém relíquias a preservar ou lixo para reciclar? Deixo um trecho de um artigo poético que me tocou muito sobre esse tema, do colunista do jornal português Expresso da Folha Online, João Pereira Coutinho, para que reflita sobre o seu dia de mudança:
“O coração é elástico quando somos adolescentes e estúpidos. Usamos e abusamos desse músculo que bate apressadamente no peito como um tambor festivo porque acreditamos que a festa é móvel, um carrossel que não para nunca e que cada tristeza será redimida por uma nova alegria triste. Mas envelhecemos, o coração bate mais devagar. As ondas não rebentam contra as rochas ao som da orquestra: são agora espuma lenta, e apenas se exaltam com a regularidade cósmica de um ciclo lunar. Arrumo tudo, cartas, fotos e recordações numa caixa e pergunto se vale a pena levar o passado comigo e arrumá-lo num sótão, que será um dia revolvido por filhos ou netos. Não vale a pena, mas, quando o homem da mudança pergunta se aquela caixa é pra levar, eu, sorrindo por dentro, como sorrimos com um segredo ou com uma piada privada, digo que sim, que é pra levar. Mas aviso: transporte com cuidado, por favor... Nada é mais frágil do que o passado...”