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O novo pai
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Das muitas mudanças que têm agitado estes nossos tempos, uma das mais marcantes é a maneira como homens e mulheres andam experimentando seus (novos) papéis. Das mulheres a gente sempre fala, mas hoje vamos falar de vocês, homens.

Como é que os homens vivem seus novos papéis? Ser pai, por exemplo, hoje é mesmo muito diferente do que era há algumas décadas. Convidamos a terapeuta Priscila de Faria Gaspar para explicar quais os formatos que estas mudanças vêm adquirindo. Na verdade, pedimos a ela para fazer um...

Retrato do Novo Pai
“Temos observado uma série de mudanças em nossa sociedade. Uma das mais marcantes é a forma que os homens estão agindo na posição de pais. O que há algumas décadas seria estranho e talvez até considerado ridículo, é cada vez mais aceito e, até mesmo, cobrado. Ninguém mais questiona a masculinidade de um homem que troca fraldas, dá mamadeira e leva o bebê para passear. Ao contrário, essas atitudes são encorajadas pelas mulheres em geral, pela mídia e até desejadas pelos homens.

Os homens querem mudar
Embora sintam-se cobrados a terem tais atitudes, muitos homens estão realmente dispostos a um maior envolvimento, físico e emocional, na criação de seus filhos. Culturalmente, a mãe é uma figura idolatrada e poderosa. Parece que, por muito tempo, existia nos homens um desejo reprimido de ser mãe (não como mulher, mas no sentido de cuidar de alguém), e agora esse desejo pode se manifestar livremente.

O pãe
Um dia desses deparei-me, em minha própria casa, com uma novo nome para denominar esse novo pai, que funde numa mesma pessoa os papéis de pai e de mãe. Falei para minhas filhas que eu precisaria ficar no consultório até mais tarde e que elas ficariam com o pai, quando então, ele se autonomeou: “Não sou só pai. Eu sou pãe. Mistura de pai com mãe”. Num misto de queixa por minha ausência e orgulho por poder ocupar as duas posições, na brincadeira, um termo foi criado para nomear aquilo que está sendo vivido diariamente por muitas famílias. Afinal, em um período que a mulher é cada vez mais requisitada profissionalmente, nada mais justo do que partilhar tarefas domésticas e o cuidado com os filhos... Até aí, nenhuma novidade.

O novo pai e os novos filhos
No entanto, como é que isso é visto e sentido pelas crianças? Até que ponto essa aparente fusão de papéis é saudável ou, ao contrário, prejudicial ao desenvolvimento emocional dos filhos? Primeiro, é preciso diferenciar alguns aspectos. É importante saber que uma coisa é ser a mãe, outra, muito diferente, é desempenhar o papel ou a função materna, como se diz em psicanálise.

Função materna: acolher
A função materna é desempenhada pela pessoa que cuida, amamenta (no peito ou mamadeira – tanto faz), olha nos olhos da criança, ouve o que ela diz, está atenta aos seus sinais (orgânicos e emocionais) e desenvolve uma série de pequenas atividades que são de grande importância para a criança (cantar, contar histórias, dar um beijinho no dodói, passar medicamento e assoprar...).

Todas essas atitudes permitem à criança perceber-se como um ser amado, desejado e importante: “Alguém gosta de mim!”. Essencial para o desenvolvimento sadio. Esse papel foi (e ainda é) tradicionalmente desempenhado pela mãe, embora qualquer pessoa possa exercê-lo – desde que realmente dê a atenção necessária à criança!

Não há dúvidas de que, embora desgastante, a função materna é extremamente gratificante, tanto para homens quanto para mulheres. Acompanhar o desenvolvimento de uma criança é, para a maioria das pessoas, algo muito prazeroso, tanto pelo vínculo afetivo como pelas idéias de poder (o poder de criar, de comandar outra vida) e fantasias associadas (meu filho é... ou será..., quero que meu filho seja...), em geral projeções dos próprios desejos da mãe ou do pai.

Função paterna: limites
Tradicionalmente, o pai é a figura que interdita algo, ou seja, que impede o acesso a alguma coisa. A função paterna, portanto, relaciona-se às regras e limites. É o pai quem determina a “lei” dentro de casa: “Isso não pode!”. É importante observar que não há necessidade de expressar essa lei por palavras: às vezes basta o olhar. O pai nem precisa estar presente, pois a figura do pai também é formada a partir do que a mãe fala sobre esse pai: ”Você vai ver quando seu pai chegar!...” .

Além disso, o pai também é aquele que mostra à criança que ela não é a única na vida da mãe, ou seja, permite o amadurecimento da criança às custas de se ver separado de sua mãe. Mesmo sendo doloroso, isso é extremamente saudável para a criança, que a partir daí irá se preparar para outras frustrações, separações. Assim pode aprender a defender-se, caminhar por si. Da mesma forma que a função materna, a função paterna pode ser exercida por outras pessoas, independente do sexo ou do grau de parentesco.

Qualquer pessoa que dite regras ou que se oponha entre a mãe e a criança estará cumprindo esse papel. Quando a função paterna falha, a criança tende a ficar extremamente ligada à mãe (ou à pessoa que exerça a função materna), podendo apresentar, no futuro, dificuldade de estabelecer outros vínculos afetivos.

Os novos casais: confusão ou novas possibilidades?
Na atualidade, boa parte dos casais mescla a função materna e paterna, ou seja, cada um exerce um pouco de cada função. A nossa questão é: até que ponto isso é saudável para a criança? Será que, essa confusão de papéis pode de alguma forma, gerar também uma confusão no desenvolvimento psíquico das crianças? Embora seja muito difícil prever a partir da teoria, a observação de crianças e adolescentes tem mostrado que o desenvolvimento psíquico é saudável desde que ambas as funções sejam exercidas de forma coerente, não importa por quem.

Entende-se por “coerente” que exista um consenso entre pai e mãe. Se ambos ditam regras, que estejam de acordo a respeito delas. Por exemplo: não adianta a mãe dizer que a criança deve ir para a cama às nove da noite se o pai permite que assistam TV até as dez e meia. Neste caso, ambos estão ditando regras conflitantes. O problema não é que os dois exerçam a função paterna, mas o conflito gerado se não houver consenso. A tendência é que as crianças fiquem confusas ou não valorizem as regras.

Obviamente, o casal não deve abster-se de exercer a função paterna. Caso pai e mãe exerçam apenas a função materna -- com muito amor, carinho, todos os cuidados e atenção, porém sem regras- estarão criando filhos despreparados para a realidade. É importante saber que a realidade não é um mundo só de prazer, amor carinho e satisfação, pois inclui perda, separação e frustração. Famílias muito austeras podem apresentar o comportamento oposto: regras em excesso e muito rigor - sem amor, afeto e aceitação --- levam a criança a acreditar que o mundo é um lugar ameaçador, cheio de perigos, onde a satisfação não pode ser encontrada.

Quanto à inversão de papéis ou mesmo mesclar os papéis de pai e mãe, existindo coerência haverá um ambiente emocional saudável para o desenvolvimento da criança.

Dicas para nos novos pais: os pães
Ficam algumas dicas para os novos pais (ou “pães”) e mães:

  • Esteja atento às necessidades de seu filho: ouça-o, olhe nos olhos dele, abaixe-se para falar com ele. Mostre que você está atento a ele.

  • Valorize o que seu filho faz: ajude nas lições, conheça os amiguinhos dele, saiba quais são seus personagens preferidos, compareça às reuniões da escola, eventos esportivos e festivos.

  • Saiba dizer “não” sem se sentir culpado. É melhor que seu filho aprenda a conviver com pequenas frustrações desde pequeno.  Cedo ou tarde ele terá de se deparar com os limites reais da vida e precisa estar preparado,  para evitar grandes decepções.

  • Converse muito com a (o) companheira (o) para definiras regras e os limites, a fim de evitar conflitos maiores. Mas saiba que ter opiniões divergentes, eventualmente, é parte do processo e uma oportunidade de amadurecimento também para vocês.

  • Não tenha medo de errar perante seu filho. Aceite suas próprias limitações e não tema perder o amor dele...  Ainda que ele venha a se decepcionar com o seu “lado mau”, isso é necessário. Até porque, com o tempo, ele terá de descobrir que você, como todo mundo, não é perfeito. Aos poucos ele descobrirá isso e terá mais facilidade para lidar com seus próprios limites e imperfeições

Lembretinho fundamental
É claro que o aleitamento natural é mais saudável sob o ponto de vista nutricional e imunológico. Sob o ponto de vista psicoemocional, no entanto, a “nutrição” é o aconchego no colo, é o envolvimento no carinho e a troca de olhares. Uma mãe que amamenta no peito, mas pega o bebê como se fosse um objeto -como se fosse algo em vez de alguém- não o estará nutrindo emocionalmente. Ao contrário, mesmo com a mamadeira é possível transmitir ao bebê o carinho necessário para seu desenvolvimento.


Colaboradora
Priscila de Faria Gaspar é bacharel e licenciada em Ciências Biológicas pelo Instituto de Biociências da USP, mestre em Ciências pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN / USP), Psicanalista e Terapeuta de Regressão.

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