Se há algo importante que aprendi nesses anos todos, é que você trabalha exatamente como você é, e você é o que você trabalha. Não há possibilidade de manter uma persona falsa e interpretar um papel muito diferente do que você realmente é, por muito tempo, sob pena de perder sua identidade.
Aquilo que existe de mais espontâneo, e por isso de mais bonito dentro de nós, mesmo que escondido, mesmo que controlado, escapa nas palavras, nos gestos, nas atitudes. A maneira de ser pessoal se sobrepõe a qualquer tipo de profissão.
Não existe um bom terapeuta se a pessoa que atende um paciente não for um ótimo ouvinte. A escuta ativa talvez seja o que o profissional da emoção tem de mais criativo, de matéria-prima para direcionar um problema.
Não existe um bom humorista, se aquele ator, ou atriz não tiver dentro de si, o vírus da alegria, do deboche, e até de certo sarcasmo. Se não souber olhar a vida e os amigos pelas lentes da observação cômica, benevolente.
Por essa razão, Nair Bello é uma grande humorista e uma grande amiga. Essa curiosidade quase infantil diante da vida se traduzia na sua gargalhada, inconfundível, especial. Ao iniciar a carreira, em papéis dramáticos, não conseguia conter o riso diante do inesperado. A piada sempre acompanhava a frase do texto da rádionovela...
O diretor da rádio na época, Blota Junior, meu pai, impressionado com aquela reação dela de literalmente chegar a chorar de rir, soube que o destino da atriz estava atrelado a contagiar as pessoas com aquela risada tão dela.
E a levou para a comédia. E para dentro da nossa vida. Foram mais que amigos, foram compadres, algo que não sei se hoje as pessoas sabem ainda o profundo significado que tem. Acompanharam-se de perto, e de longe, no sucesso profissional e no amor familiar e pessoal.
Abraços e conforto nas tragédias dos dois lados das famílias, brindes e comemorações nas alegrias e conquistas, o choro sempre tão próximo do riso, a morte sempre tão próxima da vida, exatamente como deve ser.
Acompanhei viagens de chegada e de partida deles todos, e ontem foi uma delas.
E por ter sido acompanhante de tanto talento, de tanto profissionalismo, é que aprendi tanto com a pessoa que ela é. E, no coração da gente, não há partidas para sempre. Só até breves. Boa viagem comadre, obrigada por tudo que pudemos viver juntos!
Um beijo da quase filha Sonia Blota