Oi Sonia, namoro uma menina há quatro anos. Ela está gordinha, mas sempre foi meio cheinha.
Fomos morar juntas apesar de sempre achar que não daria certo, e faz mais de um ano que a gente não transa. Mal nos beijamos.
Gosto dela, mas acho que ela deveria se cuidar mais, comprar umas lingeries mais sedutoras. Eu a venerava quando a conheci. Ela era linda e moderna.
Hoje sinto que me distanciei muito, mas não consigo acabar o relacionamento, porque sei que posso me arrepender.
Conversamos e resolvemos que ela voltaria pra casa da mãe pra gente ver se tudo volta a ser como era antes. Agora estamos dormindo em quartos separados.
Sei que ela está triste, mas será que estou fazendo a coisa certa???
Não importa se a relação é hetero ou homossexual, como é o caso de hoje, o processo da paixão é sempre muito parecido: no início, logo que somos flechados por Eros, ou Cupido, a outra pessoa é perfeita. O beijo tem sabor de quero mais, o sexo é arrebatador, e tudo que ela faz, nos deixa embevecidos...
Durante essa fase, na verdade não estamos olhando para a outra pessoa, (por isso se fala que a paixão é cega) mas sim através da outra pessoa, dirigindo a visão para nós mesmos e para a nossa potencialidade de amar.
É como se descobríssemos o quanto somos capazes de amar naquele único encontro, naquele olhar. Psicologicamente esse estado é chamado de “projeção”: o outro é apenas um cabide onde se penduram as expectativas mais irreais, os amores mais idealizados.
Existem projeções que duram muito tempo, mas sempre, obrigatoriamente, acabam. E quando se tira da frente dos olhos esse véu de ilusão, a namorada que era moderna, linda, simpaticamente cheinha apresenta-se sem vaidade, sem lingerie, sem tempero...
Será que foi ela que mudou tanto assim em quatro anos? Pode ser, mas aposto mais na mudança da sua visão sobre ela. O que saiu do cenário foi a sua veneração por ela, a imagem dela que você criou para se apaixonar.
A vantagem é que paixão pode e deve se tornar amor: real e maduro, de duas mulheres adultas e complexas. Mas não acredito que você consiga fazer isso ao tentar voltar a situação no tempo.
Não é ela que precisa voltar pra casa da mãe, é você que precisa voltar para dentro de você e decidir se quer seguir em frente sem mais ilusões, ou termina esse relacionamento e procura de novo aquele estado de “paixonite”, que é muito gostoso de sentir, mas, felizmente em se tratando de amor, é falso.
José Luiz Tejon, em seu livro O beijo na realidade diz: “O grande problema da vida moderna é a confusão maior entre sonho e ilusão. Sonho é o que fazemos com a realidade enquanto sonhamos. Ilusão é o que a realidade faz conosco enquanto nos iludimos”.
Dê um bom beijo na realidade para reconstruir esse amor, se você achar que deve: assuma as responsabilidades e crie o prazer de crescer com solidez.
Um abraço,
Sonia Blota