Meu pai saiu de casa quando eu era muito pequena e nunca mais apareceu. Tenho amigas que passaram por coisas parecidas e todas querem procurá-los, ou pelo menos saber quem eles são, mas eu tenho tanta raiva do que ele fez que fico feliz por ele não ter voltado e não tenho nenhuma vontade de procurar por ele. Minhas amigas dizem que eu sou estranha por nem querer saber o que é ter um pai, ou de onde eu vim, mas simplesmente não tenho nenhuma vontade e acho que pai é quem cria. Isso é normal?
Tem mãe que é pai
A figura do pai é de extrema importância para o desenvolvimento saudável das pessoas, o principal papel do pai é mostrar ao filho como funciona a ordem do mundo, quais são as leis da vida, as possibilidades e os caminhos a seguir. Mas esta figura não precisa ser necessariamente o pai natural ou biológico, a criança pode construir essas experiências dentro de si com alguma figura importante da sua vida que desempenhe tal papel.
A figura paterna pode estar no padrasto, no tio, no irmão ou até na própria mãe. O último senso familiar na cidade de São Paulo constatou um enorme crescimento de famílias criadas somente pela mãe. As experiências com todas as figuras paternas para criança vão se somando e se organizando em torno da sua imagem interna de pai recheando-a de características que podem ir da mais pura bondade ao tirano mais terrível. É na relação com essa figura externa que a imagem paterna interior vai sendo humanizada.
As experiências de vida com um pai excessivamente bondoso podem levar a um filho submisso, que pode passar a vida numa eterna busca de figuras amorosas e fortes que não podem ser contrariadas ou ultrapassadas. Na figura oposta, experiências com alguém ameaçador podem levar naturalmente a um grande medo de viver. De qualquer modo, resolver esses conflitos significa encontrar coragem para encarar o pai de frente, seja deixando de idealizar essa figura dentro de si, seja deixando de negar a existência e a importância dele no processo de amadurecimento.
Então, se as figuras paternas na sua vida foram suficientes para colocá-la nos caminhos certos, não há nenhuma necessidade de procurar esse pai natural. Mas, se trabalhar a raiva pode ser libertador no sentido de uma vida mais saudável para você, talvez valha a pena pensar no assunto.