Ontem comprei um anel para mim, me dei de presente. Assim sem razão. Não era meu aniversário, nem era uma daquelas situações de emergência da alma que a gente resolve na base da troca: vontade de comer uma caixa de chocolate X compras, se deprimir depois de uma briga com o parceiro X compras, achar que a vida anda tão sem sal X compras, vontade de chorar horas sem parar X compras.....nada disso, ontem me dei um presente simplesmente porque queria muito agradar a mim mesma!
Nem é uma jóia, é quase, e com certeza foi uma extravagância danada em tempos de salários magros, mas era uma coisa que eu desejava há anos, a expressão, concreta, real, de uma imagem de mim que eu venho parindo devagarzinho, na medida das ousadias e da coragem...meu anel fala de mim, diz das minhas vitórias e, no fundo da pedra, feito um olho amarelo de gato, eu vejo o convite para celebrar minha feminilidade... comprar meu anel foi uma celebração!
Coincidência (ou não?) abro a Marie Claire e leio uma reportagem sobre outras mulheres que resolveram uma vez que seja na vida se dar presentes assim, presentes-sonho, acalentados anos, gestados e curtidos pela espera e pela antecipação...
Uma se ofereceu uma tatuagem para marcar na pele a adoção dos dois filhos, outra, como eu, comprou um belíssimo anel, só que um Dior, “de verdade”, duas rosas enroladas em um ninho de fios de ouro, para “simbolizar” a parceria entre ela e o marido e o filho que é fruto desta união, a menina do interior se deu um par de botas, “botas de mulher”, para afirmar a nova vida na cidade grande que começava...Uma viagem ao México, um quadro...para todas, o gesto de se presentear era o símbolo de um movimento de intimidade em relação a si mesma.
A gente dá presentes por um sem-número de razões. Para dizer parabéns, para cumprimentar por uma vitória, para mostrar afeto. Em latim, descubro uma palavra velha, strena, que significa algo como “bons presságios”, mas que está na origem de um dos nossos hábitos favoritos: dar presentes para celebrar inícios, começos, passagens...
Strenia era uma deusa romana, uma das mais antigas, da mesma época da história que a gente aprende na escola sobre os gêmeos, Rômulo e Remo, que fundaram a cidade de Roma e foram alimentados por uma loba, lembra dela? Strenia era portanto a deusa da boa fortuna, da sorte, dos bons votos. Diz a lenda que o rei Rômulo, quando entrou na cidade para vir a ser o primeiro rei da Itália, recebeu de presente dos seus guerreiros ramos de folhas verdes de um bosque dedicado à deusa. Daí nasceu o costume de trocar presentes no Ano-Novo, para celebrar o início de um novo ano.
Também bebem nessa fonte antiga, nossa tradição de dar presentes no Natal, no aniversário de alguém querido, em casamentos, inaugurações, estréias...pontos de partida que marcam o caminho já percorrido e a direção para onde nosso olhar aponta. Meu anel e os presentes das mulheres da Marie Claire não tem nenhum parentesco com febres de consumo, ao contrário, ele marca um momento assim, de pausa no caminho e reflexão sobre as conquistas e as derrotas até aqui...
E depois de ler esta historinha, fiquei aqui imaginando que no fundo ninguém precisa de uma razão melhor para celebrar.
Agora me diga: que presente especial assim você daria para si mesma? E o que ele simbolizaria para você?
Só para os muito curiosos: um dicionário de latim e de grego para mergulhar nos clássicos...