“A suspeita e o ciúme são como venenos empregados na medicina: se pouco, salva; se muito, mata”. (Antonio Perez)
É muito provável que todas vocês conheçam um caso onde o ciúme excessivo foi o responsável pelo final de um relacionamento. O mais curioso é que, segundo a psicóloga Kelem de B. Pizol, este sentimento é uma ferramenta evolutiva: “ele serve justamente como um sensor de perigo e sua função é preservar o relacionamento” revela a profissional formada pela USP (Universidade de São Paulo).
Conclusão: se o ciúme, em doses homepáticas, serve pra mostrar o seu amor e defendê-lo, em exagero ele pode ter – e quase sempre tem – a função inversa: afasta a pessoa amada. Do mesmo modo, a ausência do sentimento pode prejudicar a relação a dois, deixando o parceiro com a sensação de não ser amado o suficiente.
Que o ciúme é natural e quase inato, não resta dúvida, “a diferença é o grau de ciúmes que as pessoas sentem”, coloca a psicóloga Kelem de B. Pizol. A questão é: como saber reconhecer este limite?
Para responder a esta pergunta não é tão difícil, basta parar para pensar se o seu ciúme chega a incomodar o seu parceiro. C. P, 18 anos, percebeu que seu ciúme estava prejudicando seu namoro e tentou mudar. Mas já era tarde, o relacionamento já estava desgastado e estruturado em bases fracas: insegurança e possessividade. “Sempre que meu namorado ia a algum lugar sozinho eu pedia que ficasse, tinha ciúmes das amigas dele e queria atenção 100% voltada para mim”, descreve ela.
Depois de duas semanas solteira, ela pensa em trabalhar este seu defeito para o futuro: “de agora em diante vou priorizar questões particulares e cuidar mais da minha vida. Assim acho que vou estar mais segura e não tão dependente da pessoa com quem estou me relacionando”.
É... Quando o ciúme sufoca e cerceia a liberdade do parceiro, ele acaba por afrouxar os laços que unem o casal. “O controle que o ciumento tenta impingir ao seu parceiro vai ‘sufocando’ a vítima do ciúmes, que se afasta cada vez mais para poder "respirar". Seus atos, suas amizades, seu trabalho, seus pensamentos, suas fantasias e lembranças, tudo parece ameaçar a segurança do ciumento. O ciúmes doentio faz com que sua vítima se sinta cada vez mais ressentida com a falta de confiança do companheiro” coloca a psicóloga Kelem de B. Pizol .
Quais serão os motivos que levam algumas pessoas a ter tanto ciúmes? Os mais conhecidos com certeza são a insegurança e o medo de ser abandonado. “Agora, os motivos variam muito dependendo das características das pessoas envolvidas e do tipo de relacionamento” afirma Kelem P.
Flávia*, 28 anos, é do tipo que tem sempre problemas de ciúme com quem se relaciona. “Sou muito comunicativa, gosto de conhecer gente nova e isso acaba deixando as pessoas que estão ao meu lado inseguras” conta ela. “Estava saindo com um homem ciumento por natureza, aí pronto, juntou a fome com a vontade de comer. Um dia estávamos em uma festa de uns amigos meus sentados em uma mesa e fui ao banheiro. Quando sai, um moço me abordou na porta. Levei uns segundos para dispensá-lo quando vi o Carlos pegando no colarinho do moço e empurrando-o contra a parede e perguntando se ele estava louco de falar comigo. A festa parou. Foi horrível, depois ele me contou que achou que estávamos juntos no banheiro!”, relata Flávia*.
A solução para ciumentos compulsivos é encontrada na maioria das vezes apenas com ajuda profissional de um psicólogo ou psicoterapeuta. O ciúme que se torna grave é aquele que a pessoa inventa os motivos, distorce significados de conversas e vê coisas onde elas não existem. Isso por que, “quando o ciúme tem razão de ser, deve ser demonstrado sem exageros e de maneira leve” orienta a psicóloga.
Kelem Pizol aconselha que todos tentem se ajudar sozinhos em um primeiro momento, e só depois procurar ajuda profissional. Só o fato da pessoa reconhecer que precisa rever suas atitudes já é um grande passo, significa que ela percebeu que pode estar com desvios emocionais ou problemas de auto-estima.
Mulheres muito ciumentas devem – e homens também, lógico – em primeiro lugar, procurar avaliar com clareza as situações que lhe causam ciúmes. Será que você está percebendo as coisas como elas realmente são? Perguntar para pessoas de confiança o que acham sobre o comportamento do parceiro também pode ajudar a tornar mais clara suas avaliações. Se ainda assim sentir dificuldades em controlar os sentimentos e as atitudes, ai é o caso de procurar ajuda profissional.
Alvos de ciúme exagerado também podem ajudar seus parceiros. Uma conversa franca e aberta pode mostrar que acusações e desconfianças podem acabar sufocando e provocando decepção e tristeza. Ao mesmo tempo é importante passar certa segurança, desta forma o ciúmes pode ser amenizado aliviando tensões para ambos.
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“O ciúme infinito, às vezes acorda a curiosidade que está dormindo”. (Provérbio brasileiro)
“Os ciumentos não precisam de motivo para ter ciúme. São ciumentos porque são. O ciúme é um monstro que a si mesmo se gera e de si mesmo nasce”. (Shakespeare)
“No banquete do amor, o ciúme é o saleiro, que ao querer verdadeiro empresta vivo sabor. Advirta-se porém ser erro temperar em demasia. O ciúme, por ser só sal um retrato, se posto demais no prato, não tempera, antes maltrata”. (Tirso de Molina)
“De todas as enfermidades que acometem o espírito, o ciúme é aquela a qual tudo serve de alimento e nada serve de remédio”. (Montaigne)
“Não pode florescer ternura onde vicejar ciúme”. (Antonio de Castillá)
“O ciúme é mistura explosiva de amor, ódio, avareza e orgulho”. (Alfonso Karr)
“O ciumento que se encoleriza ante a suspeita de não ser amado é um tirano. Se te arriscas a vir a ser um mau em razão de um prazer, renuncia a esse prazer; se te arriscas a ser um tirano em razão de um amor, renuncia a esse amor”. (Silvio Pellico)
“O ciúme é indicio de baixeza moral: aquele que desconfia merece que ninguém lhe dê confiança, pois o homem avalia o proceder alheio pelo seu”. (Demófilo)
“A suspeita é conselheira dos prudentes e dos discretos”. (Calderón de la Barca)
*O nome foi alterado a pedidos de quem deu o depoimento. O outro caso, ela preferiu colocar só as inicias para não se expor.
Consultoria KELEN DE BERNARDI PIZOL Psicóloga graduada pela Universidade de São Paulo CRP06/56212-8
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