Olá Sonia,
Meu filho tem 8 anos, anda triste, vive colado em mim e não quer mais ir para a escola. Ele é um ótimo garoto e nunca teve nenhum problema. Mas sinto nas crianças de hoje uma angústia, um estresse danado. Pode até ser que eu esteja canalizando o meu, mas duvido que isso não seja verdade. Melhor do que eu, você sabe que muitos pais querem filhos meio com jeito de porquinhos-da-índia... Como devo reagir diante desta angústia do meu filho?
Bullying e os porquinhos-da-índia
Gostei muito dessa expressão “muitos pais querem filhos com jeito de porquinhos-da-índia”...
Quantos pais cerceiam as palavras e as emoções dentro da casa para que seus filhos não sejam rebeldes e contestadores e sigam o rebanho o mais mansamente possível.
Claro que isso pode ter a ver com querer educar gente de índole pacífica, mas impedir que os mansos comuniquem suas necessidades tem mais a ver com repressão, com não- confrontação, do que com a promoção da paz.
No Brasil, ainda se fala muito pouco a respeito mas já existe uma considerável preocupação com as crianças agressivas que agem assediando os menores e mais fracos na escola, nos parquinhos nas ruas perto de casa e, mais recentemente, pela Internet. São os chamados “bulliers” ou molestadores, por falta de melhor tradução do termo.
Considera-se bullying direto socar, chutar, empurrar e cuspir. Insultar, provocar verbalmente, ofensa racial e ofensa verbal. Ameaçar e fazer gestos obscenos.
O interessante é que alguns comportamentos comuns das chamadas “panelinhas” de escola (como deliberadamente excluir alguém de um grupo ou de uma atividade) são considerados bullyings indiretos.
Alerta: ele pode ser um molestador!
Sabemos hoje que a personalidade do molestador inclui frequentemente se machucar em brigas ou conflitos, roubar, vandalizar propriedades, beber, fumar e/ou usar drogas, ser ocioso, cabular aulas, fugir da escola. Enfim, a versão moderna do nosso conhecido delinqüente.
Mas para ser caracterizado como bullying tem que existir um descompasso de força ou de poder na relação e a repetição deste padrão de comportamento. O bully ameaça os conhecidos – colegas de escola, amiguinhos da rua, do prédio, do condomínio -- não estranhos e este comportamento é crônico.
Não quero dizer que seu filho esteja sofrendo algum tipo de bullying. Mas vale a pena investigar junto à escola como andam as coisas.
Preste atenção: ele pode estar sofrendo
A criança que se sente molestada apresenta baixa auto-estima, angústia ou depressão, altas taxas de absenteísmo (recusa-se a sair de casa ou ir à escola), desajustes em relação ao grupo. É solitário e com relacionamento pobre com os colegas da classe ou de outros grupos.
Sintomas físicos dos molestados: dor de cabeça freqüente, problemas de insônia, terror noturno, dores abdominais, tensão nervosa, ansiedade, infelicidade.
Alguns sinais de alerta para os pais: hiperatividade, dificuldade de concentração, pavio curto, baixa tolerância a contrariedades e provocação podem ser sinais de estar passando por um processo de bullying.
Acho muito louvável que você esteja atenta para as expressões e temores de seu filho e, mais ainda, que saiba quais as expectativas que os pais colocam nos filhos, observando ao redor e colocando as coisas numa perspectiva real.
Os molestados dificilmente contam para pais ou professores o que acontece na verdade. E os pais muitas vezes desprezam os sinais que eles enviam, achando que são bobagens ou coisas de criança.
Prestar atenção na criança e tentar entender suas necessidades é fundamental. Saber quando procurar ajuda especializada também. Existem momentos em que os pais nem devem tentar resolver sozinhos. A escola também deve ser incluída na solução do problema. Os porquinhos-da-índia bonzinhos em excesso são o outro lado da moeda dos valentões agressivos. E ambos precisam de ajuda.