Está no ar a primeira rede de TV com 24 horas ininterruptas de programação inteiramente voltada para entreter bebês menores de 3 anos!?? A Babyfirst TV chega oferecendo programas educativos de alta qualidade para ajudar os pais a interagirem com seus bebês e promete, nada de comerciais, ufa!!!!, mas está provocando a maior polêmica entre os especialistas e entre os pais: será que assistir TV faz mal para os bebês?
A pediatra do tradicionalíssimo hospital infantil Mount Sinai, dra. Danielle Laraque é bem categórica: nada de TV para os pequenos, é uma atividade muito passiva. “Sabemos que as crianças aprendem melhor através das interações pessoais”, ela argumenta em um artigo da MSNBC. E a Academia Americana de Pediatria faz coro, afirmando oficialmente que “até que sejam feitos estudos mais aprofundados, não recomenda televisão para crianças de menos de 2 anos. Nesta fase, as crianças precisam de interações saudáveis e positivas com outras crianças e adultos para desenvolver de modo satisfatório a linguagem e as aptidões sociais. Aprender a falar e a brincar com os outros é muito mais importante do que assistir televisão”. E ponto final.
Será mesmo? Nos EUA, que têm estatísticas para tudo, um estudo conduzido pela Kaiser Foundation, Zero a seis, a mìdia eletrônica na vida dos bebês e das crianças pequenas. revela que um em cada 4 crianças de menos de 2 anos têm um TV no seu quarto, um terço delas vive em casas onde a TV fica ligada o tempo todo, mesmo se ninguém está assistindo e, entre essas, a dificuldade de leitura é maior do que a média. Mostra também que os pais, embora coloquem regras para o uso da TV, são bastante favoráveis a presença da televisão na vida dos seus filhos.
Quando meu filho mais velho nasceu, lembro de ter lido em algum livro-guru para mães de primeira viagem que os bebês eram atraídos por cores vivas porque -- para meu absoluto espanto na época -- eles nascem praticamente cegos! É claro que enchi o quarto dele com tudo que consegui encontrar de muito colorido e o berço onde ele placidamente costumava dormir, ignorando meus esforços para apressar o tempo, era uma festa de panos de todas as cores!
Aos poucos, ele foi me ensinando que realmente não via nada bem, mas ouvia melhor do que qualquer cachorrinho, parecia sentir com todo o corpo minha presença em volta dele e fazia caretas engraçadas quando era tocado...
Foi com ele que aprendi de novo que o mundo tem, além de cores e formas, cheiros, sabores, texturas elétricas, toques suaves, que as palavras são desdobramentos de sons mais primitivos, porém igualmente expressivos, e que mesmo parecendo tão despreparado para o mundo, aquela criaturinha tinha vontade de ferro e um “impulso irresistível para a vida”, como me lembrava todo mês meu pediatra sábio.
Bebês são seres redondos, não concordam? Piaget, o pai de quase tudo que se sabe hoje sobre bebês, dizia que não adiantava forçar as coisas, as crianças nascem com “tarefas” a cumprir num prazo que é só delas e não tem nada a ver com as aflições ou as vaidades das mães. Primeiro, elas aprimoram alguns reflexos, como sugar e agarrar, depois vão aprendendo a se entender com os hábitos, dia e noite, hora de dormir, hora de mamar... lá pelos nove meses, meu livro-guru me dizia para prestar atenção: meu pequeno já tinha descoberto que o mundo habitado por dezenas que pessoas que NÂO eram a mamãe e que ela ainda não conhecia direito, portanto, tinha medo delas e chorava a cada vez que algum estranho tentava colocá-lo no colo.
Também andava treinando sua capacidade de agarrar coisas e jogá-las longe para ver se desapareciam e ria quando eu pegava o objeto reencarnado e devolvia para ele, viu só, ele existe, ainda que você não esteja vendo...agora, sim, ele via nitidamente os panos vermelhos pendurados no teto, ria deles e ria junto com a mãe meio amalucada que tinha. E então, lá pelos 12 meses -- ou teria sido com um ano e meio? – ele subitamente transformou-se num “mini-einstein” e saiu à descoberta do mundo! Nada, literalmente, deixava de fasciná-lo e tudo, literalmente, era objeto de conhecimento e de experimentação, incluindo aí torneiras de onde sai água, respingos de sopa que voam pelos ares quando devidamente estimulados, objetos estranhos como enfeites que moram em cima da mesa, coisas nojentas ou não que vivem pelo chão, botões de liga e desliga de modo geral e, mais do que tudo, a imensa janela do universo, feita de gramas, barulhos, ventos, bichos, coisas bem pequenininhas e coisas absurdamente grandes...
Nada é mais interativo do que um bebê e toda mãe sensata aprende a desconfiar quando eles estão tão bonzinhos, tão quietinhos, tão sossegados ou quando há muito tempo não vêm “incomodar”: deve ser febre... bebês, entre os dois e três anos, parecem mesmo adolescentes, cheios de tarefas, urgências e de desafios, frustrações e medos...tudo é novo e excitante!
E foi lembrando destas coisas que fiquei pensando na TV para bebês. Livros, músicas, TVs, computadores são feitos aqueles panos vermelhos: desafios que produzem faíscas de consciência e estimulam as crianças a se tornarem cada vez mais competentes para lidar com o mundo.
Ninguém espera que um bebê só leia ou só durma ou só brinque..preocupantes são os pais que vivem suas vidas nestes tons monocórdios e ensinam seus filhos fazerem o mesmo, largados juntos, vegetando diante da TV. Talvez esteja na hora de pendurar panos coloridos nas janelas, nas ruas, nos galhos das árvores para fazer todo mundo prestar atenção...
O que você acha? Está certo ou não as crianças pequenas assistirem TV? Você acha que um programa de TV pode substituir outras coisas como contatos, tempo de brincar e de estar junto com os pais? Dê sua opinião lá no nosso fórum de comentários...
O que os pais podem fazer em relação a TV:
http://www.aap.org/advocacy/childhealthmonth/tv-2.htm
Leia a matéria da MSNBC:
http://www.msnbc.msn.com/id/12744713/
E navegue pelo site da Direct TV, criadora da Babyfirst TV
TV: modo de usar, pela Academia Americana de Pediatria
Compre o livro Segredos de uma encantadora de bebês, da enfermeira britânica Tracy Hogg
Toques de Alma - um olhar feminino, da editora Rosa Rumo, reunião das crônicas de Adília Belotti, publicadas no Árvore do Bem e no Delas já está à venda.
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