Quando foi que sua relação com a comida deixou de ser natural e espontânea? Lembra? Quando comer passou a ser um sofrimento? Quando foi que você passou a comer sem fome? E a continuar comendo, muito tempo depois dos primeiros sinais de “chega”, aliás, quando foi que a gente desaprendeu a dizer “estou farta”? E pior, em que momento caímos na armadilha de compensar os exageros com privação?
Poucas mulheres conseguem passar incólumes pelo discurso da “beleza é igual a magreza”, não é? Lembro daquela comédia musical dos Blues Brothers americanos, e de uma cena onde várias mulheres negras e imensas levantavam-se de suas máquinas de costura para dançar, belíssimas com seus corpos cheios de ritmos ondulantes...Não, definitivamente, nem sempre beleza é sinônimo de magreza, e nem sempre a beleza nasce apenas da visão do espelho, ao contrário, recuperar o prazer de se olhar no espelho é talvez o primeiro e mais fundamental passo para você se sentir bela.
E existem, sim, sinais de que isso não é nenhum movimento solitário de autocomplacência...afinal, quando se viram tantos outdoors com imagens de mulheres “reais” de todos os tamanhos e cores enfeitando nossas praias, brincando com suas curvas e despenteando seus cachos? E já reparou como o tom das dietas da moda vem mudando? Até a palavra privação vem sendo banida dos manuais e substituída por eufemismos menos cruéis, como “melhores escolhas” ou “escolhas saudáveis”...
Ano passado, o livro Mulheres Francesas não Engordam fez muita gente repensar padrões envelhecidos de dieta. “Reaprenda a gostar de comer”, ensina a autora, uma francesa autêntica, amante de champanhe, como deve ser. O que engorda é o jeito “cego” como comemos e não aquilo que comemos. Expandir o paladar é a palavra de ordem também dos grandes chefes de cozinha, como o espanhol Ferran Adrià, dono de um dos mais badalados e polêmicos restaurantes do mundo, o Il Bulli. O desafio é devolver à experiência de comer toda sua riqueza e envolver os cinco sentidos no processo de saborear o alimento. Na cozinha do chefe espanhol, a revolução é subverter regras antigas e ensaiar algumas mágicas, como fazer desaparecer a entrada, embrulhando-a no prato principal, ou tornar o conceito de sobremesa obsoleto, transformando queijo parmezão em sorvete...
Uma das últimas dietas “da moda”, a Sonoma Diet, promete: “O truque é comer devagar, saborear o alimento e transformar cada refeição numa celebração” Para quem, como eu, andava cansada de “não podes” e de “nunca mais”, uba, afinal, por que não?
Mas como fazer para recuperar o prazer natural de comer? Nós, que confundimos comida com afeto e nos privamos dela por culpa ou por punição ou que comemos para encher um vazio que não tem nadinha de físico?
Para curar nossa relação com a comida, a primeira lição seria tentar responder à pergunta: do que temos fome? É o que propôem vários autores, entre eles Lynn Ginsburg e Mary Taylor, que escreveram o livro interessantíssimo: Do que você tem fome? Responsáveis pela seção de Nutrição do Yoga Journal, uma das mais importantes publicações sobre Yoga, as duas são amigas e ambas ficaram presas durante algum tempo no mundo de pesadelos dos distúrbios alimentares. E é com esta dupla autoridade que elas arriscam a dizer que a gente tem fome de si mesma, fome de viver e fome de espiritualidade, no sentido mais amplo, como harmonia entre nossa natureza interior e a vida que decidimos levar e que expressa estes valores mais profundos.
Fome de si mesma? A psicóloga junguiana Marion Woodman concorda: “A ligação íntima entre o alimento físico e o alimento religioso é evidente. (...) Elas (as mulheres com distúrbios alimentares) anseiam pelo seu “pão de cada dia”, mas encaram o símbolo em termos concretos. (...)Não conseguem perceber que há um espírito que anseia por encarnar-se nos seus corpos e que o relacionamento com esse espírito pode levá-las à percepção do seu próprio Ser feminino, seu Self abandonado. (...)Só por este caminho, elas podem chegar ao sentimento de pertencerem à vida e sentir a realidade pela qual anseiam.”
O caminho do nosso ser feminino não é nem fácil e nem sempre agradável. Mas existem alguns truques para colocar na bagagem quando a gente se decidir a enfrentar esta estrada. Um deles é fazer o exercício de comer cada vez mais consciente. Faz sentido não é? Muitos dos nossos desvarios em relação à comida são feitos em segredo, um segredo tão profundo que nos faz mergulhar na inconsciência. Só podemos nos libertar deste padrão de comer inconsciente das necessidades do nosso corpo se trouxermos o próprio ato de comer para o aqui e o agora...e isso quer dizer: aprenda a perceber quando está com fome...de comida! E exercite a alimentação consciente...
Para começar, pincei algumas das muitas práticas para a alimentação consciente que você pode encontrar no livro Do que você tem fome? Com alguns comentários meus...
Estratégia 1. Aprenda a distinguir fome, hábito e impulso. Reconhecer a sensação de fome é fundamental. Por isso, quando o estômago roncar pergunte para si mesma: Isso é fome? Ou é cansaço, tédio, falta de motivação ou você acabou de se dar conta de que “é meio-dia e você sempre almoça ao meio-dia”? Se concluir que é fome, concentre-se nesta sensação por alguns minutos, como se quisesse memorizá-la. Já aviso, no início é difícil, mas depois vira uma espécie de hábito...
Estratégia 2. Descubra do que tem fome. Depois de concluir que está com fome, feche os olhos e pergunte-se “fome do quê?”...perceba a imagem que vem a sua mente. Mergulhe na fantasia sem medo e tente expandir sua idéia de comida. Afinal, o mundo dos alimentos é muito mais interessante e complexo do que batata frita e chocolate. Ao menos, não custa nada experimentar. Neste momento, você gostaria de algo assim...hummm, cremoso? Salgado? Suave? Amargo? Frio? Morninho? Picante ou ácido? Eu, por exemplo, descobri que adoro coisas picantes e quentes e isso inclui todo tipo de coisas do mar com muita pimenta, pimentões recheados e sopas de abóbora com ricota defumada...e nada disso conta metade das calorias de um cheesesalada! Vamos lá, seu corpo tem uma sabedoria que há muito tempo você deixou de reconhecer...Aos poucos, você vai reaprender a confiar nas mensagens e nas informações que recebe dele.
Estratégia 3. Acredite, você não precisa limpar o prato. Se você é como eu, muitas vezes teve que brigar com a idéia de que sobrar comida é pecado... “pense nas crianças sem comida” e tal...pois é, faça qualquer outra coisa sobre isso, menos comer sem pensar apenas para “limpar o prato”. Sei, sei, é difícil, mas introduza na sua refeição um momento de pausa para perceber se ainda está com fome ou se poderia parar de comer naquele mesmo instante. Se decidir que está satisfeita, apenas largue os talheres e volte sua atenção para a conversa ou, se estiver sozinha, peça um cafezinho...já! E corra para fazer alguma coisa mais eficiente e muuuuito mais prazeirosa do que encher sua barriga pelas crianças famintas do mundo! Se parou só bem depois e já está sentindo que vai explodir, não se aflija, mas da próxima vez, coma mais devagar!
Estratégia 4. Impulsos irritantes e vergonhosos. É sério, caríssimas amigas, e agora eu cito as autoras: “Para muitas mulheres, os hábitos e impulsos alimentares costumam parecer amedrontadores e mesmo demoníacos. Repelimos estes impulsos, fugimos deles. Mas por mais que a gente tente, eles voltam para nos assombrar. Quer o admitamos ou não, tudo o que fazemos, pensamos e sentimos constitui parte da estrutura que nos faz ser o que somos. Tememos ou detestamos certas partes de nós mesmas, preferindo sempre “as melhores”. Isso nos mantém ignorantes da plenitude no nosso ser”. Pois é, aceitar estas horas negras exige muito de nós e, em certos casos uma boa idéia é procurar ajuda especializada. Mas não dá para curar nossa relação com o corpo sem aprender a amar tudo em nós, até os comportamentos dos quais nos envergonhamos.
E aí, o conselho final de Marion Woodman, uma apaixonada pelas mulheres, soa como um verdadeiro carinho: “Toda mulher que se leve a sério deve aceitar a responsabilidade de conhecer e de amar o próprio corpo. Ela poderá aprender a ouvir a sabedoria do corpo. Trata-se do seu corpo. Seu mais importante dom, impregnado de informações que ela se recusou a reconhecer. Se puder amar a sua própria massa confusa e dedicar-se ao seu mistério, ela poderá um dia ver-se sorrindo diante do espelho.”
Para saber mais...
Mulheres francesas não engordam de Mireille Giuliano, da editora Campus
Do que você tem fome? De Mary Taylor e Lynn Ginsburg, da editora Cultrix
A coruja era filha do padeiro, de Marion Woodman, da editora Cultrix
Navegue por aqui...
Para conhecer a Dieta de Sonoma
http://www.sonomadiet.com/public/index.aspx
E para saber mais sobre esta e outras dietas
http://www.thedietchannel.com/Sonoma-Diet.htm
Tudo sobre a extraordinária arte de cozinhar de Ferran Adria, incluindo os 23 mandamentos da cozinha “do futuro” que ele pratica no seu restaurante El Bulli
http://elbulli.com/main.php?url=/sintesis/sintesis_es.php
E você, tem fome do quê?
Toques de Alma - um olhar feminino, da editora Rosa Rumo, reunião das crônicas de Adília Belotti, publicadas no Árvore do Bem e no Delas já está à venda. O coquetel de lançamento e a noite de autógrafos será no dia 11/04, na Livraria da Vila, R. Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, das 18:30 às 21:30h.