Ler livros de auto-ajuda é parte do meu dia-a-dia de jornalista. E chegam muitos na redação, todos os dias. Não dá para ler todos. Tempos de radicalismos religiosos, de solidão e de perplexidades arrancam a verdade das mãos dos especialistas, chacoalham as certezas, ameaçam as crenças, fazem pensar...e todo mundo parece ter uma receita especial de bem viver que merece ser compartilhada com o mundo...auto-ajuda virou um monumental balaio de gatos de todos os tipos, cores e pedigrees...
Embora muita gente olhe para este tipo de literatura com certa desconfiança e até a palavra esteja sob suspeita de esconder a terrível banalização dos sentimentos, emoções e conflitos humanos, análises simplistas sobre fenômeno que mobiliza tanto as pessoas sempre são arriscadas. E se você ainda duvida, experimente dar uma olhadinha atenta nos títulos dos dez livros mais vendidos nas livrarias aqui e lá fora...entendeu agora?
É claro que na rubrica auto-ajuda cabe uma infindável galeria das mais variadas bobagens, mas se você conseguir não se perder nesta selva, com certeza vai encontrar alguns tesouros.
Foi o que disse para mim filha que olhava de nariz torcido para a prateleira de livros na Livraria Cultura. Naquela montanha de títulos duas preciosidades: o livro de Leonardo Boff, A Voz do Arco-íris, sobre os horizontes ampliados da espiritualidade moderna, e um outro de Elizabeth Kubler-Ross, uma pioneira no atendimento aos doentes terminais, que revolucionou a forma como os hospitais e as famílias lidam com a morte, chamado Os Segredos da Vida. Está vendo, Marie? A vida é a arte difícil de lidar com categorias onde cabe tudo... escolher, filtrar, são as palavras do nosso tempo!
E dos tantos livros que li, queria comentar com vocês sobre dois:
Um é sobre a arte – sim, arte - de educar filhos... Arte por oposição à rotina, à burocracia, à displicência, ao tom francamente acinzentado que tantas vezes nos faz duvidar de que educar as gerações futuras é A grande tarefa dos seres humanos adultos da nossa espécie. Livros como este Filhos, nossa imortalidade, do casal de terapeutas australianos, Steve & Shaaron Biddulph, são preciosos para fazer a gente refletir sobre a tarefa da maternidade e da paternidade de um jeito menos impregnado de sensos comuns rotinas e mais iluminado de paixão e entusiasmo...
O livro é dedicado aos pais de crianças até 6 anos, os “anos primordiais”, como diz o autor, não só porque é neles que se desenvolvem muitas das características que vão afetar o futuro do bebê, como também porque nenhuma outra fase da vida provoca tantas mudanças em nós ou tem potencial tão rico de nos transformar em pessoas melhores...
E combina os melhores conselhos e informações sobre desenvolvimento infantil com um jeito familiar e acolhedor de amarrar estas idéias... você vai sendo conduzido pelos temas através de depoimentos de outros pais, testes, idéias daquelas bem práticas, salva-vidas, que a gente adora, conselhos amorosos e inspirados, enfim, boa pedagogia para pais apressados, aflitos, exaustos e, mais do que tudo, apaixonados pelos seus bebês...
Passando dos filhos para as mães (e pais) destas criaturinhas extraordinárias, sempre achei que, ao contrário do que tanta gente me disse, criar filhos é um tremendo exercício de criatividade. São eles, com sua curiosidade e espontaneidade intocadas que nos empurram para fora dos lugares-comuns e das frases feitas. Mas como nem sempre estamos disponíveis para perceber os pequenos milagres que acontecem toda hora nos nossos corridíssimos cotidianos, às vezes bom mesmo é levar um choque de criatividade. E á aí que entra o divertidíssimo manual de Nina Wise, professora de Estética do Movimento e de Estudos Religiosos na Universidade da Califórnia, “Uma vida plena, livre, feliz e fora do comum” ou “alegria, criatividade e espiritualidade para quem não tem tempo para nada”...sim, não estamos tão acostumados assim com títulos imensos, mas até isso vem acompanhado de uma ótima historinha: O rapaz vai pedir a mão da moça em casamento: Rosie, ofereço a você uma vida plena, livre, feliz e fora do comum. A moça, acredite, recusou o pedido. Nós também, diante dos convites que a vida nos faz para expandir nossos limites, muitas vezes fazemos como a pobre Rosie e damos as costas...
Já nas primeiras páginas você percebe que mergulhou no fascinante universo das explorações interiores e que o desafio aqui é aceitar ou não o convite para subverter a ordem modorrenta do cotidiano e tomar um banho de criatividade. E não é pura teoria não, são idéias e provocações bem práticas, daquelas que dá para colocar em ação agora mesmo, já...sim, porque com licença mas a vida ainda é a arte da improvisação e não dá para dizer não para um convite assim...
E você, quer contar para nós que livros anda lendo?
Para ler e navegar mais...
A editora Fundamento tem outros títulos nesta linha, como o Guia das famílias felizes, de John Irvine e o bestseller, Criando Meninos, dos mesmo autores de Filhos, nossa imortalidade.
Na mesma área de “criação de filhos”, procure “Criando e amando sua filha adolescente, mesmo que ela resista”, da terapeuta familiar americana, Debra Whiting Alexander, publicado pela M.Books que também outros bons títulos sobre o assunto. É tão iluminador que resolvi falar dele num outro artigo...
No site de Steve Biddulph você encontra informações sobre os (vários) livros que ele já publicou e pode participar de um fórum cujo tema é: crianças menores de três anos devem ou não passar o dia inteiro em uma creche? (em inglês)
Uma vida plena, livre, feliz e fora do comum, de Nina Wise, foi publicado pela Sextante no Brasil. Se quiser navegar no site da autora, além de saber mais sobre ela e seu trabalho, vai poder ler excelentes artigos e, inclusive, praticar alguns exercícios de auto-expressão através do movimento. (em inglês)