Colombina, Arlequim e Pierrô todo mundo sabem quem são, certo? Bom, nem tanto assim...embora pareçam tão parte do Carnaval, estas figuras nasceram longe, muito longe da folia...
Na Wikipedia descubro que Colombina, Arlequim e Pierrô são personagens da Commedia dell’Arte, um gênero de teatro popular que surgiu na Itália, no século 16. Ao contrário do teatro escrito, muito na moda entre os nobres, os atores da Commedia improvisavam em torno de um determinado número de personagens e de temas e se apresentavam aqui e ali, nos vilarejos e nas cidades, ao ar livre ou em palcos também improvisados.
Os atores usavam máscaras para caracterizar seus personagens mas, diferentemente do teatro tradicional, os papéis femininos eram interpretados por mulheres de verdade e não homens fantasiados de mulher. E os temas? Nasciam das fantasias das gentes simples, dos camponeses, das histórias antigas, das canções dos trovadores medievais...alguns dos “tipos” são tão arquetípicos que a gente reconhece à distância: os velhos tolos, os servos espertos, os soldados fanfarrões, as jovens enamoradas...
Colombina era a mais famosa delas....Em geral, aparece como uma serva ou empregada de alguma dama e é caracterizada como uma moça linda e inteligente, de humor rápido e irônico, sempre envolvida em intrigas e fofocas, apaixonada por Arlequim, amada em segredo pelo romântico Pierrô.
Pierrô, só começa a existir mais tarde, por volta de 1665, na França. Antes disso, ele era Pedrolino, o irmão caçula, que herdava roupas dos mais velhos, sempre maiores do que o seu tamanho, dormia na palha junto com os animais, era a vítima favorita das brincadeiras dos outros, mas nunca perdia uma certa dignidade silenciosa que vai marcar sua vida de “personagem” e torná-lo famoso. Dizem que os palhaços são herdeiros de Pierrô, cuja máscara era apenas seu rosto pintado de branco. Apaixonado por Colombina, ele vai viver seu amor impossível e envolvê-la em sonhos que ele canta nas noites de luar.
Arlequim é o mais famoso e talvez o mais antigo dos personagens. Sua roupa é feita de losangos coloridos que o identificam como um servo. Também ele é apaixonado por Colombina, mas nem sempre é fiel e o romance dos dois é cheio de idas e vindas...
Por trás da figura esperta e inconseqüente de Arlequim se esconde um mistério. Os estudiosos dizem que sua origem é muito, muito mais antiga e deve ser buscada na Idade Média, na França, onde ele era conhecido como Mesnie Hellequin...nas noites de tempestade, sobretudo durante os violentos temporais que marcavam o final de uma estação e o início de outra, quando a natureza inteira parece chacoalhar ao vento, se você ousasse olhar bem para o céu veria um bando de espíritos fantásticos que cavalgavam, velozes, acompanhados pelos seus cães: são condenados por seus pecados a cavalgar assim até o fim dos tempos, trazendo os ventos e as tempestades. Hellequin é um destes demônios noturnos. Do drama para as comédias, Hellequin vira Alichino, um pobretão meio estúpido que só mais tarde, iria tornar-se Arlequim, por quem Colombina se apaixona...
Estes velhos mascarados saem do teatro para as ruas nos carnavais de Veneza e seus amores vêm colorir nossas folias...viram canções, marchinhas, poemas...
Lembro de um livro velhíssimo herdado do meu avô português e corro para reler a última fala de Colombina, a mulher entre dois homens, tal como a viu o poeta Menotti del Picchia, em As Máscaras:
Meu amor se compõe do amor de todos dois
Hesitante entre vós, o coração balanço:
O teu beijo é tão doce, Arlequim...
O teu sonho é tão manso, Pierrô...
Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma dando a Arlequim meu corpo...e a Pierrô, minha alma!
Quando tenho Arlequim, quero Pierrô tristonho,
Pois um dá-me prazer, o outro dá-me o sonho!
Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
Um me fala do céu...outro fala da terra!
Eu amo, porque amar é variar e , em verdade toda razão do amor está na variedade...
Penso que morreria o desejo da gente
Se Arlequim e Pierrô fossem um ser somente,
Porque a história do amor só pode se escrever assim:
Um sonho de Pierrô
E um beijo de Arlequim!
Engraçado como velhas imagens fazem sentido para nós, ainda hoje, não é? Não é à toa que estas figuras vêm dançando carnavais há tantos séculos...
Para saber mais
Leia o verbete da Wikipedia (em francês)
E leia tudo sobre a Commedia dell’Arte neste link:
http://www.cosmovisions.com/textHernequin.htm
E no site da About.com
Depois, me conte nos comentários o que achou da história? Será que toda mulher é uma Colombina, dividida entre dois tipos de amor?