Fraldas ao vento....
Sexta-feira, 7 horas da manhã. Estava no carro, assim distraída, enrodilhada em pequenas tragédias imaginárias: e se ela errar o passo na apresentação de dança? E se eu perder meu emprego? E se ele não gostar de mim? E se ela não entrar na faculdade? E se...então, antes que eu pudesse fazer um silêncio dentro de mim, a voz do Tom Jobin fez o carro chacoalhar...comigo junto!
Borzeguim, deixa as fraldas ao vento
E vem dançar
E vem dançar
Hoje é sexta-feira de manhã
Hoje é sexta-feira
Deixa o mato crescer em paz
Deixa o mato crescer
Deixa o mato
Sim, deixa seu corpo navegar na onda da música, da vida...Às vezes, tantas vezes, e sobretudo quando a angústia do futuro ameaça estrangular nossa alegria, tudo que a gente precisa fazer é permitir-se flutuar nos acontecimentos, entrar no fluxo...confiar...
Não quero fogo, quero água
(deixa o mato crescer em paz)
Não quero fogo, quero água
(deixa o mato crescer)
Hoje é sexta-feira da paixão sexta-feira santa
Todo dia é dia de perdão
Todo dia é dia santo
Todo santo dia
E buscar acolhimento no colo da Natureza...escutar o silêncio, sentir-se parte do canto das aves, rir com a algazarra do vento nas árvores, lá, onde tudo é simples...
Ah, e vem João e vem Maria
Todo dia é dia de folia
Ah, e vem João e vem Maria
Todo dia é dia
O chão no chão
O pé na pedra
O pé no céu
Deixa o tatu-bola no lugar
Deixa a capivara atravessar
Deixa a anta cruzar o ribeirão
Deixa o índio vivo no sertão
Deixa o índio vivo nu
Deixa o índio vivo
Deixa o índio
Deixa, deixa
Escuta o mato crescendo em paz
Escuta o mato crescendo
Escuta o mato
Escuta
Escuta o vento cantando no arvoredo
Passarim passarão no passaredo
Deixa a índia criar seu curumim
Vá embora daqui coisa ruim
Some logo
Vá embora
Em nome de Deus é fruta do mato
Borzeguim deixa as fraldas ao vento
E vem dançar
E vem dançar
E fazer as pazes com o outro, com os outros, todos, mais ainda com aqueles que a gente nem ousa entender...mergulhar na confiança irrestrita e incondicional de que entre o outro e você não há nenhum espaço...
O jacú já tá velho na fruteira
O lagarto teiú tá na soleira
Uirassu foi rever a cordilheira
Gavião grande é bicho sem fronteira
Cutucurim
Gavião-zão
Gavião-ão
Caapora do mato é capitão
Ele é dono da mata e do sertão
Caapora do mato é guardião
É vigia da mata e do sertão
(Yauaretê, Jaguaretê)
Deixa a onça viva na floresta
Deixa o peixe n'água que é uma festa
Deixa o índio vivo
Deixa o índio
Deixa
Deixa
Dizem que o sertão vai virar mar
Diz que o mar vai virar sertão
Deixa o índio
Dizem que o mar vai virar sertão
Diz que o sertão vai virar mar
Deixa o índio
Deixa
Deixa
Por isso, quando você se vir amarrada nestes roteiros que a gente cria na cabeça, dá uma olhadinha se por acaso é sexta-feira de manhã, afrouxa as cordas, amiga, e ...deixa o mato crescer...
Quer ouvir um trechinho da música linda do Tom Jobim, chamada Borzeguim? Pode clicar