O novo está bem longe de ser uma unanimidade. Para alguns, ele chega como um frio na barriga, um medo de não sei o que, uma vontade de sair correndo pela primeira porta que aparecer. Outros, porém, conseguem ficar mais à vontade com as surpresas do futuro e acolher as novidades com alguma tranqüilidade. Mas, de modo assim bem geral, o novo assusta. No limite o Grande Novo, aquele para o qual evitamos sempre olhar e de quem pouco ou nada sabemos é a Morte, este mergulho no absolutamente...novo!
E por conta desta semelhança, paira uma suspeita sobre tudo que é novo. Sim, porque é preciso não confundir o novo com a novidade. As novidades são ligeiras e frívolas. Chegam alegrinhas, tristonhas ou alvoroçadas, mas sem dramas nem mistérios. O novo, ao contrário, tem a solenidade do desconhecido, e chega no compasso das grandes aventuras e dos chamados mais misteriosos.
Ao longo dos tempos, o novo foi a floresta, o abismo, imensos oceanos azuis, abóbadas celestiais. Mais recentemente, descobrimos que ele habitava em nós. Do outro lado do espelho um universo de estranhezas desconhecidas nos olhava e nos convidava a entrar. O Admirável Mundo Novo, de que falava o escritor Aldous Huxley nos anos 60, nós começamos a construir todos os dias, dentro de nós.
Ah, o novo e seu inevitável parceiro: o começo. Quer coisa mais difícil do que começar algo novo? Dar a partida no motor do futuro, assim sem mapa, sem rumo, sem garantias...Arrancar a gravata, soltar as amarras, levantar âncoras, remover os entulhos e entulhos de velharias e partir. Próxima parada? Quem sabe? Onde o destino mandar talvez, que o novo não obedece a ninguém.
Não senhor, temos muito medo do novo, de seu compromisso com a liberdade e de seu comando para a mudança. Confiamos que o jeito de sempre, se não nos traz felicidade, pelo menos nos deixa entorpecidos de cotidiano e...assim vamos ficando. Ano que vem paro de fumar, ano que vem mudo de emprego, ano que vem emagreço, ano que vem saio desta relação que me faz sofrer, ano que vem...
Vocês conhecem, por certo, Fernando Pessoa, o poeta português. Para mim, estes versos são a mais bela imagem deste embarque, deste partir rumo à mudança.
Ah, seja como for, seja por onde for, partir!
Largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar,
Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância Abstrata,
Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas,
Levado, como a poeira, pelos ventos, pelos vendavais!
Ir, ir, ir, ir de vez!
Todo o meu sangue raiva por asas!
Todo o meu corpo atira-se para frente!
Galgo pela minha imaginação fora em torrentes!
Atropelo-me, rujo, precipito-me!...
Estoiram em espuma as minhas ânsias
E a minha carne é uma onda dando de encontro a rochedos!
Alguém já disse que precisamos tomar cuidado com aquilo que desejamos ou com os pedidos que fazemos nas nossas preces porque eventualmente, eles serão atendidos e aí...será que estamos mesmo a altura dos nossos sonhos?
Pergunta da semana
E você? Como você recebe o novo? Como um muro, uma parede, refratário e ausente? Ou com alegria e entusiasmo? Será que nós queremos mesmo um Ano-Novo? Ou temos tanto medo que no fundo torcemos para que o próximo ano seja familiar e sem surpresas. E que assim que esfriarem os fogos de artifício tudo volte exatamente ao normal. E se este ano, só para variar, a gente desejasse de coração um Ano-Novo bem novo. Faremos assim todos juntos, à meia-noite, vamos olhar para algum ponto bem longe à nossa frente - o mar, o mato ou a casa do vizinho - e desejar que 2006 traga nossa cota de novo e prometer que vamos recebê-lo com coragem, que seremos, sim, merecedores deste presente. Vamos então fechar os olhos. E neste instante, talvez a gente sinta um arrepio na espinha, alguns sentirão um certo calor, outros virarão as costas dizendo, ora, que bobagem! Mas pode ser que desta vez, os anjos digam sim e a gente consiga abraçar as mudanças que vão nos levar aos nossos sonhos. E se você sentir uma coceirinha nas costas, bem na altura das omoplatas, não se assuste. Minha amiga Cláudia garante que são apenas suas asas nascendo...