Todo ano fico brincando de inventar razões para celebrar o Thanksgiving...nem gosto tanto assim da história dos peregrinos famintos, dos índios amáveis que vieram saudar os recém-chegados carregando os frutos da terra e do terrível desencontro que fecha esta história sem final feliz...
Mas gosto muito da idéia de incluir no calendário da alma uma data que afinal até já existe no calendário oficial: o Dia de Ação de Graças..
Vamos mudar tudo isto...Não seria bom aproveitar este nosso tempo de primavera para renovar o prazer de estarmos vivos? De olhar o mundo através dos desencantos e das feiúras e enxergar o núcleo luminoso que existe em todas as coisas, em todas as criaturas? "A verdade luminosa por trás das mentiras humanas", como disse o escritor peruano Mario Vargas Llosa..
Por isso é que na próxima quinta, -- não, na quinta não, que nem tem graça celebrar uma coisa assim desta importância num dia no meio da semana --, vou subverter e lei e celebrar na 6a. feira um dia especial de Ação de Graças. Não sei se não troco o famoso peru por uma galinha caipira ensopada com polenta mole e quiabos sem baba -- como meu pai mineiro ensinava a fazer. E quem sabe usamos a palha do milho para embrulhar uns pedacinhos de queijo de minas meia-cura ou aquele queijo tão bom que se come no norte, queijo de coalho, colocamos os embrulhinhos no forno, só uns minutos, hummm, será que não ia ficar bom? Podemos fazer uma salada com delícias da terra, da nossa terra, da terra de todos, que hoje, todas as terras podem ser abençoadas, se a gente não enchê-las de minas subterrâneas, bombas ou de lixos tóxicos... E pra adoçar tudo, doces de avó: mamão-verde de rolinhos, goiaba, abóbora e coco...minha tia Loló fazia um doce de carambola que a gente apelidou de Doce de Estrelinha da Branca de Neve. Pois então vamos acabar nossa refeição lambuzados de estrelas... Quem aceita um cafezinho?
Depois de preparar a refeição, prepararíamos o espírito. Pensei na frase do monge cristão, Thomas Merton: “seja como for, o Senhor brinca e se alegra no jardim de sua Criação e se conseguíssemos nos livrar da obssessão que temos em querer dar um sentido a tudo, talvez pudéssemos ouvir Sua voz chamando-nos e poderíamos segui-Lo então em seu misterioso bailado cósmico”.
Rindo e brincando, convidaríamos Deus para sentar-se entre nós e se fizéssemos um instante de silêncio ouviríamos o brinde que Ele proporia: Filhos Amados do Instante e do Sonho, alegrai-vos hoje na Minha música, porque “escondido no coração mortal, o eterno vive; Ele vive recôndito na tua alma. Uma luz brilha lá que nenhuma dor ou sofrimento pode cruzar”. É claro que Deus não precisaria citar ninguém a não se a si mesmo, mas nós, aqui, pegamos emprestadas as palavras do filósofo hindu Sri Aurobindo para nos ajudar no brinde.
E assim apascentados, veríamos o dia nascer e, pelo menos por um dia, o universo inteiro se fazer puro encantamento.
Pergunta da semana
Como você criaria um ritual para contar bençãos?