Olá dra. Sônia, estou à beira de um enfarte. Fiquei viúva em 95, quando estava grávida, Mariá nasceu em 96, na época em que conheci o Carlos, um grande amigo, que me ajudou na péssima a fase da minha vida.
Ele era separado e morava sozinho há 12 anos, nossa amizade era muito boa, saíamos, gostávamos das mesmas coisas, e passávamos o fim de semana muito divertido. Até que em 2003 nos perguntamos: "Se nos damos tão bem, por que não morar juntos?", então o arrastei para morar comigo, pois tenho casa fixa e ele morava de aluguel.
Em dezembro de 2003 ele foi mandado embora de um emprego de instabilidade de 12 anos; perdeu a cabeça e tudo esfriou, ele mudou, ficou muito difícil de conviver, a casa de repente ficou pequena pra nós, e tem alguns detalhes importantes, como: minha filha o ama e o chama de pai, o que me dói muito, porque ela nem conheceu o pai... e ela o adora.
Fico agora neste fogo cruzado, nós conversamos muito, até falamos que nosso relacionamento parece de dois amigos que dividem o mesmo teto, mas ele não toma uma atitude de ir embora, e eu fico na dúvida se estou jogando a felicidade fora.
Seria mais fácil se a vida não fosse uma montanha-russa como ela é às vezes, não seria? Estamos vivendo razoavelmente tranqüilos, e de repente, algo muda o ritmo dos nossos sonhos e dos acontecimentos de tal forma que temos que parar, imediatamente, onde quer que estejamos, e sobreviver àquela dor, àquela perda, àquela mudança. Curar a ferida, esperar cicatrizar, sem parar de viver.
Algumas pessoas conseguem fazer isso mais rápido, possuem uma dose extra do que chamamos de resiliência, que é essa capacidade extraordinária de levar um golpe da vida, recebê-lo e refazer-se para começar de novo.
Só que embaixo da cicatriz, mesmo dos resilientes, sempre fica uma marca, que pode provocar sensações ruins já vividas, como de angústia, tristeza e até desespero por tudo que volta na nossa cabeça ao lembrarmos do que significou aquela marca.
Não são marcas eternas, mas levam às vezes uma vida inteira para desaparecer. E sabe, no seu caso, arranjar substitutos não é garantia que esses sentimentos não voltarão. Comparar um amor a outro, completar seu lar com alguém, tentar encontrar um novo pai para sua filha não garantem que a vida vai "voltar ao normal".
Porque o normal é que a vida tenha seus altos e baixos e que as pessoas percam a cabeça e se iludam e se encham de esperanças novamente e tropecem e levantem de novo. Pense um pouco se a sua idéia de vida normal não está baseada em algo tranqüilo e sem sobressaltos.
Ele mudou? E você, não? Sua filha por acaso é a mesma de quando nasceu até agora? A vida corre em ciclos, e com certeza os seus já tiveram uma boa dose de sofrimento. Então porque não tentar fazer o contrário: tentar ser mais feliz e relaxar mais quando houver calmaria no céu e pensar que dias parados podem ser uma pausa de alívio e de felicidade, para se preparar para eventuais futuras tempestades?
Tente estar mais aberta -- mais "cool" como dizem os americanos -- com você mesma e com ele, que afinal é um bom amigo e um bom pai. O que mais ele precisa ser de bom para você, sem comparar com nenhum outro homem? Os jamaicanos dizem: “No problem” (sem problemas): esse é o meu sincero desejo para a sua família.