Como se manifesta o alcoolismo feminino? Aqui você entende e se emociona com relatos de mulheres que foram ao fundo do poço e voltaram para compartilhar suas histórias.
Luciane acordou meio tonta. Estava caída no chão de um banheiro. Lembra-se de uma festa de fim de ano da fábrica onde trabalhava. Mas, cadê a festa? Luzes apagadas, ninguém ao redor. “Me esqueceram trancada aqui”, conclui a adolescente de 15 anos. Entrou na sala da gerência e pensou em ligar para polícia. “Como provar que não estava fazendo nada de errado, se estou bêbada?”, pergunta-se, e desiste. Pensa em chamar uma ambulância: “Vão querer me internar, e eu não sou doente”, afirma para si mesma. Ela decide sair no pátio e tentar pular o muro da empresa. “Mas eu tenho muito medo de altura”, conclui. “Nossa! Com que cara vou chegar para trabalhar na segunda-feira?”. Com a ajuda do vigia, Luciane consegue sair, mas...
Essa história é real e traz em si características comuns a situações vividas por várias mulheres. Sensação de abandono, vergonha, medo, negar que está doente e por isso não buscar ajuda. Tudo isso, regado a muito álcool.
“A mulher tem conquistado a igualdade com os homens para o bem e para o mal”, destaca Sérgio Nicastri, coordenador do Programa Álcool e Droga do Hospital Israelita Albert Einstein, ao citar o crescimento do alcoolismo entre mulheres. Apesar de os homens ainda serem a maioria entre os alcoolistas, é cada vez maior o número de mulheres com a doença.
De acordo com estudo do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), realizado em 2001, havia uma mulher alcoólatra para cada dois ou três homens dependentes nos 107 maiores municípios brasileiros. Ao todo, 47 milhões de pessoas foram entrevistadas. Dessas, 11,2% foram classificados como dependentes de álcool. Entre os homens, o índice de alcoolismo foi de 17,1%, contra 5,7% das mulheres.
Por quê? Com quem?
É grande a dificuldade de estudar o alcoolismo. Muitos são alcoolistas por causa de problemas sociais. Outros são expostos ao álcool desde pequenos. Recentemente, um estudo feito por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo), descobriu que a raiz do problema para o alcoolismo feminino pode estar num gene, o Maoa.Mas não parece haver uma única resposta certa quanto à causa. É uma soma de vários fatores. O perfil dos que desenvolvem a dependência também é muito variado. “O alcoolismo é muito democrático. Atinge mulheres de todas as faixas etárias e classes sociais”, aponta Sérgio Nicastri.
Entre os sinais e sintomas de dependência identificados em todo dependente, o alcoolismo entre as mulheres tem uma característica peculiar: de modo geral, tende a se manifestar na juventude ou na meia idade. “A mulher de meia idade sofre da chamada “síndrome do ninho vazio”. É aquela mulher que se dedicou a vida toda à família e que de repente vê seus filhos adultos e independentes. Muitas vezes, o casamento também não vai bem. Por todos esses fatores elas sentem uma sensação de inutilidade e acabam recorrendo à bebida. Esta, no entanto, também não é uma regra, existem mulheres bem-sucedidas que apresentam o mesmo problema.”, explica Sérgio Nicastri.
Esse quadro descrito por Nicastri, acaba sendo agravado com a chegada da menopausa, muitas vezes seguida de depressão. “A mulher de meia idade começa a beber como auto-tratamento para esses problemas. Este grande equívoco gera um outro: o alcoolismo”, diz Patrícia Hochgraf, coordenadora do Programa de Atenção à Mulher Dependente Química (Promud), do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea), do Hospital das Clínicas, em São Paulo.
Segundo a médica, essas mulheres bebem escondido e costumam ingerir grandes quantidades em um curto espaço de tempo. As bebidas mais comuns são a vodka, por não deixar cheiro, e o álcool de limpeza. “Por conta do quadro cultural, muitas tomam álcool de limpeza, para ninguém perceber que estão consumindo bebida alcoólica”, observa Sérgio Nicastri.
“Elas sentem muita vergonha e conseqüentemente tem imensa dificuldade de procurar ajuda. Em geral, são os filhos que as impulsionam a buscar tratamento. Isso porque a mulher vai ao clínico geral ou ao ginecologista reclamando de outros problemas e o médico não suspeita que as queixas são, por vezes, conseqüência do alcoolismo”, diz Patrícia Hochgraf.
A boa notícia é que “as mulheres com este perfil reagem mais rapidamente ao tratamento, do que aquelas que começam a beber desde muito cedo”, constata a médica.
Infância com álcool e sem afeto
Luciane -- que no início desta matéria apareceu trancada na fábrica onde trabalhava, lembra? –hoje tem 27 anos e não se lembra com que idade começou a beber. “Pode ter sido numa quermesse do bairro, não sei”, fala baixinho. Faz um esforço para recordar, mas a resposta não vem. Entretanto, algumas coisas do passado estão muito frescas em sua mente, como o lar sem amor. Recorda que nunca recebeu um abraço da mãe ou deitou no colo dela para chorar. Nunca.
Mas coisa de sempre, corriqueira, era a bebedeira da mãe, as repreensões e as surras. Uma delas ficou cravada na memória. “Era noite de reveillon. Eu estava louca para ver a queima de fogos que ia acontecer perto de casa. Minha mãe não deixou. Achei aquilo um absurdo porque todo mundo ia. Reclamei e tomei uma surra. Foi a primeira vez que eu tentei me matar, aos 13 anos”, conta. Primeira vez, porque tempos depois Luciane atravessaria a rua com o semáforo aberto para os carros e, noutra ocasião, tomaria 30 comprimidos de um remédio qualquer, depois de uma briga com um namorado. A diferença é que nestas ocasiões já não era só a mãe que tinha bebido.
“Aos 15 anos eu já ultrapassava todos os limites com a bebida”, lembra Luciane. Ela nunca aceitou o alcoolismo da mãe e as brigas eram constantes. “Minha mãe saía para beber e não voltava. Eu tinha que cuidar da casa e dos meus irmãos”, conta. A menina foi encontrar justo no álcool uma forma de encarar a frieza materna. “Quando eu bebia tinha coragem de falar com ela”, relata Luciane.
Juventude, festas e os primeiro goles
Nair, 60 anos, lembra que tinha uns 13 anos quando foi a uma festa e uma amiga ofereceu-lhe ponche. “Aquilo me deu uma sensação muito legal. Fiquei tão alegre, tão falante... Não sabia dançar e meia hora depois já estava na pista, solta, até comecei a namorar. Aquilo era muito bom. Perguntei o que era. Minha amiga disse que tinha misturado vários tipos de bebida com frutas”. Nair anotou a receita. Como o pai dela tinha um armazém de secos e molhados, não faltaram os ingredientes. “Decidi fazer igual. Misturei várias bebidas com frutas. O gosto não ficou igual, mas a sensação foi a mesma”, recorda.
Maria, 64 anos, também experimentou os primeiros goles nos bailes da juventude.“Vinda de uma família tradicional de São Paulo, eu era convidada para participar de todas as formaturas. Um verdadeiro arroz de baile! Nesses lugares comecei a beber cuba livre e hi-fi”, conta.
Maria passou a beber vodka com freqüência, porque não deixava cheiro, mas logo começou a ficar caro e ela começou a consumir pinga mesmo. “Nesta época, eu morava em um pensionato. A mulher do dono do lugar bebia escondida dele. Eu e outras moças a acompanhávamos na bebedeira. Batíamos papo até alta madrugada. Tínhamos bebidas escondidas em vários cantos do quarto. Até o tanque e a caixa da descarga serviam de esconderijo para as garrafas”, relata.
Por sua vez, Nair casou-se aos 16 anos e, assim como Maria, encontrou no lugar onde morava alguém para beber junto com ela. “Eu e a empregada bebíamos muito”, afirma. “Nessa época uma garrafa de pinga durava uma semana, com o tempo passou a durar um dia”, lamenta.
Conseqüências físicas e mentais
O organismo feminino absorve 30% a mais de álcool que o masculino. Isso pelo fato de as mulheres terem mais gordura e menos água no corpo. Além disso, os homens possuem a enzima desidrogenase em quantidade duas vezes maior que as mulheres. Ela é responsável pela destruição do álcool, o que ajuda a preservar o fígado. Por ter menos enzimas para metabolizar o álcool lançado na corrente sanguínea, a mulher embriaga-se mais que o homem, ingerindo a mesma quantidade de bebida, segundo o National Institute on Alcohol Abuse and Alcolism.
"Embora as conseqüências físicas sejam as mesmas para ambos os sexos, o corpo da mulher é mais vulnerável aos efeitos do álcool. Por isso, a dependência se instala mais rapidamente nelas, assim como os males provocados no fígado, pâncreas, sistema nervoso, coração, etc”, explica Sérgio Nicastri.
Além das doenças causadas no estômago, pâncreas, fígado, há ainda quem sofra de alucinações. Maria conta que via bichinhos em tudo. “Tinha cupins na minha cama e até no ar”. De acordo com Nicastri, este quadro apresentado por Maria acontece em 5% dos casos e são os mais graves.
O dr. Sérgio lembra ainda que a mulher que bebe durante a gravidez expõe o filho à possibilidade de ter retardo mental ou síndrome alcoólico fetal.
Abuso sexual
Como se não bastassem todos os problemas de saúde e a pressão social sofrida pela mulher alcoolista, elas ainda estão mais expostas à violência. “Uma vez suspeitei que estava grávida. Minha mãe disse que se eu estivesse mesmo grávida iria para rua. Fiquei mal. Fui para uma padaria e pedi uma cerveja, duas... De repente, o rapaz com quem eu estava ficando apareceu e comentou que uma outra garota suspeitava estar grávida dele. Fiquei arrasada e bebi mais ainda. Só saí da padaria quando avisaram que estavam fechando. De lá, fui para uma pizzaria. Não lembro o que aconteceu. Acordei num hotel no dia seguinte com uma pessoa que eu não conhecia. Saí tão atormentada do local que esqueci meu documento e tive que voltar para buscar... Quis me matar. Entrei numa farmácia, peguei um monte de remédio, mas quando fui passar no caixa para pagar, vi que não tinha dinheiro. Eu tinha uns R$250 na bolsa. Não sei se gastei tudo em bebida ou se fui roubada”, conta Luciane.
“Contar que bebeu todas, que acordou com uma mulher desconhecida do lado, que aprontou dessas e mais é um mérito para o homem e uma vergonha para a mulher”, observa Nair que passou por uma situação semelhante a de Luciane. “Uma vez, eu lotei uma Kombi de gente. Fomos para um salão. Só lembro disso. Acordei num quarto estranho. Olhei para o lado e tinha um homem deitado comigo. Perguntei onde estava. Ele disse que tinha me levado para a casa dele dirigindo o meu carro. Desci as escadas correndo. Quando saí na rua, não fazia a menor idéia de onde eu estava. Rodei, rodei, e só depois de um tempão descobri que estava a duas quadras de minha casa”, narra Nair. “Pior! Sempre que minha menstruação atrasava ficava pensando – será que estou grávida do meu marido?”.
A família que salva
E por falar em marido, Nair, que freqüenta os Alcoólicos Anônimos (A.A.) há 38 anos, considera-se uma exceção entre as mulheres que recuperam-se neste grupo. “Estou casada há 43 anos. Destes, passei 25 bebendo. Meu marido teve muita paciência comigo. Na maioria das vezes, quando busca o AA, a mulher já chega sem marido”, observa Nair. Segundo ela, ao contrário da mulher que, em geral, agüenta o marido que bebe, o homem tende a abandonar a mulher.
Dados estatísticos sugerem que a mulher vai buscar ajuda justamente quando percebe que está perdendo a sua família. Nair confirma: “Acordava e pensava comigo mesma: vou tomar uma só. Tomava logo de manhã. Escovava bem os dentes e saía para trabalhar. Depois das 15h recomeçava a beber e só chegava à noite em casa. Eu dizia pro meu marido que o carro tinha quebrado. Quebrava sempre”.
Com o passar dos anos, o marido de Nair começou a cansar-se.“Um dia o pessoal da firma que nós tínhamos combinou de fazer um piquenique na praia. Bebi todas. Meu marido disse que passou a maior vergonha comigo. Eu não lembrava de nada. Ele contou que eu deitei na fossa, beijei um cachorro e fui fotografada fazendo pose de Brigitte Bardot... E disse que não agüentava mais, que o filho estava criado e que queria se separar”, lembra.
Depois de ouvir tudo isso, Nair chegou na empresa e comentou com uma moça que trabalhava lá sobre a conversa que o marido havia tido com ela. “Essa mulher disse que tudo o que meu marido me contara era verdade e de quebra mostrou as tais fotos. Eu beijando cachorro e tudo o mais. Quis enfiar minha cabeça numa privada”, lembra Nair, escondendo o rosto com as mãos.
Essa mesma funcionária foi quem convidou Nair para conhecer o A.A. “Lembro-me como se fosse hoje. Era dia 27 de janeiro de 1982. Cheguei lá com o objetivo de aprender a beber socialmente. Gostei muito da reunião. Mas um membro do grupo disse que eu não tinha visto nada. Ele disse que o segredo estava na próxima reunião. Fiquei curiosa. Comecei a ir sempre para descobrir qual era este segredo. O mesmo moço disse numa outra ocasião: “um dia você vai ver uma vaca voar aqui”. Quando me dei conta, a vaca já tinha voado”, diz comemorando o fato de nunca mais ter colocado uma gota de álcool na boca.
Três meses depois dela estar freqüentando o A.A., o marido decidiu verificar onde a mulher ia todas as noites. “Eu chegava todo dia contando histórias de um amigo ou outro e meu marido ficou intrigado. Onde será que minha mulher vai toda noite e que só tem homem?”. Foi nesta época que ele conheceu o grupo de apoio para parentes e amigos de dependentes de álcool, o Al-Anon.
A família por um fio
O artigo 19 do Estatuto da Criança e do Adolescente diz: “Toda criança ou adolescente tem direito a ser criado e educado no seio da sua família e, excepcionalmente, em família substituta, assegurada a convivência familiar e comunitária, em ambiente livre da presença de pessoas dependentes de substâncias entorpecentes”.
A mãe alcoolista transgride a lei. No entanto, são raríssimos os casos de suspensão de pátrio poder (perda temporária da guarda do filho), muito menos de destituição de pátrio poder (perda definitiva), por causa do alcoolismo materno. A suspensão, ao contrário da destituição, é temporária, serve para impedir que a mãe, estando nessas condições, suma com a criança, por exemplo.
“Não temos registros de casos de mães cujo pátrio poder tenha sido suspenso especificamente por causa do álcool. No geral, as famílias estão inseridas num quadro de miséria muito grande, no qual o álcool e outras drogas estão associados”, destaca o promotor de Justiça da Infância e da Juventude, Luiz Carlos Rodrigues de Andrade.
“Esses casos chegam até nós por meio da própria família. Na maioria das vezes é a avó materna que nos procura, argumentando que a criança não está sendo cuidada direito”, diz Andrade. O pedido é feito ao Juiz da Infância e da Juventude e é acompanhado de análises feitas por uma equipe de assistentes sociais e psicólogos.
Andrade diz que por conta da deficiência existente na área social, a Justiça não tem como encaminhar todas essas mulheres para um tratamento adequado. Mesmo assim, muitas famílias se reestruturam com a ajuda de iniciativas das organizações religiosas e civis.
Acidentes
Apesar dos porres de Nair, ela conta que nunca teve um mau relacionamento com seu filho. “Hoje eu vejo que ele tinha vergonha de mim, pois nunca trouxe amigos em casa”, recorda. “Lembro de uma ocasião em que meu filho, que na época tinha uns 12 anos, passou a mão na minha cabeça e disse: “você está “Laurona”, hein?”, imita o jeito de falar do filho. Até hoje não sei o que ele quis dizer com “Laurona”, mas sinto que ele queria falar da bebida e de mim. “Eu comprava o carinho do meu filho. Dava tudo o que ele pedia”, assume Nair.
Ela nunca teve problemas com a Justiça em relação a seu filho por conta do álcool. No entanto, o alcoolismo um dia arrancaria seu filho dela para sempre. “Ele morreu aos 29 anos num acidente de carro, há 13 anos atrás. Meu filho estava dirigindo alcoolizado. Deixou a mulher e três filhos”, lamenta. Na época do acidente, Nair já estava há dez anos em recuperação. “No momento em que ele começou a beber, esqueceu a minha bebida”, conclui.
Nair também sofreu acidentes. “Eu dirigia alcoolizada para cima e para baixo, pois trabalhava como vendedora. Numa dessas vezes capotei o carro e fraturei o crânio. Por isso, não bato bem da cabeça até hoje”, brinca e sorri, pois se sente vitoriosa apesar de tudo. Afirma com convicção: “Eu sempre achava que o último gole tinha me derrubado. Hoje eu sei que, quem me derrubava, era sempre o primeiro”.
Maria também sofreu fraturas por causa da bebida. “Lembro de uma quarta-feira em 1986. Houve um blecaute em São Paulo. Eu estava sentada na sala. Levantei para desligar as duas televisões. Uma ficava à direita e a outra à esquerda, mas eu fui no meio. Caí e quebrei o nariz. Nessa época, eu tinha 47 anos e meu metabolismo estava a zero. Tinha medo de ir até o portão. Não sentia o chão. Flutuava”, lembra.
Maria conta ainda que no dia 28 de dezembro do mesmo ano em que sofreu o acidente teve certeza de que iria morrer. “Disse para meu cunhado que aquela era a última pinga que eu ia tomar e acertei. Entrei em coma alcoólico”, relata. Maria estava sendo atendida pela psiquiatria da Prefeitura e lá uma assistente social indicou o A.A. Ela faz um apontamento: “Uma coisa é estar sóbrio e outra é ser abstêmio. Muitas vezes a pessoa não está bebendo, mas não tem serenidade. Quando falta a serenidade recorro a orações, como as de São Francisco de Assis, para manter a calma”. Ela agradece diariamente suas 24 horas sem álcool.“Para quem é doente, uma bala é muito. Um saco de balas é pouco”, afirma Maria.
“Eu não sou doente”
A mãe de Luciane sempre bebeu. Um dia o pai dela não agüentou mais a mulher e foi embora. Ele, que sempre havia repreendido os hábitos da esposa, acabou seguindo o mesmo caminho. “Meu pai deixou nossa casa quando eu tinha 16 anos. Foi para Minas e lá começou a beber também. Um monte de gente ficava ligando para me dizer que meu pai estava caído na rua. Resolvi trazer ele para minha casa – nessa época eu já tinha saído da casa da minha mãe. Um dia foi dar uma volta e vieram me avisar que tinha ido parar no Pronto Socorro. Quando cheguei lá, ele estava todo mijado e amarrado. O médico disse que ele teria que ser internado num hospital psiquiátrico. Briguei com o doutor, dizendo que meu pai não era louco”, conta Luciane.
Por causa da situação de seu pai, um amigo de Luciane lhe deu um cartão do A.A. “Lá eles indicaram um lugar onde eu poderia internar meu pai. Por causa disso, senti que precisava fazer algo para agradecer. Então fui participar de um curso para voluntários. Na primeira aula quando começaram a listar algumas características dos alcoólicos, vi que eu tinha todas elas. Mas eu não queria acreditar que eu também tinha a doença”, admite Luciane.
Apesar de ter sido despedida do emprego várias vezes, despejada outras tantas e se afundado em dívidas por causa do álcool, Luciane nunca imaginou que sofria da mesma doença que sua mãe e seu pai. Alcoolismo? Não, ela sempre achava que tinha misturado bebidas ou exagerado num momento ou outro.
“No dia em que fui na primeira reunião do A.A., quando me deram a palavra, passei dez minutos negando”, lembra Luciane, que já está há 11 meses sem beber e faz planos. “Quero fazer faculdade. Estou em dúvida entre Direito ou Assistência Social”, planeja.
Só para mulheres
Hoje, Luciane sabe que pode contar com a ajuda de muita gente, ao contrário da ocasião em que ficou presa na fábrica. Ela freqüenta um grupo de A.A. só para mulheres. “A primeira reunião em que participei era mista, mas me sinto muito mais à vontade entre pessoas do mesmo sexo”, destaca.
A tese de doutorado da coordenadora do (Promud), Patrícia Hochgraf, mostra que a mulher responde muito melhor a tratamentos específicos. Segundo Patrícia, a pesquisa indica que com um tratamento exclusivamente feminino, 80% das mulheres continuam o tratamento após seis meses do seu início e 50% após o período de um ano. Já nos tratamentos convencionais, mistos, a porcentagem cai para 15% após um ano.
“Nos grupos mistos há predominância de homens. As preocupações dos homens são diferentes. Eles se apegam a questões profissionais e judiciais. A mulher está mais ligada aos problemas com relacionamentos, auto-estima e corpo. A inserção no mercado de trabalho também preocupa”. E justamente pelo tipo de preocupação que manifestam -- mais ligada à sensibilidade-- elas desenvolvem ansiedade e depressão com muito mais facilidade”
Luciane, Maria, Nair, alcoólicas, buscaram ajuda, recuperaram-se, retomaram o controle de suas vidas. Todas concordam que o primeiro passo é o mais difícil: reconhecer o problema e tomar a decisão de pedir socorro.
Para buscar informações e ajuda
Associação dos Acoólicos Anônimos (escritório nacional)
AA. On -line
Al-Anon (Para familiares de dependentes)
O Programa de Atenção à Mulher Dependente Química (Promud), do Hospital das Clínicas, em São Paulo, existe desde 1996. Por lá já passaram cerca de 300 usuárias de drogas. Cerca de 60% eram dependentes de álcool. O programa oferece psicoterapia de grupo, atendimento com psiquiatra, nutricionista e advogada. Os participantes passam por uma triagem. É preciso morar em São Paulo, ter mais de 18 anos e ter disponibilidade para participar das reuniões uma vez por semana, às segundas-feiras à tarde.
Grupos de A A. só para mulheres, em São Paulo
- Grupo Jabaquara: R. Dos Jornalistas, 201 A - Domingos às 14 horas - Grupo Santana: R. Gabriel Pizza, 122 - Sabados às 14 horas - Grupo Gomes Cardim: R. Platina, 192 Tatuapé - Domingos às 17 horas - Grupo Consolação - Rua Da Consolação, 585 - Proposito Feminino Domingos às 17 horas
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