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Sem medo de ser triste

Venho de três raças muito tristes.
Eis porque o viver tanto me dói...
(Da música Eu não tenho nada a ver com isso, de Toquinho e Vinícius de Moraes)


É, têm uns dias em que a vida derruba a gente. Acontece meio de repente, você acorda e descobre que o mundo que ontem era ensolarado e cheio de sentido está com um jeito nublado de acordes tristes e versos melancólicos. Descontente com você mesmo, infeliz com todo o resto. Será que minha alma morreu, perguntaria o poeta?

A tristeza é uma grande companheira dos homens.

Se você vivesse lá pela segunda metade do século 19, provavelmente essa súbita "morte da alma" seria diagnosticada como spleen ou melancolia. Você teria a companhia de todo tipo de gênios, como o poeta francês Beaudelaire ou o inglês Lord Byron. E, quem sabe, se dedicaria também à poesia ou à filosofia. A tristeza, naqueles tempos, era par constante das melhores almas dentre nós.

Mais tarde, os negros americanos transformariam sua tristeza em música e é, até hoje, em ritmo de blues que muita gente embala seus desencantos, sua solidão. (Eu, por exemplo, nem tento disfarçar minha vocação para um Lady sings the Blues, na voz de Billie Holiday)

Aqui no Brasil, também tivemos nossa cota de melancolia criativa. Alguém lembra da fossa? Estava na moda há apenas algumas décadas, afinal. Todo mundo ficava "na fossa" nos anos 70...

Sem falar do banzo, essa palavra-música triste, triste, como só os negros arrancados da África podiam ser...

Se você for olhar pelo buraco da fechadura da história da sua família, aposto que vai descobrir alguma tia-avó que morreu de melancolia. Dizem que minha bisavó morreu assim, não agüentou a mudança para o Brasil, sentia falta da terra que ficara do outro lado do mar. Era assim, quando a tristeza encontrava a saudade, matava mesmo.

Para curar a alma ferida, além de poesia, muitos buscavam a solidão. Retiravam-se para longe do mundo, para dentro de suas almas, buscando aquela intimidade perdida. Carl G. Jung, por exemplo,  construiu ao longo dos anos e com suas próprias mãos uma torre de pedra para abrigar sua alma. Dizem que começou como uma pequena estrutura e, no final, tornou-se um espaço sagrado, onde ele pintava nas paredes, escrevia seus sonhos, alimentava suas reflexões e suas lembranças.

Para um outro grande pensador da alma humana, Thomas Moore, "problemas são parte de todas as vidas humanas e não necessariamente fazem mal para a alma. Ela sofre quando sistematicamente excluímos da nossa vida as sólidas experiências que podem nutri-la e pelas quais ela anseia".

Para Thomas Moore, ainda que não possamos construir uma torre para nossa alma, podemos, sim, dedicar um quarto, um canto para brincar com ela. "Um espaço onde podemos sentir concretamente nosso tempo de vida estendido em ambas as direções, para o passado e para o futuro".  Até uma gaveta, onde a gente possa acumular nossos sonhos e reflexões já é uma forma de abrir uma janelinha para esse eu que nos habita.

Hoje não temos muito espaço nem tempo para spleens, blues, fossas, melancolias e que tais. Temos tanto medo desse enfim-sós-e-agora? com a gente mesmo, que tratamos tudo isso com Prozacs. E pronto. Mas porque não correr o risco e, de vez em quando, sem medo de ser triste, convidar a alma para dançar?




Adilia Belotti (belotti@ig.com), editora do site 
Árvore do Bem, escreve esta coluna às segunda-feiras