Por Fernando Seth
Pelo menos um entre cinco adultos terá depressão em algum momento da vida. As mulheres, curiosamente, são mais afetadas: 25% delas, se ainda não têm, terão a doença. Confira a entrevista com o psiquiatra Odeilton Tadeu Soares.
O que é a depressão? Nós poderíamos dizer que a depressão é um transtorno do humor. Ou seja, um transtorno na capacidade da pessoa de se relacionar com o meio ambiente, de vivenciar suas emoções, de sentir prazer. Mas vamos esclarecer bem este ponto. Você pode acordar mal-humorado, irritado, por exemplo, ou então feliz, esperançoso, ou ainda exaltado ou angustiado. Essas variações são normais. O que caracteriza o transtorno é a perda da capacidade de modular as próprias emoções. A depressão pode aparecer quando a pessoa não transita mais de uma emoção a outra, tornando-se apática.
É importante também diferenciar a depressão da tristeza. Todo mundo fica triste, é um sentimento humano natural. O que pode indicar a doença é a permanência deste estado mesmo em face de uma notícia boa. Você está triste, mas o seu time foi campeão. É normal que uma certa alegria tome conta do seu peito. Mas quando esta tristeza passa a ser excessiva, angustiante, duradoura, aí sim se torna uma depressão.
Explique a depressão do ponto de vista bioquímico Existe uma região do cérebro, o sistema límbico, responsável pelo controle do comportamento. Seria o nosso “cérebro emocional”, vamos dizer assim. A hipótese bioquímica mais provável para explicar a depressão é que ocorra um desequilíbrio de neurotransmissores, como a serotonina, dopamina, noradrenalina, nesta região, o sistema límbico. E os medicamentos antidepressivos atuam justamente visando reequilibrar o fluxo desses neurotransmissores. Vale dizer que atualmente os antidepressivos estão mais eficientes, mais seguros e causam um número muito menor de efeitos colaterais.
Quais são os sintomas típicos da doença? A incapacidade de sentir prazer, uma tristeza crônica (quando ela dura mais de dois anos), cansaço, fadiga, acordar sem pique, sem vontade de fazer nada. É comum a falta de interesse em coisas rotineiras da vida como teatro, cinema, futebol. Por exemplo, aquela pessoa que gosta de assistir televisão e de repente perde completamente a vontade... Um prato gostoso, sempre apreciado, passa a não causar mais prazer... A perda do desejo sexual, da libido e também da capacidade de produzir...
Existem ainda os chamados sintomas endógenos, orgânicos, como a falta de apetite e conseqüente emagrecimento. Neste caso, a perda de peso que ultrapassa os 5% do peso total da pessoa. Existem as depressões atípicas, onde o que ocorre é o ganho de peso. A pessoa começa a comer mais. A insônia também ocorre com freqüência. Há a insônia inicial, a intermediária e a terminal. No primeiro caso a pessoa tem dificuldade para pegar no sono. No segundo, a intermediária, ela acorda no meio da noite e não consegue mais dormir e, finalmente, na insônia terminal, a pessoa acorda pelo menos duas horas antes do horário programado e fica com as suas ruminações depressivas. O mais comum em casos de depressão é a insônia terminal. A lista de sintomas vai longe.
Por que as mulheres são mais atingidas? Uma das hipóteses é a de que elas procuram mais os serviços médicos, e as nossas estatísticas estão muito baseadas nos pacientes com esse perfil. A mulher tem muito mais facilidade para falar de seus problemas, tem uma sensibilidade aumentada em relação a sua sintomatologia. O homem parece que é extremamente resistente a procurar atendimento. Felizmente isso parece que está melhorando. Talvez os índices estejam muito mais próximos do que a gente pensa. É fundamental que os homens mudem esse padrão de comportamento e procurem ajuda. Muitos estão doentes, podem se curar, melhorar a qualidade de vida, e não sabem.
Esta é uma doença contemporânea? As primeiras descrições que nós temos de quadros depressivos datam da Grécia de Hipócrates, século V antes de Cristo. Esses relatos são clássicos: tristeza, incapacidade de sentir prazer, entre outros. Ao longo dos séculos, vários estudiosos têm feito descrições muito interessantes. Inclusive na Bíblia nós encontramos relatos de quadros depressivos. Com certeza é uma característica do ser humano que vem desde sempre.
Como tratar a depressão? Há três pilares que sustentam o tratamento. Um é a orientação aos familiares. É essencial que a família compreenda que não adianta forçar o paciente a retomar sua vida, achando que está ajudando. Muito pelo contrário. Esta orientação tem se mostrado decisiva.
Depois vem o tratamento medicamentoso. Nós temos hoje um grupo muito grande de antidepressivos. Após dez, quinze dias tomando os remédios, a pessoa já começa a sentir uma melhora nos sintomas. Após dois meses se encontra praticamente bem; e depois nós fazemos um tratamento de manutenção, com o medicamento ainda, por mais seis, oito meses. Depois disso a pessoa tem que ter alta.
O terceiro pilar é a psicoterapia. Há várias linhas possíveis que podem ser aplicadas, mas a que tem se revelado mais eficaz é a psicoterapia cognitivo-comportamental, ou seja, aquela que visa reformular os padrões de pensamento do paciente. Por meio de técnicas cognitivas, o terapeuta procura alterar pensamentos que possam ser prejudiciais à recuperação da pessoa. É o famoso pensamento positivo.
A idéia é que o tratamento medicamentoso e a psicoterapia sejam simultâneos. Essa associação é a forma mais eficiente que nós conhecemos para se tratar a depressão. O paciente que fez um tratamento adequado num primeiro episódio depressivo tem cerca de 70% de chance de nunca mais vir a ter nada. Isso porque a depressão tem como um dos fatores de desencadeamento a predisposição genética. Situações como a morte de um ente querido, perda do emprego, separação e outros acontecimentos estressantes podem levar novamente à doença.
É evidente que pessoas sem a predisposição genética também podem desenvolver depressão, quando submetidas às situações citadas. O que é importante revelar é que de 80 a 90% das pessoas que nós tratamos com depressão têm uma melhora muito grande.
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Odeilton Tadeu Soares é Médico Psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. É especialista em Psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP.
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