Era uma vez uma bela casa, nela moravam mulher, marido e três filhos. A bagunça era muito grande, pois as crianças e seus amiguinhos tinham energia demais. A mãe, sempre zelosa, cuidava atentamente dos queridos pestinhas, enquanto o marido trabalhava. Não era fácil dar conta de tudo, mas ela fazia aquilo com muito amor.
Mais tarde, na adolescência, as “crianças” mostraram que não eram mais crianças e começaram a causar conflitos. Chegavam de madrugada e até montaram uma banda na garagem.
O pai pedia para que a mãe solucionasse os problemas cotidianos, pois a vida dele já era bastante dura durante o turno de trabalho.
Nessa época, a casa vivia cheia de gente, logo vieram as namoradas e os namorados, que mudavam de cara e de nome com o passar dos meses.
A vida corria assim, a mãe cuidava das roupas, da comida, dos remédios e de tudo mais,
o pai tratava de botar dinheiro em casa e impor-se nas questões mais sérias.
No tempo certo, os dois filhos casaram-se, a filha foi morar numa cidade maior, para cursar faculdade.
A casa, que antes era cheia de entra e sai e blá blá blá, agora reservava uma paz exagerada, um silêncio incômodo, por vezes melancólico ... e foi assim que o ninho ficou vazio.
Síndrome do quê?
A Síndrome do ninho vazio não é uma doença física ou psíquica, não se trata de uma fobia ou de frescura, sequer é um vírus contagioso. Ela é sim, uma profunda tristeza que algumas mães enfrentam quando os filhos deixam o lar. A mulher sente-se inútil, já que não precisa mais desenvolver o papel de mãe. Os dias ficam tristes e a vida parece boba.
Os filhos, que antes solicitavam a mãe a cada cinco minutos, agora não moram mais com os pais. Foram estudar em outra cidade, arrumaram emprego em outro estado, ou então, casaram-se.
Ana Cristina Gonçalves, psicóloga, explica que a Síndrome do Ninho Vazio é um problema bastante comum, "acontece principalmente com mulheres que não desenvolveram outro papel, senão o de mãe", explica. É uma fase complicada para as mulheres que passaram vinte e poucos anos de suas vidas dedicando-se exclusivamente aos filhos: quando eles vão embora, elas perdem o chão.
Dona Elizabete que o diga. Ela tem 59 anos e vive em Guará, interior de São Paulo. Seus dois filhos, Juliana e Alexandre, saíram de casa ainda jovens, para estudar e trabalhar, hoje são casados.
“No começo eu ficava triste e preenchia o meu tempo com o trabalho, mas logo me aposentei. Daí veio a menopausa e as coisas ficaram piores. Eu sentia meu coração apertado e muita falta dos filhos”.
Segundo a psicóloga Ana Cristina, a chegada da menopausa pode agravar o quadro de tristeza. Isso porque, algumas mulheres têm déficit de estrógeno, que provoca flutuação humor e as torna ainda mais sensíveis.
“Na menopausa ocorre a falência dos ovários, isso significa que a mulher não poderá mais procriar. Essa fase pode coincidir com a época em que os filhos estão saindo de casa. Então a mulher se assusta. Percebe que além de não poder mais ter filhos, está perdendo as suas crias para o mundo”.
Percebendo que a perda de suas crias para o mundo era fato inevitável, dona Elizabete tratou de encontrar outras coisas para fazer. Começou a tricotar casaquinhos para crianças necessitadas e a visitar creches e orfanatos. “Hoje eu faço um monte de peças de tricô enquanto assisto minhas novelas, isso me distrai bastante. Porém, os porta-retratos dos meus filhos continuam espalhados pela casa, também mantenhos os seus quartos arrumados”, conta.
Enfim sós
O ninho ficou vazio, mas a cama não, o marido continua lá, só que aposentado. A frase “enfim sós” que antes parecia um sonho, agora anuncia turbulências. O casal terá de reaprender a viver junto e redescobrir os prazeres a dois. Contudo, o momento que deveria ser encarado como uma possibilidade de reaproximação, pode se transformar numa verdadeira guerra.
“O homem era acostumado a exercer o poder no trabalho, e a mulher em casa. Quando juntos, começam a brigar, já que os dois querem mandar. Ele quer assistir TV e ela quer varrer a sala, ele quer martelar a porta e ela quer ouvir rádio”, explica Ana, que conclui, “é uma pena quando isso acontece, pois a época de calmaria poderia proporcionar bons momentos juntos”.
Para o homem também não é fácil, quando os filhos saem de casa, o pai passa a temer que eles não se cuidem, ou que não tomem cuidados com a segurança. É mais ou menos por volta dos cinqüenta e poucos anos que o homem se aposenta e enfrenta uma baita crise, ele tem o ganho diminuído e perde o papel de sustentáculo financeiro da família. E o pior, percebe que já não é mais o ídolo dos filhos.
De agora em diante
Já que os filhos foram viver suas próprias vidas, é tempo de desfrutar do mais raro tesouro da modernidade: o tempo livre. Para Ana Cristina, quanto mais interesses a pessoa criou quando jovem, mais facilidade ela terá para ocupar bem o seu tempo na maturidade. “Caso contrário, a saída é criar novos interesses, como: atividades artísticas, físicas, intelectuais, sociais ou culturais”, explica a psicóloga que leciona em cursos universitários voltados para a maturidade.
Segundo ela, as aulas são animadas e a platéia é formada por 98% de mulheres. “Eu percebo que elas melhoram o astral e a aparência depois que começam a freqüentar o curso, onde aprendem matérias interessantíssimas e divertidas”.
E os homens, onde estão? “Jogando dominó com velhos conhecidos”, responde Ana, “ao longo da vida, os homens não são estimulados a este tipo de sociabilidade, quando estão mais velhos, nem sabem como chegar em grupos desconhecidos”.
Um toque para os filhos
- é legal
visitar os pais e levar algo que eles gostem
levar os pais para almoços, jantares ou passeios
passar as datas comemorativas juntos
fazer os pais entenderem que eles também fazem parte de sua nova família
estimular o convívio com sua nova família (sem exagerar pra não criar confusão com o cônjuge)
incentivá-los em novas atividades
- não é legal
pedir para a mãe fazer tarefas domésticas para você
empurrar os pais para atividades que eles não queiram fazer
deixá-los interferir na vida do casal
fazer e cair em chantagens sentimentais
ficar respondendo questionário materno
Segundo a psicóloga, cabe aos filhos orientarem os pais nessa fase difícil de suas vidas. E o último toque: não procure a mamãe e ao papai apenas quando eles forem necessários e convenientes. E lembre-se, "avó e avô foram feitos para mimarem os netinhos, e não para educá-los, eles já estão cansados para isso", conclui.