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Por: Luciana Araújo Quando o assunto é separação de casais, a primeira coisa que vem à mente são aquelas brigas homéricas, atos de desespero e vingança, como as que vemos em novelas e filmes. Infelizmente isso não é apenas coisa de ficção, mas nem todo divórcio é sinônimo de guerra e em alguns casos ele também não exclui a amizade. Há 22 anos atuando como advogado de família, Antonio Ivo Aidar, diz que já acompanhou todo tipo de história. “Vi muitos casos em que o casal saiu guerriando e o final foi desastroso. Marido que matou a mulher. Outro que botou fogo na casa. Em contrapartida, há casais que continuam amigos e aqueles que até voltam a viver juntos”, conta o advogado. De acordo com o especialista, ao contrário do que possa parecer, a maioria dos casos é resolvido sem grandes desavenças. “Oitenta por cento dos casais divorciam-se sem transgredir comportamentos éticos”, contabiliza. Segundo ele, para duas coisas não há exceções numa separação. “Os dois sempre ficam mais pobres e os filhos sempre sofrem”, avalia Antonio Ivo Aidar, que faz um alerta: “o advogado acaba tendo um papel muito importante nestas histórias. O bom profissional trabalha para encontrar uma solução e não fomenta discórdia e isso pode ser obeservado”. Separados, porém amigos Após 19 anos, o casamento de Jorge e Márcia já não era o mesmo. “Fizemos de tudo para não terminar. Terapia de casal, muito diálogo, mas nada resolvia. O desgaste era muito grande e a convivência começou a ficar complicada”, argumenta Jorge. “Quando percebemos que não tinha mais jeito, a decisão era reduzir ao máximo o impacto da notícia sobre os filhos, que na época tinham 16, 14 e quatro anos de idade”, lembra Jorge. Márcia recorda que a separação teve até data marcada. “No final do ano tínhamos tomado a decisão de separar-nos, mas decidimos adiar porque nesta época nossa filha estava prestando vestibulinho (para entrar no colegial técnico) e a notícia poderia atrapalhá-la. Logo depois vieram as festas de fim de ano e achamos que seria muito ruim para a família. Depois eu viajei, enfim... Então, no dia 12 de janeiro, num domingo há cinco anos atrás, o Jorge levou os meninos numa sorveteria e contou o que estava acontecendo”, ela narra. “Foi difícil. Fiz terapia. Trabalhei bem o emocional e minha auto-estima. Não me fiz de vítima. Se chorei algum dia perto dos meus filhos, foi só uma vez. Resolvia o que tinha que resolver no consultório. Tinha total consciência de que não adiantaria nada ficar remoendo o assunto”, diz Márcia. Ela fala que é muito feliz separada e que manteve por Jorge muito carinho e amizade. “Tenho muito mais amizades agora do que antes. Saio bastante, viajo, faço natação. Uma das coisas que mais gosto de fazer, por exemplo, é dançar. Muitas vezes saio para dançar e o Jorge fica em casa cuidando do caçula, sem problema algum”, conta Márcia. Com o divórcio, Jorge abriu mão da casa, do carro e até hoje paga a escola e faculdade dos filhos, e as contas de água e luz da casa da ex-mulher. Segundo Márcia, outra coisa que Jorge deixou para ela foi o nome. “No geral após o divórcio, a mulher deixa de usar o nome do ex-marido. Mas ele concordou perante o juiz que eu continuasse com o nome dele. É que ao longo dos meus 23 anos de profissão, sempre fui conhecida como Márcia De Lucca”, explica a professora. Jorge avalia que o fato de ambos estarem numa idade em que prevalece a razão e não mais a emoção talvez tenha influenciado num desfecho sem agressões. Outro ponto importante, segundo ele, para que a amizade continuasse talvez tenha sido o fato de não ter existido traição. “Nem eu nem ela tínhamos outro. Foi só o desgaste mesmo”, opina. Maria Cristina e Mário conheceram-se na faculdade. O namoro entre os dois durou os cinco anos do curso de medicina. Ela conta que durantes todos este período namorou um príncipe, mas se casou com um sapo. Desencantamento absoluto. Adultério, falta de controle financeiro, ciúmes, ausência por motivos banais foram algumas das atitudes que resultaram nos desentendimentos freqüentes entre o casal. “Da minha parte houve um desencanto em relação aos papéis a serem desempenhados no casamento e eu via da parte dele um desrespeito com o vínculo conjugal”, relata Maria Cristina. Ela lembra que na época, início dos anos 80, surgiam as primeiras notícias dos casos de Aids, e que não à toa o comportamento do marido representava sempre um risco, em oposição à segurança que se espera do companheiro. Segundo Maria Cristina, o ápice da crise de seu casamento, que durou sete anos, se passou durante sua segunda gravidez. “Ele dizia que o filho não era dele”, diz. Depois de 20 anos da separação e reconhecendo que tudo foi muito trabalhoso e doído, ela, que é psiquiatra, explica que este é um comportamento freqüente. “É uma tentativa de negar a condição paterna. A pessoa quer ter filho, mas quando isso se torna uma realidade, tem dificuldade em assumir suas responsabilidades”, analisa. “Fizemos uma experiência de separação durante seis meses. Quando este prazo terminou, eu concluí que não queria retomar o casamento”, recorda Maria Cristina, mas a notícia não foi bem aceita pelo marido. “Ele reagiu mal, foi imaturo. Num primeiro momento ficou muito ausente e hostilizava os filhos. Seis meses após o nosso rompimento ele iniciou uma outra relação e a nova mulher engravidou”, relata Maria Cristina. “Foi muito difícil, mesmo assim, nunca aceitei que meus filhos ofendessem a outra família do pai e quando ele vinha em casa era sempre bem tratado e recebido num ambiente amigável”, diz. Aqui, a palavra amigável usada por Maria Cristina é empregada como sinônimo de cordialidade. Afinal, quando questionada se amizade continuou, Maria Cristina não tem dúvida. “Amigos nunca mais”, afirma. Depois de alguns anos, eis que a amizade é retomada Foram várias discussões até que um dia, depois de seis anos casados, tudo se complicou ainda mais. “Tivemos um briga feia. Quando um parte para cima do outro é que o relacionamento acabou”, opina. E neste caso os problemas tinham só começado. “Mesmo depois da separação foram anos e anos de guerra pessoal e contra uma inimiga muito forte. Eu vivi com ela, por isso ela conhecia meus pontos fracos e eu os dela”, esclarece Rubens. Em uma destas batalhas na guerra com a ex-mulher, Rubens acabou preso. “A Justiça determinou que os filhos ficassem com ela. Mas uma coisa me incomodava. O nosso filho sempre voltava mal. A menina ficou sempre bem, mas ele não. Um dia eu o peguei e levei para casa e disse que não ia entregar mais. Ela me denunciou por seqüestro. Fui levado pela polícia à delegacia”, relata Rubens. Lá, segundo ele, uma assistente social ajudou bastante aos dois resolverem a situação e a ex-mulher retirou a queixa. “Na época ficou decidido que o menino poderia escolher com quem queria ficar. Ele ficou comigo. Hoje eu não permitiria isso, acho que os filhos devem ficar com a mãe. Não acho certo ter separado os irmãos, mas eu era muito novo, não pensei nisso”, lamenta Rubens. E quem diria que depois de anos tão tumultuados Rubens poderia dizer que ele e sua ex-mulher são amigos? Pois é. “Temos uma amizade bonita. Se estamos numa festa, eu dou carona para ela. Apóio sempre. Agora ela está desempregada e eu ajudo a distribuir os currículos, faço recomendações. Ajudo no que ela precisar, afinal não quero ver a mãe dos meus filhos mal”, observa Rubens. Se o “até que a morte os separe”,já não é possível, pelo menos que ninguém se mate antes... |
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