![]() |
|
|
|
||||||||||||||||||
|
||||||||||||||||||
|
Por: Lisandra Maioli Da maçã proibida que expulsou Adão e Eva do Paraíso, passando pela maçã irresistível que adormeceu Branca de Neve, até os saborosos cachos de uvas usados por Jack, o Estripador, para conquistar suas vítimas, muitos alimentos são personagens principais nas histórias de conquistas e sedução. Isto sem falar nos banquetes servidos por Cleópatra aos homens que pretendia seduzir politicamente e nas orgias realizadas nos grandes banquetes das cortes européias, como a de Luis XIV, o Rei Sol, que misturava negócios e prazeres íntimos entre os pratos servidos. De modo geral, no entanto, o poder de sedução é geralmente ligado ao amor e especialmente ao sexo e à mulher, como explica Jean Boudrillard, no livro, Da Sensação: “O próprio amor e o ato carnal (sexo) são um adorno sedutor, o mais refinado e sutil dentre os inventados pela mulher para seduzir o homem. (...) A sedução é soberana, é o único ritual que eclipsa todos os outros; (...) o fascínio da sedução passa pela atração do sexo. Mas, justamente, passa através e a transcende”. Muitas expressões e metáforas ligam o amor ou o sexo à alimentação: apetite sexual, lua-de-mel, lábios de mel, alimentar a paixão, etc. O clássico sobre a habilidade e a arte indianas do sexo e do amor, o milenar Kama Sutra, dedica quase um capítulo inteiro às comidas que podem aumentar o vigor sexual. Entre no mundo das comidas afrodisíacas Que mulher nunca foi convidada para jantar por um pretendente como um dos passos da conquista masculina? Que mulher (ou até homem) nunca recebeu uma caixa de bombons sedutores? Segundo o mestre em Educação, Arte e História da Cultura e professor da faculdade de Gastronomia do Senac de Campos do Jordão/SP, João Luís Almeida Machado, esses hábitos e tradições devem ter surgido a partir do século 18, já que “Os restaurantes, da forma como os conhecemos foram criados na França do século 18”, explica. E o tão falado poder de sedução do chocolate? O professor conta que o famoso sedutor veneziano Giacomo Casanova (1725-1798) degustava uma barra de chocolate antes de suas orgias e os pesquisadores estão descobrindo que os ingredientes do chocolate contém realmente substâncias que provocam reações químicas no cérebro, relacionadas à sensação de bem-estar, como a feniletilamina, que, além de interferir no mecanismo amoroso, produz a serotonina, uma substância estreitamente associada à sensação de bem-estar. Na relação das comidas afrodisíacas, além do chocolate, você vai encontrar: as pimentas (por estimular, excitar, provocar e ainda por serem infusores de calor), as trufas (cogumelos que, dizem, exalam um cheiro semelhante a um feromônio liberado por javalis antes do acasalamento) e as ostras (Casanova afirmou que aguçava seu lendário apetite sexual comendo 12 ostras no café da manhã e outras 12 no almoço). A palavra "afrodisíaco" é utilizada desde o século 1 a.C. e deriva de Afrodite, nome da deusa do amor na mitologia grega. Diz a lenda que a deusa nasceu da espuma do mar, depois de Cronos ter castrado seu pai e lançado os genitais na água. Daí a crença de que todos os alimentos que vêm do mar são afrodisíacos. Em seu livro Afrodite, Isabel Allende conclui: “Os afrodisíacos são uma ponte entre a gula e a luxúria”. E se ainda estamos engatinhando nas explicações científicas sobre os efeitos de comidas afrodisíacas e, ainda estejamos longe de um consenso, existe pelo menos um aspecto onde há unanimidade: esse poder da culinária afrodisíaca está mais relacionada à mente que ao corpo e, sobretudo, à cultura, afinal, “cozinhar é uma ação cultural que nos liga ao que fomos, somos e seremos e, também, como o que produzimos, cremos, projetamos e sonhamos”, como lembra a historiadora Maria L. Leal, em seu livro A história da gastronomia. E continua: “A fome biológica distingue-se dos apetites, expressões dos variáveis desejos humanos e cuja satisfação não obedece apenas ao curto trajeto que vai do prato à boca, mas se materializa em hábitos, costumes, rituais, etiquetas. Muitos antropólogos já sublinharam o fato de que nenhum aspecto do nosso comportamento, à exceção do sexo, é tão sobrecarregado de idéias”. Por que será que ao longo da história os homens acabaram ficando tão famosos como “grandes chefs”? Figuras como La Varenne, Grimod de la Reynière e Vatel entraram para a posteridade como grandes mestres da gastronomia que “refere-se à arte de preparar iguarias, tornado-as digestivas, de modo a obter o maior prazer possível”. E é claro que também acabavam sendo profundos conhecedores dos alimentos afrodisíacos, como relata com bom-humor Luigi Cassone, em Drinques e pratos afrodisíacos: “os bons caçadores das alcovas eram ao mesmo tempo gastrônomos que sabiam não somente levantar as saias das mulheres, mas também levantar as tampas das panelas; assanhavam-se com as novidades e a procura de novos afrodisíacos”. No entanto, assim, no dia-a-dia, a cozinha sempre foi lugar de mulher e, muitas vezes, esta relação apareceu de forma pejorativa, como na expressão “lugar de mulher é na cozinha”. Talvez porque não tivessem tanto acesso à escrita, as mulheres ficaram de fora da literatura gastronômica, mas nunca ficaram realmente longe da cozinha e das artes de sedução. Segundo o mestre em Educação, Arte e História da Cultura e professor da faculdade de Gastronomia do Senac de Campos do Jordão/SP, João Luís Almeida Machado a relação da mulher com a culinária vem da pré-história: “Nesse período as mulheres auxiliavam na obtenção dos alimentos através da coleta e, posteriormente, passam a ser responsabilizadas pela agricultura. Moíam os alimentos, passaram a manusear o fogo e a cozinhar”, explica. Mas, parece que foi numa religião pagã que as mulheres descobriram o poder e as delícias da gastronomia. Hoje, ao percorrer as prateleiras de qualquer livraria ou ao se fazer uma busca em livrarias virtuais, é possível encontrar inúmeros títulos dedicados à culinária Wicca. Enquanto a culinária representou status e poder (político, econômico ou social) para os homens, para as mulheres ela parece ter adquirido um outro tipo de significado de poder: a sedução. Afinal, como ensina Jean Boudrillard: “O poder do feminino é o da sedução”. E ainda ajuda a lembrar: “O feminino é já não o que se opõe ao masculino, mas o que seduz o masculino”. Alguns autores relacionam a origem da bruxaria com a revolta feminina contra a misoginia medieval, época em que a sexualidade (especialmente dos pobres) era duramente reprimida pela Igreja. A professora de História da PUC, de São Paulo, Leda da Motta comenta que na Idade Média as mulheres chamadas “bruxas” estavam assumindo papéis negligenciados tanto pela Igreja quanto pelo Estado, o que incomodava muito esses dois poderes: “Elas manipulavam ervas medicinais curando e aliviando a dor de doentes e aflitos, prestavam serviços espirituais, preparavam magias para conquistas”. Quem sabe não foi mesmo na cozinha que a mulher encontrou uma maneira de criar e pensar, longe da repressão masculina. Márcia Frazão, bruxa e escritora lembra que muitas mulheres foram condenadas à fogueira pela Inquisição por conseguirem transformar poucos ingredientes em deliciosos e apetitosos pratos. Milhares de mulheres-cozinheiras-bruxas foram queimadas vivas durante essa época, mas a arte da Wicca sobreviveu e hoje até os homens se aventuram nesta área. Preparar encantamentos na cozinha e pratos enfeitiçados, no entanto, ainda parece ser domínio delas: “na cozinha compreendi o mistério do poder das fêmeas: o maravilhoso dom, que possuímos, de nutrir o mundo e torná-lo um lugar onde todos desejam viver”, explicou Márcia Frazão. A bruxa ainda reforçou: “é na cozinha que as ervas revelam o misterioso poder de conquistar o objeto de desejo e torná-lo súdito da luxúria”. A jornalista Ruth Joffily certa vez comentou que nos anos 60/70 as mulheres se afastaram das cozinhas. Para as feministas, cozinhar passou a ser uma representação “da subserviência da mulher à sociedade patriarcal”. Hoje, contudo, segundo ela, a mulher moderna pode “resgatar o caminho feminino e nos provar que dá para ser contemporânea/atual sem abrir mão da nossa dita feminilidade”. Desejo sexual, cheiro de cravo e canela e filmes de dar água na boca No seu livro famoso sobre comida e sexualidade, Afrodite, Isabel Allende, propõe: “apetite e sexo são os grandes motores da história, preservam e propagam a espécie, provocam guerras e canções, influenciam religiões, lei e arte. (...) Gula e luxúria, que tantas loucuras nos fazem cometer, têm a mesma origem: o instinto de sobrevivência”. Se sexo e culinária foram e são fundamentais para a construção da história, da cultura e da sobrevivência da espécie humana, pergunta-se: o que seria de nós sem o tempero da sedução gastronômica e sexual? Para saber mais
Os filmes de dar água na boca
|
||||||||||||||||||
|
||||||||||||||||||
|
||||