Marie Rucki, diretora do Studio Berçot, de Paris, desde a década de 70, esteve em São Paulo para uma semana de palestras e workshops. E mostrou porque é um ícone planetário da elegância. Aqui ela fala de estilo, de seguir ou não a moda e confirma: a silhueta do nosso tempo é uma mulher de salto altíssimo, calça skinny e jaqueta justa...

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Estilo é...
"Vemos o que é estilo todos os dias. Todas as informações e as novidades estão na internet, especialmente nos blogs de pessoas comuns, anônimas, com fotografias das ruas, e não de modelos conhecidos. O estilo é a atitude pessoal de cada um, e não tem relação necessariamente com o luxo. Você pode dar camisetas brancas para várias pessoas vestirem e cada uma vai ficar diferente com a mesma peça. A roupa não é importante, a pessoa imprime importância à roupa: a intenção que ela coloca em uma roupa fará com que ela se diferencie da outra. O que define o estilo é a postura, o jeito de usar a roupa, o movimento, a atitude, o gesto. Esse jogo de aparências é mais importante do que se imagina, porque pressupõe liberdade para criar seu próprio estilo ".

À primeira vista, Mme Rucki se parece com uma típica avó. Cabelos grisalhos, voz contida, fala pausada, saia bege nos joelhos, camisa branca e blazer preto, óculos para ajudar na leitura. Mas conforme ela fala sobre moda fica fácil notar que um turbilhão de idéias circula em sua mente ¿ idéias modernas demais para uma avó como as nossas. E a modernidade que vive dentro dela se revelava nos pés: fugindo um pouco do figurino clássico, estavam lá as sapatilhas sem salto, salmão, amarradas nos tornozelos.

Corpo e Moda
"Claro que cada mulher tem seu corpo, mas a moda acaba mudando o padrão do físico feminino. O corpo de hoje não é como era nos anos 50, ou nos anos 80. Nos anos 80, por exemplo, a mulher tinha a cintura fina, os seios arredondados. Hoje esse corpo é bem diferente, lembra os afrescos egípcios: a mulher tem os ombros quadrados, quase masculinos. A silhueta contemporânea é de uma moça com salto altíssimo, calça skinny, jaqueta justa".

O peso do nome de Mme Rucki se sente no ar: a platéia, predominantemente feminina, faz um silêncio reverencial enquanto ela fala, em parte para acompanhar a tradução do francês, mas principalmente para não perder nenhuma palavra do que essa referência da moda internacional tem para dizer. Marie Rucki devolve a gentileza agindo com uma elegância superior: não demonstra nenhum abalo com a grande quantidade de pessoas que se atrasam, nem mesmo com um mal-educado telefone celular que insiste em tocar durante a palestra.

O culto às celebridades
"Há 200 anos, as celebridades eram as grandes cortesãs. Há 300, as rainhas. No século 20, o posto foi assumido pelas modelos. Hoje as celebridades são todas as estrelas, que se movimentam entre pontos de luxo e difundem a moda. Elas fazem um desfile de moda permanente, nas revistas, nas entregas de prêmios no seu cotidiano. O público quer se entupir de informações sobre moda e fica inquieto atrás delas, e as respostas vêm da publicidade e das celebridades, que confirmam se o consumo está correto. É um ciclo, o público precisa dessa confirmação permanentemente. E isso acontece o tempo todo, porque os ídolos estão expostos de maneira exagerada. O mundo se tornou muito provinciano e as pessoas gostam de olhar para seus ídolos".

Ela não perde o bom humor nem mesmo quando tem problemas técnicos com o projetor de fotos. Mas isso não quer dizer que ela não tenha se importado com os desagradáveis contratempos. Ao demonstrar atitude blasé em relação aos incidentes, Rucki apenas confirma ser um dos ícones de elegância que descreve: uma pessoa que sabe usar a sua silhueta e sabe se vestir da maneira mais neutra possível para poder fazer sugestões aos outros, na aparência, e com atitudes contidas, dignas de uma grande dama.



Isso não significa que Mme Rucki seja sempre dócil: quando critica alguma personalidade que, em sua opinião, comete deslizes de moda, ela é ácida. Victoria Beckham, por exemplo, é definida como um nada do ponto de vista da moda. Já os ícones de moda aprovados por ela recebem elogios rasgados. Nessa ala privilegiada estão personalidades como Karl Lagerfeld e Sofia Coppola. E quem ousa discordar?



Consumir é preciso
"Hoje as grandes butiques fazem um trabalho de reconhecimento da moda. Elas funcionam como revistas, se responsabilizando por uma seleção cuidadosa do que vão vender, e fazem uma intermediação entre os estilistas e o público. Os compradores vão até essas lojas e extraem o conceito geral da loja e o conceito de moda em busca do novo. Hoje em dia há certos produtos de moda que ninguém agüenta mais e, por isso, há ciclos de propostas para que as pessoas se interessem pelos produtos. É preciso introduzir uma noção de insólito, de fantástico, para causar uma mudança. No fundo, tudo isso se trata de vender. A moda atual não é uma necessidade absoluta, mas um desejo de consumo onde cada pessoa escolhe o que comprar e com isso faz a sua própria encenação, como num teatro, e se diverte com isso".

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