Cada vez mais mulheres criam sua família com pouca ou nenhuma ajuda do pai

Uma mãe sozinha pode ser separada do marido, viúva ou simplesmente uma mulher solteira. As situações são diferentes em cada um desses casos e as histórias são únicas e cheias de particularidades. Embora muitas mulheres consigam criar filhos felizes mesmo sem a presença de um marido, quem arca com a maternidade sem o apoio diário de um homem enfrenta uma série de dificuldades. É preciso muita força de vontade para encarar os sacrifícios. Estou sempre tentando fazer com que meu filho entenda tantas privações, diz Tânia Narcizo, 37 anos, mãe de Juan, 9 anos.

A supervisora de cinco surfshop separou-se do marido quando o filho tinha 1 ano e 8 meses. Tive que arrumar uma casa para nós dois. Levava e buscava a criança, todos os dias, até a casa da minha mãe, que ficava em um bairro distante para poder trabalhar em outra cidade. Tudo isso sem carro, de ônibus, relembra a mãe, que há 12 anos tem uma jornada de trabalho de mais de 10 horas diárias.

Até os 3 anos de idade, o menino passava o dia inteiro com a avó materna, depois foi para uma escolinha em período integral. Nessa mesma época, Tânia perdeu a irmã, mãe de duas filhas, uma de 8 e outra de 10 anos. Acabou assumindo a guarda das sobrinhas. De uma hora para outra me vi sem minha irmã e com duas pré-adolescentes dentro de casa. Atualmente sua mãe mora perto e a ajuda nos cuidados dos três enquanto ela trabalha.

Ela conta que, eventualmente, o pai pega o filho para dar uma volta, principalmente, ir até a casa da avó paterna, que o Juan adora. Mas se tem problema na escola, ficou doente e precisa levar no médico, é tudo comigo. Ainda bem que agora, pelo menos, tenho um carro, diz a supervisora.

A técnica judiciária Júlia Sandin, 26 anos, mãe de Maria Eduarda, 7 anos, passou pelo drama de muitas adolescentes quando descobrem que estão grávidas: medo do que seus pais irão dizer, culpa por ter feito algo errado e desespero de não saber o que fazer. Só descobri que estava grávida do meu ex-namorado um tempo depois de estarmos separados. O apoio dos meus pais foi importantíssimo. Eles a auxiliam até hoje na criação da filha. Mas, morar na mesma casa que os avós pode causar confusão de papéis, também. Às vezes, se esquecem que sou eu a mãe. Ou acham que por ajudarem a Duda eu não precise de apoio para mim mesma, como filha.

Quando a filha nasceu, Júlia se sentia muito insegura. Fui trocar a fralda dela depois dos dois meses de idade. Tinha medo de machucá-la e minha mãe, também, me achava muito desajeitada. Quando a Duda fez seis meses, tudo mudou. Passou a responder mais aos meus estímulos e um amor incondicional tomou conta de mim, relembra. A criança já quis saber sobre a história dos pais, onde se conheceram e porque não estavam mais juntos. A curiosidade dela é totalmente natural, mas, ao mesmo tempo, que quer saber disso tudo, percebo que não sente falta da casa dela com o pai. Não tem como ela sentir falta de algo que nunca teve. O pai, que a visita de vez em quando, paga o colégio e o transporte escolar. A avó paterna mantém uma poupança para neta.

Os problemas da mãe sozinha não são apenas de ordem prática. Numa família em que o pai está presente, é ele quem transmite aos filhos e filhas os padrões de comportamento masculino vigentes nas sociedades. A ausência do pai nunca chegará a ser simplesmente esquecida. Um avô, um tio, um amigo podem preencher, ao menos em parte, a função que seria desempenhada pelo pai junto às crianças.
Há três anos, a documentarista Susanna Lira, que dirigiu a série Mãe & Cia, da GNT, durante cinco anos, decidiu expor sua experiência pessoal e fazer um filme. Não conheço meu pai. Sou filha de mãe solteira e fui pesquisar o fenômeno da deserção de paternidade no Brasil. Os números são impressionantes, mas não são oficiais., conta a diretora do longa-metragem Nada sobre meu pai. Pesquisas mostram que 30% das crianças, no Rio de Janeiro, não tem o sobrenome do pai e o número salta para 70 % nas classes menos favorecidas. O documentário deve ser finalizado ainda esse ano e tem o apoio de entidades como o UNICEF. 

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