Figuras cada vez mais comuns na estrutura familiar, elas lutam para combater o mito de vilãs

A vida delas não é fácil. Eternizadas como bruxas dos contos infantis, por séculos foram difamadas na vida real como exemplos vivos das madrastas malvadas da Branca de Neve e Cinderela. Até no dicionário a definição do substantivo feminino que as define, “mãe que maltrata os filhos”, é de incitar qualquer criança a fazer xixi nas calças.

Tratada como invasora e destruidora de lares, é a nova mulher do pai quem muitas vezes vai segurar a barra da família e ajudar o marido com a nobre tarefa de organizar a casa e a vida do enteado. E ela terá que se inserir em uma ordem à qual não pertencia.

"Eu já tinha dois filhos e minha visão de educação era bem diferente da que os filhos dele estavam acostumados. Era tudo novo, as regras, a divisão de tarefas, o funcionamento da casa. Tivemos que discutir e eu também tive que me adaptar”, conta Ana Cláudia Bevacqua, 38 anos.

A chegada de um elemento inédito na vida de uma criança pode gerar disputa em diversos arranjos: o mais comum é ela ter ciúme do pai e sentir medo de ver sua mãe substituída. Quando a madrasta já chega com filhos de outro casamento ou gera um filho desse pai, a situação pode tanto melhorar, como se agravar.

A mãe pode ressentir-se contra a madrasta, por conta do marido ou do próprio filho. E nem a pobre madrasta está livre de se sentir subjugada e, por vezes, cair na armadilha de concorrer com o enteado pela atenção do marido.

“Tive problemas por conta do ciúme da mãe e meu em relação ao meu marido. Brigas que eles tinham por conta de visitas, pensão, horários. E eu acabei me envolvendo além da conta. Meu grande erro foi não separar o que era problema deles como pais dos meus problemas no nosso casamento”, relata Thays Araujo da Silva, 28 anos.

Madrastas unidas

Para ajudar a lidar com esta pirâmide de encrencas, a AME, Associação das Madrastas e Enteados, foi fundada em 2002 e reúne madrastas de todo o Brasil, que trocam angústias e conselhos a qualquer hora do dia ou da noite através de um fórum na internet.

A ideia veio da terapeuta familiar Roberta Palermo, autora dos livros “Madrasta – Quando o homem da sua vida já tem filhos”, baseado em suas experiências pessoais, e “100% Madrasta – Quebrando as barreiras do preconceito”, recheado com histórias reais extraídas do fórum.

Todos os meses, as madrastas da associação se unem em encontros estaduais e uma vez ao ano, participam de um encontro nacional. “É um lugar de desabafo e busca de ajuda e é impressionante a rapidez com que estas mulheres melhoram, passam a se sentir acolhidas e compreendidas, por mais que recebam puxões de orelha”, diz Roberta Palermo.

Para participar, basta acessar o site da Roberta , clicar no link “fórum” e contar a sua história, como a Rosa Alina, de 29 anos, que superou os problemas e encontrou na relação com a enteada uma amizade verdadeira.

“Quando comecei a namorar meu atual marido, minha enteada tinha oito anos. Sempre adorei crianças, então nunca tive dificuldades em aceitá-la. Houveram momentos difíceis, relacionados à ex-mulher dele. Mas, com jeitinho, nunca permiti que essas coisas interferissem na minha amizade com a menina. Hoje ela está com 14 anos, mora conosco e eu adoro compartilhar com ela o meu dia a dia. Temos uma amizade sólida e construímos um amor verdadeiro de madrasta-enteada, que muitos pensam não existir”, conta ela.


6 dicas para mães e madrastas

- Madrasta é mais uma pessoa para dividir os cuidados com a criança: buscar na escola, levar ao balé, etc.

- Aceite a participação da madrasta. Seus filhos passam a ter outro modelo feminino e um outro modelo de relacionamento afetivo para se espelharem no futuro. E você terá com quem dividir as culpas que Freud colocou nos pais.

- Valorize o novo relacionamento de seu ex-marido. Se seu ex estiver bem casado e feliz, é provável que seja um pai até mais presente do que solteiro por aí.

- Lembre-se: você também pode virar madrasta! Portanto, tome cuidado para não tratar a madrasta de seu filho de uma maneira que não gostaria de ser tratada.

- Fique esperta: a madrasta também pode se tornar ex, principalmente se, ao invés de resolver os problemas de maneira inteligente, passar a brigar com a criança, com o pai e até com a ex dele.

- Lembre-se todos os dias de que o pai e a mãe que a criança tem são estes. Se você, madrasta, acha que eles fazem tudo errado, azar o deles!

- E o melhor de tudo: seu filho vai ter sempre mais uma pessoa para amá-lo. E amor nunca é demais nesta vida.

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