O pai como referência máxima no início da fase de socialização

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Nas telas ou nos quadrinhos, eles têm superpoderes, lutam pelo bem e geralmente possuem características que os diferenciam dos demais. Super-homem, Batman e Homem-Aranha são alguns dos super-heróis mais famosos da história, que sobrevivem ao tempo e povoam o imaginário coletivo, de geração em geração, com seus feitos fantásticos e habilidades acima da média. Já na vida real, eles são de carne-e-osso, passíveis de erros e repletos de limitações inerentes à condição humana. A figura paterna é constantemente associada ao mito do herói, afinal o pai é a referência máxima da criança na fase de socialização, que tem início, sobretudo, no período de ingresso escolar.

Nos primeiros anos de vida, a criança é mais ligada à mãe, tem com ela uma relação simbiótica, até pela questão da própria amamentação. Em seguida, quando está começando a criar seus primeiros laços sociais ¿ na escolinha, por exemplo -, a figura masculina passa a ser a principal referência, diz Carolina Nikaedo, psicóloga da Equipe de Diagnóstico e Atendimento Clínico (EDAC), de São Paulo, e professora da Faculdade de Psicologia da Universidade Nove de Julho (Uninove). Segundo ela, essa associação entre pai e herói tem relação com os primeiros contatos da criança com a imposição de limites.

Nessa faixa etária de 6, 7 anos, a criança é muito observadora, e sua habilidade cognitiva é mais fácil de ser explorada quando há uma vivência concreta. Por isso ocorre a reprodução de comportamentos, principalmente da figura masculina, explica ela. Por exemplo: se o pai grita muito em casa, com a esposa, provavelmente a criança também irá se expressar da mesma maneira com os coleguinhas. Ou, se o pai joga sua bituca de cigarro na rua, enquanto dirige, certamente o filho irá concluir que também pode jogar lixo no chão. O bom exemplo, neste período de formação, é de fundamental importância para a construção de conceitos e valores, ressalta a psicóloga.

Carolina também alerta para a questão da idealização, por parte da criança, com a figura paterna. O patamar do super-herói é muito alto. Por isso, os pais devem, também, mostrar suas limitações para os filhos. Caso contrário, por ter essa referência de perfeição, a criança vai ter dificuldades em lidar com suas próprias limitações, com seus próprios fracassos, salienta. Em outras palavras, quando percebe que o pai é humano, perdendo o jogo de futebol às vezes ou errando o caminho enquanto dirige para algum destino desconhecido, o filho acaba lidando melhor com seus próprios erros ou eventuais derrotas.

O professor Ricardo Fernando Pátaro, de 32 anos, conta que é comum ser repreendido pelo filho João Victor, de 6 ¿ principalmente nas questões ligadas ao trânsito. Ele é muito ligado às regras, e se por acaso atravesso um sinal vermelho ou saio sem colocar o cinto de segurança, João fica indignado, preocupado. Ele fala: Pai, como você fez isso? Não pode, está errado, narra Ricardo. Certa vez, ficou tão incomodado que chegou a contar para vários amiguinhos na escola sobre algum desses deslizes cotidianos. É dessa idealização que vem a cobrança de que o pai deve ser perfeito, tem que fazer tudo certo. Fico muito atento porque meu filho está realmente na fase de se espelhar em tudo o que faço. Ao mesmo tempo em que isso é muito gostoso, também requer muita responsabilidade, destaca.

De acordo com ele, como João ainda tem a visão polarizada entre bem e mal, típica das histórias dos super-heróis, caso veja o pai pisando na bola, rapidamente associa a ação ao mal. É justamente por isso que ele não admite ver qualquer falha. Peço desculpas e tento explicar o que aconteceu, até porque meu filho está na idade de querer saber sobre todas as coisas, o tempo todo, diz. Como pai e filho fazem diversas atividades juntos, como praticar esportes ou desenvolver atividades rotineiras como regar o jardim ou mesmo lavar a louça, Ricardo conta que o menino está sempre muito atento ao seu humor. Se estou preocupado ou mesmo chateado com algo, ele vem logo perguntar o que aconteceu, por que estou assim ou assado, afirma.

Apesar da relação de total cumplicidade, Ricardo diz que encara com naturalidade o fato de nem sempre ser capaz de corresponder a todas as expectativas do filho. Sei que se prometi que brincaríamos em determinado horário e acabo impedido por causa de um dia de muito trabalho, estou frustrando-o. Mas, ao mesmo tempo, acho importante que João comece a perceber que nem tudo na vida é exatamente do jeito que queremos, e que os heróis perfeitos só existem nos desenhos animados, pondera.

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