Xixi na cama é um problema psicológico?

As causas da enurese são basicamente fisiológicas, mas alguns fatores psicológicos podem influenciar no sucesso do tratamento da criança

Renata Losso, especial para o iG São Paulo |

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Xixi na cama: aspectos psicológicos podem ser consequência, não causa
Até os cinco anos, acordar os pais com os lençóis molhados é cena comum na vida das crianças. Mas se isso continua acontecendo – pelo menos duas vezes por semana, quando eles estão de um a dois anos mais velhos – já há motivo para preocupação. Nesta fase, fazer xixi na cama deixa de ser normal e passa a ser um problema chamado enurese infantil, que atinge de 15 a 20% das crianças . Para Edwiges Ferreira Silvares, criadora do Projeto Enurese , é consenso que a enurese é determinada principalmente por questões de ordem biológica.

Mesmo assim, alguns fatores psicológicos pesam na equação. Segundo a própria Edwiges, que também é professora titular do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP, em São Paulo, ter pais intolerantes ou impacientes com o problema é um deles. Para ela, o envolvimento dos pais é essencial para o sucesso do tratamento proposto pelo Projeto – o uso de um “tapete” com sensores de urina conectados a um alarme, que toca quando a criança faz xixi. A criança acorda e desliga o aparelho, e os pais devem ajudá-la na incumbência noturna de trocar lençóis e pijamas. “A participação da família é intensa”, diz. “A cura do problema é comportamental, que é o ‘alarme de cabeceira’. Mas ele depende dos pais. Se eles não estão motivados, dificilmente a criança consegue superar a enurese”, conta. Muitos pais preferem interromper o tratamento.

O xixi na cama voltou?

Embora os fatores biológicos sejam determinantes, ainda existem investigações em andamento para desvendar todas as pecinhas que fazem parte do quebra-cabeças da enurese infantil. “Ainda há caminhos a serem percorridos, como a dificuldade que uma criança possui para despertar quando faz xixi na cama. Pode existir um fator psicológico que ainda não foi descoberto”, diz Edwiges. Para Antonio Macedo Jr., chefe da Urologia Pediátrica da Unifesp , todas as explicações para a enurese primária são médicas – e não envolvem causas psicológicas. Mas, no caso da enurese secundária, o que se passa na cabeça da criança entra em cena.

A enurese secundária se dá quando a criança já foi capaz de controlar o xixi na cama por um mínimo de seis meses, mas volta ao problema depois deste período – ou de um período ainda maior. “Aí existe um componente psicológico. Por diferentes motivos, a criança pode estar querendo chamar a atenção”, afirma ele.

Para Abram Topczewski, autor do livro “Xixi na Cama Nunca Mais!” (Edições Inteligentes) e neurologista pediátrico da Clínica de Enurese e Distúrbios Miccionais na Infância , estes motivos podem ser desde passar por um assalto até o nascimento de um irmãozinho. “É uma causa que envolve fatores emocionais e faz com que a criança volte ao xixi na cama depois de já ter o controle perfeito do problema”, diz. Os lençóis molhados podem voltar à cena uma vez por semana ou uma vez por mês. Depende do quanto a criança estará sofrendo com aquilo que a está incomodando.

Caso isso aconteça, Abram Topczewski diz que o tratamento psicológico é pertinente. Mas somente nestes casos e, de preferência, aplicado junto a um tratamento fisiológico – para que haja a possibilidade de uma resposta mais rápida. “Quando estiver tudo bem novamente, a medicação pode ser abandonada”, afirma.

Falta de informação

O especialista ressalta a falta de informação de alguns pediatras sobre o problema. “Muitos dizem que a enurese primária tem causas emocionais e mandam para tratamento psicológico, ou dizem que é questão de tempo para que o problema passe”, explica. Por falta de orientação mais adequada, os pais acabam embarcando nessa. O melhor é procurar uma clínica especializada. Afinal, os aspectos psicológicos podem não ser a causa da enurese, mas sim suas consequências.

“A enurese primária interfere muito no emocional da criança, pelo problema que ela está vivendo”, afirma Topczewski. De fato: ela não pode dormir na casa dos amigos ou participar de um acampamento de férias, por ter medo de ficarem sabendo que ela faz xixi na cama. Edwiges vai além: “elas sentem ter um segredo que não pode ser revelado, então se isolam e sofrem por isso”. A criança fica abalada emocionalmente e isso pode acabar até mesmo repercutindo no aprendizado escolar. Portanto, embora Silvares ressalte que a probabilidade de uma criança superar o problema sem ajuda é de 15% ao ano, é mais indicado correr atrás do prejuízo antes que ele se torne algo ainda maior.

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