Prática envolve malabarismos com o bebê, tem pouco da filosofia de yoga tradicional e dificilmente apresenta benefícios que valham os riscos

Lena Fokina em cena do vídeo que levantou a polêmica:
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Lena Fokina em cena do vídeo que levantou a polêmica: "baby yoga" russa chocou mães ao redor do mundo
Quando as imagens da educadora física russa Lena Fokina segurando um bebê pelos pulsos e tornozelos e balançando-o para frente, para trás e por cima da própria cabeça – em movimentos parecidos ao de um malabarista – foram parar na internet, algumas mães ao redor do mundo ficaram horrorizadas, enquanto outras demoraram a acreditar que não se tratava de uma boneca. Mensagens de pais preocupados encheram as redes sociais e comentários raivosos se multiplicaram no Youtube, enquanto a imprensa internacional anunciava, para espanto geral, que o vídeo era verdadeiro (assista ao final da página) .

Segundo Fokina, a prática se baseia em um método utilizado por ela nos últimos 30 anos e benéfica para os pequenos –embora eles apareçam chorando em boa parte dos vídeos.


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De acordo com o site do jornal britânico Daily Mail, Fokina comenta que o método absolutamente não é perigoso. “A maioria das pessoas pensa que bebês podem somente ficar na cama, comer e chorar. Mas eles nascem com reflexos naturais que podemos usar para ajudá-los a se desenvolver física e intelectualmente”, diz. O ortopedista pediátrico Edilson Forlin, do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, desconfia. Ao ver o vídeo, achou difícil acreditar que fosse verdade. “Submeter um bebê a uma montanha russa de emoções e riscos de lesões graves não tem nenhuma vantagem”, comenta.

A prática, segundo Lena Fokina, foi desenvolvida pelo também russo Igor Charkovsky, parteiro e especialista em partos dentro da água, e recebe nomes como “Baby Dynamics” (Dinâmica para Bebês) ou “Extreme Developmental Gymnastics” (Exercícios Extremos de Desenvolvimento). Mas o mais comum é “baby yoga” – o que descontenta muitos profissionais da área. Para Marcos Rojo, professor de Yoga da USP e autor de livros como “O que é Yoga” (Editora Brasiliense) e “Estudos sobre Yoga” (Phorte Editora), não há razão alguma para a prática receber o nome. Marcos duvida que os exercícios promovidos por Lena produzam o efeito que o Yoga propõe, nem para a mãe, nem para a criança.

Nomenclatura inadequada

Por definição, Yoga significa um estado meditativo e bebês não têm ainda um grau de desenvolvimento da mente para alcançar esse estado através das técnicas. Ainda, como professor de Educação Física, Marcos Rojo diz que a prática de Lena Fokina é loucura. “É um método sem nenhuma comprovação de eficiência e pode possui muitos riscos de danos articulares”.

O também professor de Yoga Gerson D’Addio da Silva, especialista em diferentes técnicas corporais, concorda. “A prática pode sobrecarregar as estruturas articulares ainda frágeis dos bebês por não haver estudos dos impactos que as manobras podem causar ou mesmo pelo simples risco de acidente”. E não há qualquer fundamentação para qualificar a prática como Yoga, acrescenta o especialista.

O “baby yoga” de Fokina está mesmo longe de ser o yoga para bebês dos cursos brasileiros. De acordo com Katia Barga, instrutora de Yoga para gestantes e Baby Yoga de São Paulo, a estimulação do bebê durante a prática nacional acontece via toque e contato com a mãe, com leves alongamentos e massagens. Nada a ver com a forma de manipulação do bebê apresentada por Fokina, que ao ser intitulada ‘baby yoga’ confundiu a cabeça de muitas mães.

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Ainda assim, a professora de Yoga e fisioterapeuta Maria Neusa Lima Veríssimo, membro do Conselho Mundial da Federação Internacional de Yoga, vê na prática russa alguma aproximação com o Yoga – mas para a mãe. Ela deve desenvolver atenção e cuidado em cada movimento para a criança não sofrer nenhum acidente.

Ao ver o vídeo, Maria Neusa percebeu que o bebê se contrai a cada movimento, devido ao instinto de defesa. “Essa contração isométrica, junto ao estímulo da circulação sanguínea promovido pela profissional ao sacudir o bebê, pode resultar em um relaxamento intenso após a prática, o que leva a um alinhamento dos órgãos, músculos e ossos”. Essa afirmação, no entanto, é feita com a suposição de que haja uma preparação da criança antes de começar a rodopiar.

“Suponho que ela comece a realizar os exercícios com lentidão, antes de torná-los mais velozes”, comenta. Mas as semelhanças com o Yoga se limitam aí. “Provavelmente foi dado o nome de ‘baby yoga’ para chamar mais atenção”.

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Viva o movimento

Maria Neusa ressalta que o movimento não é necessariamente ruim para as crianças. Muitos pais brincam com os filhos balançando-os para lá e para cá, como quando colocam o bebê na perna e imitam um cavalinho. A criança se sente bem com o movimento do corpo”. As manobras realizadas por Fokina, no entanto, são contraindicadas.

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Para o ortopedista pediátrico Edilson Forlin, o bebê ainda não tem desenvolvimento muscular e interferir no desenvolvimento normal da criança pode ser perigoso. Aos três meses , por exemplo, ela começa a segurar o pescoço. Depois, passa a equilibrar o tronco e só por volta dos 10 meses começa a ficar em pé . “Isso depende do desenvolvimento do sistema nervoso e o estímulo que podemos fazer é esse do dia a dia, de brincar com ela, colocá-la sentadinha com os brinquedos”, diz.

De acordo com Lena, que realiza cursos e workshops sobre o assunto em países como Rússia, Índia e Egito, a prática foi originalmente desenvolvida para curar a saúde de crianças com problemas musculares ou esqueléticos, mas hoje em dia serve para crianças saudáveis. “Os movimentos (da baby yoga) são designados para melhorar as habilidades musculares e o desenvolvimento”, disse a russa ao Daily Mail. Com isso, a criança aprenderia a nadar com maior velocidade, por exemplo.

Segundo Edilson, os riscos de lesão cervical grave são grandes e não compensam o estímulo extra. “Não é necessária uma terapia para se desenvolver mais ou mais rapidamente. Quantos atletas de ponta existem que fizeram qualquer estímulo durante a infância? Quase nenhum. Eles até passaram por situações econômicas e sociais péssimas”, acrescenta o especialista.


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