Nem sempre o playground do prédio é suficiente: crianças que brincam em grandes espaços, com pais menos superprotetores, se desenvolvem melhor

Brincar ao ar livre: crianças precisam ir além do playground
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Brincar ao ar livre: crianças precisam ir além do playground
Embora hábeis com os novos aparelhos eletrônicos a ponto de guiar os pais no mundo dos gadgets, muitas crianças da geração Z perderam o contato com as brincadeiras ao ar livre. Quantos pequenos moradores dos grandes centros urbanos de hoje já subiram em uma árvore? Os valores sociais e parentais atuais podem ser entraves para deixar as crianças correrem descalças pela grama de vez em quando. E isso não é nada benéfico.

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Um recente estudo liderado pelo Dr. Pooja S. Tandon, do Instituto de Pesquisa do Hospital Infantil de Seattle, nos Estados Unidos, em parceria com Universidade de Washington, revelou que aproximadamente metade das crianças norte-americanas em fase pré-escolar não é levada diariamente para brincar fora de casa, ou ao menos para passear.

Alguns pais acham que o brincar ao ar livre é superestimado, mas de acordo com o site norte-americano "Science Daily", a Academia Americana de Pediatria recomenda que as crianças sejam encorajadas a brincar fora de casa o tanto quanto for possível. E por diversas razões.

A começar pela importância do estímulo da produção de vitamina D, ocasionado pelo contato com a luz solar. O médico Francisco Lembo, chefe de Pediatria do Hospital Samaritano, em São Paulo, indica aos pais levar as crianças para fora de casa diariamente, evitando os horários de pico do Sol. Ficar muito tempo em lugares fechados também aumenta as chances do surgimento de viroses e outras doenças. “Qualquer atividade ao ar livre é melhor do que ficar sentado diante da televisão ou enfiado com os brinquedos no quarto”, diz. Mas nem sempre o playground do condomínio é o suficiente.

“Transtorno do Déficit de Natureza”

O norte-americano Richard Louv que o diga. Autor de livros como “Last Child in the Woods” e co-fundador do Children and Nature Network, grupo norte-americano criado para encorajar pessoas e organizações a reconectar as crianças com a natureza, Louv cunhou o termo “Transtorno de Déficit de Natureza”.

Seu filho sofre do
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Seu filho sofre do "Trantorno do Déficit de Natureza"?


A denominação não serve como um diagnóstico médico, mas para constatar as melhorias que podem ser ocasionadas pelo contato infantil com a natureza. “As crianças são capazes de viver bem sem a natureza. Mas, com ela, podem ter benefícios marcantes no Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade , nas habilidades de aprendizagem, na criatividade e na saúde mental, psicológica e espiritual”, disse Louv ao site do jornal britânico The Guardian.

No Brasil, com a verticalização das cidades, ficou cada vez mais difícil ter um espaço para explorar à vontade. Hoje, em vez de dominar as ruas com partidas de futebol, brincadeiras tradicionais ou carrinhos de rolimã, o mais comum é ver as crianças em playgrounds e pequenas quadras de esportes. Lá elas fazem atividades importantes de serem vividas, mas de acordo com Ceres de Araújo, psicóloga e autora do livro “Pais que Educam” (Editora Gente), as crianças precisam de espaço. E quanto mais, melhor.

“Brincar no parquinho do prédio é válido e benéfico, mas não pode ser só isso”, concorda a diretora pedagógica do Instituto Sidarta, Claudia Siqueira. “A criança se apropria do mundo através do brincar e da experiência, e os espaços abertos dão maiores condições para potencializar essa questão”. O simples fato de poder pisar em texturas diferentes, como a terra ou a areia, amplia a experiência infantil de contato com o mundo. Mas, às vezes, mesmo que sobre espaço, falta liberdade. Aí é que entra a responsabilidade dos pais.

Mais autenticidade e menos superproteção

Na hora da brincadeira, a superproteção é um empecilho para o desenvolvimento psicossocial da criança. De acordo com a psicóloga Elizabeth Monteiro, autora do livro “Criando filhos em tempos difíceis – Atitudes e brincadeiras para uma criança feliz” (Editora Mercuryo), a mania de limpeza de muitos pais também atrapalha: “A criança que não pode andar descalça e não pode se sujar vai acabar crescendo com nojo da areia, da terra, com nojo do mundo”.

A primeira vantagem de dar um pouco de autonomia aos filhos pode ser simplesmente ter uma criança mais tranquila em casa. “Veja as crianças em um buffet infantil com um adulto pilhado para brincar o tempo todo: elas ficam histéricas”, diz Claudia. Claro que os pais devem se preocupar com a segurança das crianças, mas elas precisam brincar sozinhas. Além do mais, ir para casa com um joelho ralado não é o fim do mundo.

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