Estabelecer segurança nas relações familiares e planejar programas com os colegas são alguns dos passos para estimular seu filho a fazer amizades

Pais podem estimular brincadeiras com outras crianças, sem forçar a barra
Getty Images
Pais podem estimular brincadeiras com outras crianças, sem forçar a barra
Reencontrar os amiguinhos da escola é um dos motivos que podem deixar as crianças muito ansiosas para a volta às aulas, e não é para menos: ter amigos, de acordo com uma pesquisa da Universidade de Concórdia, no Canadá, diminui bastante as chances de uma criança sentir-se deprimida durante os anos escolares. Se as amizades perdurarem até a fase adulta , então, melhor ainda. Mas e se não for o caso? Se a criança demonstra ter muita dificuldade em fazer um amigo, pode ser que os pais devam interferir.

Segundo o site Psych Central , com o tempo, crianças mais isoladas do convívio com as outras apresentem níveis elevados de tristeza e sentimentos depressivos. A conclusão é de William M. Bukowski, professor de psicologia e autor do estudo canadense, que acompanhou 130 meninas e 101 meninos durante três anos – da 3ª à 5ª série. “A amizade promove a capacidade de superação e protege as crianças de interiorizarem problemas como a ansiedade ou depressão”, disse também ao site. Neste caso, os mais tímidos e reservados podem ficar para trás . Mas não são somente estas características que podem tornar uma criança mais isolada das outras.

Para a psicóloga Maria Dirce Benedito, do setor de Pediatria da Unifesp, o problema também pode ser insegurança. Quando a criança nasce, ela tece sua rede de relações sociais a partir da família: primeiro com a mãe, estendendo-se para o pai e, depois, ampliando para os outros familiares. “Se a criança não passa por essas fases de desenvolvimento social ou se tem dificuldade com essas relações, é possível que ela precise de ajuda. E os pais podem observar e perceber este problema desde os primeiros anos de vida do filho”, diz.

Insegurança x curiosidade

As crianças são curiosas por essência. Quando os pais a levam para brincar em um parque, por exemplo, ela quer experimentar e conhecer este mundo. Se ela fica muito retraída, não interage e não sai de perto da mãe, é possível que algo esteja errado. E surge a questão naturalmente: por que ela não se solta? Segundo Maria Dirce, a ligação com os pais é essencial: a partir dela, se constroem as condições para o desenvolvimento de outras relações. Se esta relação primeva não estiver bem ajustada, a criança pode ficar insegura em todos os outros relacionamentos que estabelecer.

“Ao entrar na escola, essa criança acredita que não vai ser bem recebida, então ela se retrai e o processo de socialização fica defasado”, afirma a especialista. Assim, ela pode não fazer amizades como um processo de defesa, já que tem receio de ser rejeitada. O brincar também contribui bastante para o processo de socialização ( entenda a importância de brincar ) e ajuda a diagnosticar se há algo de errado. “Muitas crianças têm o quarto cheio de brinquedos e brincam sempre sozinhas. Quando ela é colocada num meio social, num espaço livre em que ela possa brincar com os outros, ela fica bloqueada”, diz Maria Dirce.

Mãe, posso brincar sozinho?

“Brincar dá oportunidades para fortalecer laços afetivos e inclui a questão da troca, em que a criança divide o brinquedo, as atividades, adquire normas e valores”, explica. Brincar sempre sozinha, portanto, pode reforçar o egocentrismo infantil e revelar o medo que a criança sente de novas relações. O computador também influencia: ela pode dominar a tecnologia com facilidade, mas evitar o contato com os outros por sentir-se insegura em não saber lidar com a socialização – diferente da relação segura que ela já tem com o computador, por exemplo.

Cláudia Cristina de Siqueira, diretora do Colégio Sidarta, em Cotia, SP, acredita que vivemos numa sociedade com mais espaço para o individualismo, e as crianças que têm o quarto equipado com videogame, televisão e computador ficam mais confortáveis para evitar as relações sociais. “É uma nova geração e é preciso construir um novo repertório de relacionamento”, diz. Para isso, é necessária a ampliação do convívio com os outros e o estabelecimento de laços afetivos – o que pode acontecer também na escola, o segundo núcleo social da criança.

Seguindo o exemplo

“É na escola que a criança viverá situações mais reais de convívio”, afirma Claudia. O colégio é um espaço muito fértil para que as crianças desenvolvam amizades e as famílias podem e devem alimentar essa possibilidade. Levar o filho com os amigos para um dia no parque ou chamá-los para uma noite do pijama são algumas ideias para os pais ajudarem na construção de vínculos ( leia como receber os amigos do seu filho em casa ).

O essencial, segundo Maria Dirce, é passar confiança para que a criança se sinta segura no ambiente escolar. Respeitar o ritmo dela também é necessário. E se, apesar do seu apoio, for muito difícil ver seu filho fazendo amizades, é recomendável procurar ajuda profissional.

Crianças aprendem por observação: vendo como os adultos agem em situações sociais, ela vai desenvolvendo o próprio repertório. “Os pais que não se encontram nunca com amigos não estão desenhando esse modelo para o filho”, explica Claudia. Os pais que valorizam as relações pessoais, portanto, irão mostrar que o filho pode e deve fazer o mesmo. Mas não podemos esquecer que cada criança é diferente da outra.

“É preciso entender o quanto aquele comportamento já é do perfil da criança e o quanto é dificuldade de relacionamento”, diz Claudia. Nessa tarefa, a escola também deve estar atenta e ao lado dos pais: aquela criança está sempre sozinha? Com quem ela anda? Ela é convidada para ir à casa dos outros colegas? Ela costuma estudar com alguém? Quando monta grupos, o que acontece? “Estas são questões importantes para se entender a criança”, conclui.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.