Todos devem ficar atentos nas primeiras semanas de aula. Especialistas dão dicas para alunos e responsáveis

Todos os anos, infelizmente, há casos de calouros expostos a constrangimentos, lesão corporal e até cárcere privado nas primeiras semanas de aula. O rito de passagem e as comemorações de ingresso à Universidade tornam-se algo violento e perigoso.

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Entre os muitos casos noticiados nos últimos anos, a morte de Edison Tsung Chi Hsueh, em 1999, ao ingressar na Faculdade de Medicina da USP, foi um dos mais chocantes. O calouro foi encontrado morto na piscina da Universidade, após um trote promovido pelos veteranos. O caso teve grande repercussão e gerou a criação da Resolução 06/2003 da Câmara Municipal de São Paulo, com o objetivo de premiar entidades estudantis que incentivem as atividades sociais na integração entre calouros e veteranos.

Também foi aprovado na Câmara um projeto de lei do deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) que impõe sanções aos veteranos que praticarem trotes violentos, como multa de até R$ 20 mil e suspensão de matrícula acadêmica. A ideia também é fazer com que as Universidades combatam o trote violento, criando medidas que estimulem o "trote solidário".

Mesmo com estas medidas, as tragédias com estudantes ainda acontecem no início do ano letivo. No dia primeiro de fevereiro de 2010, em Fernandópolis, a 553 quilômetros de São Paulo, um estudante recém-chegado na faculdade de Veterinária da Unicastelo foi obrigado a ingerir álcool combustível e sofreu lesões pelo corpo.

Quando a festa acaba em tragédia

Mas por que, afinal, a alegria de ter o ingresso garantido em uma Universidade muitas vezes vira um pesadelo? Para David Levisky, psicanalista e ex-vice-presidente do Instituto São Paulo contra a Violência, a sociedade atual é muito permissiva e isso facilita a transgressão, já que os jovens veem um mundo relativamente impune entre os adultos.

“Ultrapassado o limiar do constrangimento aceitável, o ritual descamba para um fenômeno de massa. O jovem se sente poderoso e se deixa levar por um estado mental em que ele não é mais o sujeito responsável pelos seus atos, apesar de saber o que faz e ter espírito crítico. E aí acontece o excesso”, explica.

Para Paulo Endo, psicanalista e professor Doutor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), as causas podem estar relacionadas a uma realidade muito competitiva como a do vestibular. “O jovem pode associar esta competição ao que ele percebe como correto entre os adultos, onde uns passam os outros para trás para ter um lugar de destaque”, explica. Na hierarquia do competidor, o veterano quer mostrar-se melhor e mais forte do que o recém-chegado à Universidade. Isso pode desencadear a lógica degradante e humilhante do trote”, completa Endo.

Sem ainda fazer parte de um grupo, o calouro tem poucas escolhas. Se ele não concordar em passar pela situação escolhida pelos veteranos, pode sofrer rejeição do grupo. “Poderia ter outra escolha, algo que acrescentasse para o aluno e ajudasse mesmo na interação”, finaliza Endo.

Semana do calouro

Até que ponto as Universidades se responsabilizam pelos trotes? A cada ano, felizmente, elas têm tomado certas precauções para evitar que a felicidade e euforia virem caso de polícia. “O melhor a fazer é planejarmos as atividades de forma controlada para diminuirmos qualquer risco”, diz o diretor-acadêmico de Graduação da ESPM, em São Paulo, Alexandre Gracioso.

“E se o conselho for para os pais, o melhor é dizer aos filhos para não fazerem nada que não queiram”, complementa o presidente do Fórum de Vice-Diretores da Unesp, Vanildo Luiz Del Bianchi, que tem uma conversa anual com os presidentes dos diretórios acadêmicos para propor uma recepção alegre aos novatos. “Afinal, os trotes saudáveis não são ilegais, fazem parte da festa. Eles podem ter um caráter solidário e de real integração”, reforça Cecília Horta, assessora Acadêmica da Associação Brasileira Mantenedora do Ensino Superior (ABMES).

Para Gustavo Balduino, secretário Executivo da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), em geral, os problemas surgem às escondidas dos olhos da instituição por minorias de alunos fora do campus. E é complicado controlar esses pequenos grupos. Segundo o delegado Ailton Canato, o policiamento deve ser ostensivo nas áreas ao redor das Universidades na primeira e segunda semanas de aula.

A boa notícia é que o "trote solidário" e o "trote ecológico", com ações que beneficiam algum setor da sociedade, têm sido cada vez mais divulgados pelas instituições, que também fazem campanhas pelo tratamento respeitoso aos calouros. Veja a seguir as dicas dos especialistas para alunos e pais minimizarem possíveis riscos com trotes:

Como encarar os trotes

- O calouro deve tentar manter o espírito esportivo. O trote é um rito de passagem, presente em vários países do mundo, e pode ser encarado como uma brincadeira saudável se não agredir o físico ou a moral do aluno.

- Se o novato não quer mesmo participar de nenhuma brincadeira, o mais recomendável é ele faltar às aulas nas duas primeiras semanas, período em que costumam ocorrer os trotes e comemorações.

- Ter uma atitude humilde perante os veteranos, ajudando no que for possível em brincadeiras saudáveis, ajuda a firmar novas amizades.

- Optar por festas e comemorações dentro da Instituição. Os trotes, atualmente, são bem mais controlados pelo corpo de direção do ensino.

- Se informar se na sua faculdade há o "trote solidário". Nestes casos, levar um quilo de alimento não perecível ou topar doar sangue em um hospital pode livrar o calouro de brincadeiras mais sem graças.

- O aluno novo pode ir vestido com a camiseta ou boné da instituição. Assim, ele pode passar despercebido pelos veteranos.

- Entrar em contato com as comunidades estudantis pode ser uma boa alternativa para quem quer ser protegido pelos veteranos.

Como os pais podem ajudar

- No dia da matrícula, vale conversar com a direção do curso para saber qual é o tipo de trote que costuma ocorrer na instituição.

- Encorajar o jovem a participar da brincadeira e ter espírito esportivo, desde que a ação dos veteranos não seja agressiva ou constrangedora.

- Reforçar ao aluno novato que ele deve chamar a polícia ou avisar os pais pelo celular, caso esteja sofrendo agressões morais ou físicas.

- Informe-se sobre trotes no site Antitrote .

- Unicamp e Unesp divulgam canal para denúncia de trotes.

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