Supermodelo mirim levanta discussão sobre exposição infantil

Para pesquisadora, fotos da modelo francesa de 10 anos de idade que posa como adulta representam "pedofilização da sociedade"

Camila de Lira, iG São Paulo |

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Thylane Blondeau em ensaio recente: fotos foram consideradas sensuais demais para uma menina de 10 anos
Filha de uma modelo com um jogador de futebol, Thylane Blondeau está com tudo. Fez fotos sensuais num editorial da Vogue francesa assinado por Tom Ford. Sua página de fãs no Facebook chegou a reunir 5 mil pessoas. Ela está no caminho do sucesso para se tornar uma das modelos mais famosas do mundo. A única ressalva é que Thylane tem apenas 10 anos de idade.

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Se pensarmos no mundo da moda, Thylane não é tão mais nova que Gisele Bündchen no começo de sua carreira, aos 14. “Há algum tempo, as meninas começavam muito novas. Com 13 ou 14 anos já eram top models, viajavam pelo mundo. Hoje em dia, o mercado vem abolindo esta prática. No final das contas, são crianças para trabalhar”, diz Marcos Lacerda, que cuida das new faces – ou modelos novatas – da agência Ford Models.

Mas as fotos da pequena supermodelo feitas para a Vogue francesa em janeiro, exibidas novamente na TV norte-americana no início do mês, refletem algo muito além do trabalho infantil. “A expressão da sexualidade parece ser uma obrigação para as mulheres hoje em dia, e, consequentemente, é também para as meninas. A idealização de beleza e juventude afeta também as crianças, que não querem mais ser tão crianças assim”, comenta a professora de psicologia e pesquisadora do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Jane Felipe de Souza.

“Crianças mais novas estão agindo e fazendo coisas de crianças mais velhas. Parece que o tempo está correndo cada vez mais rápido para elas”, diz a psicóloga norte-americana Diane Levin, autora do livro “A Infância Perdida” (Editora Gente). Isso é perigoso, afirma ela, pois crianças menores não têm tantos recursos lógicos para compreender situações típicas de outra faixa etária. Ou seja, uma menina de 14 anos pode entender o que significa ter um namorado, enquanto uma menina de oito dificilmente está preparada para lidar com isso.

“A juventude se tornou o principal valor da cultura ocidental, não necessariamente sexualização”, pondera a antropóloga Mirian Goldenberg.

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Thylane em foto do ensaio mais recente
“Pedofilização” da sociedade


Crescer com uma imagem idealizada de beleza e de sedução é o principal problema. “Meninas de cinco anos estão aprendendo a tratar a si mesmas como objetos. E começam a julgar as outras por esse mesmo parâmetro”, relata a autora norte-americana. Além do que representa para as crianças, este tipo de imagem mostra um pouco mais sobre a sociedade na qual elas vivem. “Quando se coloca o corpo infantil como corpo desejável, o que estamos querendo com isso? Nesse sentido, estamos nos tornando uma sociedade pedófila. Estamos construindo um olhar pedófilo em cima das crianças, principalmente das meninas”, diz Jane Felipe.

Na contramão do ocorrido no ensaio de Thylane Blondeau, tem-se também o uso de brinquedos e artigos do mundo infantil em ensaios eróticos, como lembra Jane. Co-autora de “A Infância Perdida”, Jean Kilbourne concorda com Jane. “Estamos criando um clima que normaliza a pedofilia e que coloca nossas crianças em perigo”, acredita. “As meninas querem se parecer com adultas e as adultas, cada vez mais, querem se parecer com meninas”, analisa Diane.

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Está nos olhos de quem?

Para Mirian Goldenberg, devido à grande importância conquistada pelo sexo nos dias de hoje, a sexualização pode estar nos olhos de quem vê. “A criança está exposta a todos os olhares, inclusive aos perigosos. Não é a foto em si que é sexualizada, nem a intenção da mãe ou do fotógrafo, mas o olhar do outro. O medo e a perversidade do outro”, afirma Mirian.

Mas segundo Lais Fontenelle, coordenadora de Educação do Projeto Criança e Consumo do Instituto Alana, o olhar pode ser perigoso. “A criança não está desenvolvida em todas as áreas, todos os comportamentos. Quando se expõe desse jeito, não está preparada para receber o retorno, receber este olhar”.

Reprodução/Vogue
Thylane nas páginas da Vogue: editorial chocante voltou à tona com divulgação de novas fotos da modelo
Consumo tem tudo a ver


Outra face escondida nas fotos de Thylane – e no uso de qualquer criança como modelo de publicidade – é a exploração cada vez maior das crianças como mercado consumidor. “As mensagens de consumo não diferenciam a idade. Cada vez mais, o mundo adulto foi se misturando ao infantil”, comenta Laís Fontenelle.

“As crianças crescem com a ideia de se sentir bem porque compraram algo bom, e não porque fizeram algo bom”, compara Diane Levin. No entanto, Mirian Goldenberg alerta para o papel limitado da publicidade, que deve ser regulamentada pela sociedade. “A publicidade reflete o que é valorizado. Ela procura entender a cultura em que se vive”, comenta a antropóloga.

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E os pais?

Ao perceber que as fotos de Thylane tinham causado tanto impacto na rede, sua mãe, a modelo francesa Veronika Loubry, reagiu de maneira chocada. Fechou a página do Facebook dedicada à menina com o seguinte recado: “Thylane não sabe sobre nada disso [referindo-se à polêmica] e eu quero protegê-la. Ela é tão nova! Por isso, resolvemos fechar esta página”.

De acordo com as autoras de “Infância perdida”, Diane Levin e Jean Kilbourne, uma das principais maneiras de se proteger as crianças é manter o espaço aberto para a comunicação com elas. “Pais não deveriam comprar roupas sensuais para suas filhas e deveriam elogiá-las por qualidades que não somente as suas belezas”, diz Jean.

A força do exemplo também é indiscutível. “Eles podem escolher ser menos materialistas. E conversar com as crianças sobre as mensagens recebidas pela publicidade, pois elas entendem”, diz Lais Fontenele. “A partir do momento em que os pais deixam de colocar todos os valores da vida de seus filhos só na beleza e no exterior, e passam a colocá-los em uma série de compromissos internos e competências, já estão fazendo uma grande diferença”, finaliza Jane Felipe.

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