Problema altera crescimento e desenvolvimento das crianças silenciosamente e pode ser enfrentado com alimentação adequada

Os hábitos alimentares são formados desde cedo e, por isso, cabe aos pais e aos educadores a função de estimular e incentivar a criança a comer um pouco de tudo
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Os hábitos alimentares são formados desde cedo e, por isso, cabe aos pais e aos educadores a função de estimular e incentivar a criança a comer um pouco de tudo
A fome oculta é caracterizada pela falta de micronutrientes ou deficiência de vitaminas e sais minerais. É um problema silencioso que pode aparecer mesmo onde não há escassez de alimentos. Nas crianças, é extremamente prejudicial, pois afeta o crescimento, compromete o desenvolvimento cognitivo e a resistência a infecções.

Segundo Tatiana Pires, Doutora em Ciência dos Alimentos e assessora da Abiad (Associação Brasileira de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres) mais de dois bilhões de pessoas no mundo sofrem de falta de nutrientes ou apresentam dieta com deficiência de vitaminas e minerais. “Isso traz drásticas consequências à saúde, especialmente em mulheres grávidas e em crianças”, alerta.

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As vitaminas e minerais são fundamentais para a manutenção e desenvolvimento de cada célula do corpo humano e para seu funcionamento adequado. Quando falta na alimentação diária um ou mais nutrientes, ocorrem modificações internas no organismo. Se essa falta se prolonga, a reserva orgânica do nutriente vai declinando e leva ao aparecimento de sinais físicos.

Diagnóstico difícil
É difícil diagnosticar a fome oculta porque não aparece em exames de rotina e geralmente só é percebida quando seus sintomas já estão instalados. Pele ressecada, unhas fracas, cabelos quebradiços, cansaço, irritabilidade, insônia, dificuldade de concentração e apatia, são alguns dos sintomas.

Ligia Silva diz que só percebeu que a filha Andressa, 7, tinha deficiência de vitamina A quando a menina já estava com problemas de visão. “Foi um choque. Jamais imaginei que a dieta dela tivesse problema. Nunca faltou comida na minha casa” diz a dona de casa.

“Não se pode deixar chegar ao limite, pois a fome oculta pode afetar também a memória, capacidade de aprendizado e resolução de problemas e levar a criança à anemia”, alerta o professor Mauro Fisberg, pediatra e nutrólogo do departamento de pediatria da Universidade Federal de São Paulo.

Outras conseqüências só vão ser percebidas mais adiante, já na idade adulta, como a osteoporose por falta de cálcio, sol e exercícios.

Combate à fome oculta começa antes do nascimento da criança, com um pré-natal adequado e alimentação balanceada da gestante
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Combate à fome oculta começa antes do nascimento da criança, com um pré-natal adequado e alimentação balanceada da gestante
Prevenção
Para evitar o surgimento da fome oculta a alimentação deve ser balanceada, variada e feita nas horas e quantidades adequadas para cada etapa da vida.

Muitas crianças quando crescem e começam a frequentar a escola, passam a ficar seletivas. Deixam as frutas, verduras e legumes de lado e passam a comer só alguns tipos de alimentos como lanches, batata frita, pão e macarrão, que têm baixa densidade de micronutrientes.

“O hábito de comer apenas alguns tipos de alimentos aliado ao consumo irregular, sem horário definido para a refeição, são as principais causas de fome oculta em adolescentes. O problema pode impactar o sistema imunológico, além de afetar o crescimento e desenvolvimento motor e capacidade mental”, explica Tatiana Pires, da Abiad.

Os hábitos alimentares são formados desde cedo e, por isso, cabe aos pais e aos educadores a função de estimular e incentivar a criança a experimentar de tudo logo após o desmame. As nutricionistas Camila N. Negrão e Daniela Franciscatto Lisboa, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, esclarecem que a fome oculta pode ocorrer mesmo em mesas fartas em quantidade de comida, mas pobres na qualidade e diversidade.

O tratamento é a prevenção. Os pediatras costumam estudar a alimentação da pessoa para ver se ela corre perigo de ter alguma carência alimentar. “Se a criança não come feijão, por exemplo, vou avaliar o risco de ela estar com deficiência de ferro. Mesmo não estando anêmica, vou ver se ela tem a possibilidade de ter o problema no futuro”, explica Mauro.

Avaliada e detectada a falta de algum nutriente, a alimentação é então rearranjada. Se for o caso, suplementos alimentares são indicados. Dependendo do nutriente, para chegar aos níveis adequados pode se levar meses ou até anos.

É preciso investir em educação alimentar e cuidar para que a falta seja percebida antes que suas consequências estejam instaladas. “Agora, somos bem linha dura com a Andressa. Ela só pode comer pizza se já tiver ingerido a cota de frutas e legumes do dia”, diz Ligia Silva.

O que não deve faltar nas refeições
Os cereais são fonte importante de energia. As carnes – vermelhas e brancas - fornecem vitamina A, ferro e zinco, este último, conhecido como regulador das funções da hipófise e ativador do metabolismo humano.

Já as frutas, verduras e legumes, são fundamentais em uma dieta balanceada. São fonte de vitaminas e sais minerais. Frutas cítricas como laranja e limão, vegetais verdes escuros como brócolis, espinafre e couve-de-bruxelas além de morango, manga e goiaba, são ricos em vitamina C, que fortalece o sistema imunológico, combate gripes, resfriados, alergias e os radicais livres. Vegetais de cor amarelada como cenoura, tomate e abóbora, têm vitamina A.

Tatiana Pires frisa a importância de garantir o consumo diário das doses recomendadas de micronutrientes essenciais. As crianças e adolescentes devem consumir quantidades adequadas de vitamina A, C, D, do complexo B, assim como cálcio, iodo, ferro, zinco.

Mas nem sempre isso é o que acontece. Se as refeições não estão sendo feitas com regularidade – algumas crianças pulam o almoço ou jantar e os substituem por punhados de doce - pode-se garantir a dose certa de micronutrientes através da suplementação com complexos vitamínicos e também alimentos e bebidas fortificadas.

O pediatra Mauro Fisberg conta que o combate à fome oculta começa antes do nascimento da criança, com um pré-natal adequado e alimentação balanceada da gestante. Nessa fase, lança-se mão de alguns suplementos como o ácido fólico, para prevenir as más-formações do sistema nervoso central, e o ferro, para evitar que o feto tenha anemia.

“Durante os dois primeiros anos de vida os pediatras costumam dar suplementação de ferro, e no primeiro ano, de vitamina A, preventivamente”, conta Mauro Fisberg. Mas nutricionistas e médicos concordam que a melhor forma de combater a fome oculta é ensinando as crianças a se alimentarem de forma saudável, com variedade abundante de nutrientes, desde cedo.

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