Passar alguns dias em um acampamento pode ser um grande aprendizado. Mas nem todas as crianças estão prontas para cortar o cordão umbilical

Gabriel: insistência e preparação da mãe para dormir fora
Bruno Zanardo/Fotoarena
Gabriel: insistência e preparação da mãe para dormir fora
Gabriel, 5 anos, mal podia ouvir falar em dormir longe dos pais. Até para ficar algumas horas com o avô era aquela choradeira. Mas a mãe, Gisele Zoghaib, conversou bastante com o menino e conseguiu que ele passasse uma noite na escola, no que eles chamam de “acantonamento”. “Ele chorou um pouco quando o levei, mas depois parou e adorou a experiência”, conta a professora. Desde pequeno, Gabriel é apegado aos pais. Prefere ficar o final de semana inteiro com eles do que ir brincar por algumas horas com um primo, por exemplo. “Acho importante para seu desenvolvimento que ele seja mais independente. Por isso, com a ajuda da escola, aos poucos estou conseguindo que ele fique sem a gente”.

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A psicóloga Mara Fávero concorda. “A criança precisa ter a oportunidade de desenvolver sua autonomia, cooperação e relações de parceria. Ela terá desafios diferentes a enfrentar, longe de sua zona de conforto”. Por isso, um período de férias em um acampamento ou colônia de férias é fundamental.

Mas não são só os filhos que se sentem dependentes. Muitos pais também ficam perdidos quando não têm as crianças por perto. “A partir do nascimento dos filhos, muitas vezes a vida dos pais passa a girar em torno das crianças e o namoro, que é fundamental para a relação, é esquecido. O período do acampamento é momento de retomar o cinema, o teatro, um jantar romântico, um passeio a dois. Deve ser um treino para continuar quando a criança voltar pra casa”, sugere Mara.

Algumas crianças ficam até doentes ao pensar em ficar longe da mãe e do pai. É assim com Luciana, de 10 anos. A mãe, Leovir da Silva, tentou voltar a trabalhar depois do nascimento da menina diversas vezes, mas Luciana sempre tinha febre ao saber que ficaria sem ela. “Esperei ela fazer 10 anos e fui trabalhar. Ela ficou doente, chorou, mas depois teve de se acostumar”. Ainda assim, Leovir precisa levar a filha pra escola todos os dias e buscá-la. “Se eu não estiver lá na saída, ela acha que vou abandoná-la”. Dormir fora, então, nem pensar! “Ela até me sufoca às vezes, pois não posso fazer nada sem minha filha. Adoraria que ela ficasse alguns dias das férias sem mim”.

Preparação

Nesses casos, não tem como forçar. Os próprios acampamentos e colônias recomendam que a vontade venha da criança. “Se ela não quiser e estiver insegura, forçar é um risco muito grande de criar traumas. O ideal é preparar a criança para tudo o que ela vai encontrar no passeio, inclusive as possíveis frustrações, como as regras e os horários que ela deverá seguir”, explica o diretor do NR Acampamentos e presidente da ABAE (Associação Brasileira de Acampamentos Educativos), Marco Antonio Vivolo.

Não existe uma idade certa para mandar o pequeno às férias independentes pela primeira vez. Isso depende do grau de autonomia da criança, já que não existe um cuidador para cada, mas sim um por grupo. Esta autonomia pode existir já em um pimpolho de quatro anos ou demorar até os seis pra se desenvolver.

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Se, por um lado, obrigá-los a encarar a viagem por conta está fora de cogitação, por outro, o estímulo é extremamente bem-vindo. Uma forma de iniciar este aprendizado de ficar longe dos pais é deixar que a criança passe períodos de tempos em tempos na casa de familiares, depois que durma fora de casa. Isso vai dando segurança à criança.

“O próximo passo é mandar o pequeno para acampamentos ou colônias de um ou dois dias. Pais e professores devem esmiuçar como a experiência será gostosa”, sugere Mara. Se você passou por isso quando criança, conte como se divertiu e fez amigos. Leve seu filho para conhecer o lugar e os monitores, antes do dia de deixá-lo. “As crianças confiam nos pais. Conte toda a verdade e nunca faça chantagem pra elas toparem ir para o acampamento”, diz Marco Antonio.

Pedir pra voltar

Depois de deixar o pequeno cheio de vontade de viajar, se ele exigir uma promessa de que você vai buscá-lo caso ele não goste, prometa. Só não seja a pessoa a sugerir esta possibilidade. Afinal, a ideia é exatamente que ele enfrente os desafios e resolva os problemas sem recorrer aos pais. “Se a criança pedir pra voltar, respeite sua vontade, sem broncas e castigos. Deve-se ouvir seus sentimentos e sensações e demonstrar que não tem problema algum em ficar amedrontado”, recomenda Mara.

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