Quatro perguntas para saber se o sono dele é suficiente em qualidade e quantidade – e, se não for, porque você deve tratar do problema

Dificuldade para despertar são um dos indícios dos distúrbios de sono
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Dificuldade para despertar são um dos indícios dos distúrbios de sono
Distúrbios do sono têm um alto preço para a saúde e para o bem-estar. Segundo o neurofisiologista Flávio Alóe, Coordenador do Laboratório do Sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, estes transtornos ocorrem com mais frequência durante a infância do que na adolescência ou na idade adulta. 1 a 6% das crianças são afetadas pelo terror noturno, enquanto aproximadamente 17% são sonâmbulas – com maior índice na faixa dos oito aos 12 anos.

O sono é essencial para o amadurecimento do sistema nervoso central (SNC), responsável também pelo desenvolvimento neuropsicomotor – que ajuda a criança no engatinhar, por exemplo. Qualquer problema que afete o organismo e se relacione com o SNC vai afetar o sono. Situações de estresse também são motivo para transtornos do despertar, como sonambulismo e terror noturno – distúrbio caracterizado por gritos de pavor durante o sono e despertar sem lembrança do ocorrido.

Mas não são somente estes problemas que podem afetar as crianças na hora de dormir, do nascimento à adolescência.

Para Magda Lahorgue Nunes, Coordenadora do Grupo de Estudos do Sono da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e Professora Adjunta de Neurologia da PUC – RS, em Porto Alegre, a insônia, problemas respiratórios como a apneia do sono, o despertar confusional e a enurese infantil – que não é considerada normal após os cinco anos de idade – são alguns dos transtornos que podem habitar a madrugada. Além disso, segundo ela, existem também os distúrbios do sono secundários, que provêm de doenças como asma, doenças neuromusculares e epilepsia.

Para perceber indícios de distúrbios de sono em seu filho, a mãe deve se fazer quatro perguntas: ele tem dificuldades para pegar no sono? Ele acorda durante a noite? Ele para de respirar enquanto dorme? Ele tem dificuldades para despertar? Se você responder “sim” a mais de uma com frequencia, pode estar lidando com um problema crônico, que deve ser tratado. Afinal, as consequências podem ser muitas – como até mesmo o déficit de crescimento.

Ele nasceu assim?

Embora possa parecer estranho, Flávio explica que, na maioria dos casos, os distúrbios primários ocorrem durante a fase do amadurecimento do sistema nervoso central e costumam desaparecer depois dos 13 anos de idade. Porém, o ambiente e as relações familiares podem mudar esse curso. “É preciso estar atento aos hábitos e à sincronia da família”, explica. Não é adequado, por exemplo, os filhos terem a rotina do sono alterada quando os pais acabam voltando mais tarde para casa do trabalho.

Rotina é a palavra-chave . Por isso, os pais devem refletir sobre as manifestações comportamentais no início da vida da criança e tomar cuidado com condicionamentos negativos: “os pais menos experientes podem achar lindo se o filho só dorme no colo, com a chupeta, com cantigas de ninar, com a mamadeira, ou se ele acorda no meio da noite para dormir na cama dos pais. Mas estas atitudes terão consequências psicológicas. A última, por exemplo, é tão ruim quanto usar chupeta quando já passou da idade”.

Está na hora de dormir


A psicopedagoga Raquel Caruso, Coordenadora da Equipe de Diagnóstico e Atendimento Clínico (EDAC), em São Paulo, lembra que o tempo de sono das crianças muda de acordo com a idade , mas observá-los durante as horas em que estão dormindo é uma das principais atitudes para começar a descobrir se há ou não algum problema com o sono. “Se ela dorme e respira com a boca aberta, ou se está roncando, já podemos notar que a qualidade do sono pode não estar muito boa”, explica. Parecem meros detalhes, mas são indícios como este que podem revelar um problema capaz de criar outros: um distúrbio do sono, por exemplo, pode levar a criança a ter dificuldades na escola, por não ter tido o descanso adequado.

O que ela vive durante o dia também pode ter influência na qualidade da noite. “Se ela ficou muito tempo na frente da televisão ou no computador, se brigou com o irmãozinho, se o pai estava muito irritado quando chegou do trabalho: são acontecimentos que podem deixá-la irritada, impossibilitando uma noite tranquila de sono e criando a possibilidade da criança falar enquanto dorme, por exemplo”, explica. Mas é preciso notar a frequência dos acontecimentos durante o período de sono e observar o padrão de sono da criança. “Os pais devem prestar atenção quando o padrão muda e, assim, procurar descobrir o que está errado com um especialista”, diz Alóe.

Sono x escola

“Ela pode ter prejuízo no rendimento da atividade intelectual e, a longo prazo, a diminuição da capacidade de aprendizado”, adverte Flávio. Qualquer problema que afete tanto a quantidade como a qualidade do sono diminui a capacidade da criança de manter o foco de atenção, de dar respostas motoras e de resolução de problemas. “A criança de nove anos que estiver com privação de sono ficará inquieta e distraída na sala de aula”, afirma.

Segundo o especialista, o cérebro dela estará usando seus recursos para se manter alerta, e não para o aprendizado. Com estes prejuízos, pode iniciar-se um ciclo de fatos infelizes, como a queda da autoestima da criança por ela não ter sucesso na escola.

Adolescência virtual

Na chegada à adolescência, problemas como a enurese e o sonambulismo podem ter ficado no passado, mas outro problema bem atual que pode vir a existir: o transtorno do atraso da fase de sono (TAFS). “É quando o relógio biológico funciona mais tarde, então o adolescente vai dormir só de madrugada e durante a manhã ficará fora de fuso”, explica Alóe. E o que contribui para o problema? Uso excessivo de internet, telefone e televisão, o que também pode levar ao insucesso do desenvolvimento do adolescente.

Em todos os casos, a solução para os problemas começa no reconhecimento deles. E nada como a observação atenta do seu filho para detectá-los.

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