Reeducação do períneo é assunto de saúde pública na França. Você conhece as vantagens da prática para gestantes?

Mulheres têm dificuldades para controlar a musculatura pélvica
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Mulheres têm dificuldades para controlar a musculatura pélvica
A brasileira Maísa Mendes, 30, nunca tinha ouvido falar em reeducação do períneo até ter sua primeira filha, Bianca, na França. Foi quando seu ginecologista recomendou o tratamento com dez sessões, acompanhadas por um fisioterapeuta, com o objetivo de ensinar a gerente de marketing a conhecer e controlar a musculatura do assoalho pélvico.

Se você não tem familiaridade com os termos “períneo” ou “assoalho pélvico”, não está sozinha. Trata-se da musculatura localizada bem próxima à área vaginal. “A musculatura do assoalho pélvico tem ligação com o canal vaginal, uretral e anal e dá sustentação a órgãos pélvicos como útero, bexiga e ovários. Apesar de muito importante, as mulheres têm dificuldade em saber contrair essa musculatura de maneira eficaz”, afirma Gustavo F. Sutter Latorre, fisioterapeuta especialista em uroginecologia.

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O fortalecimento do assoalho pélvico previne diversas disfunções como incontinência urinária e fecal, prolapso genital - queda de órgãos da região genital –, flacidez vaginal e constipação. Justamente para evitar estes e outros problemas, a reeducação do períneo faz parte da política pública francesa voltada para gestantes desde 1985.

As francesas são avaliadas após o parto e, se for constatada a necessidade do tratamento, podem frequentar de dez a 20 sessões com um especialista. “A reeducação é um pouco estranha, pois o períneo é um músculo que não estamos acostumados a usar conscientemente”, conta Maísa.

Agressão ao períneo

A francesa Natalie Belondrade teve um bebê há poucos meses e acaba de terminar suas dez sessões. Foi seu ginecologista quem a encaminhou para o tratamento quando constatou que, após o parto, o a região do períneo estava muito distendida e precisava ser tonificada.

Para Natalie, as primeiras sessões não foram estranhas. Afinal, diz, “após nove meses indo ao ginecologista uma vez por mês, e após o bebê passar por ali, a gente se acostuma”. O que Natalie sentiu foi cansaço. Cansaço de tanta manipulação em sua intimidade. Mas o tratamento foi importante. “A tonicidade dessa região muscular também ajuda a manter uma base forte para o abdômen, que fica flácido após a gravidez.”

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O parto, aliás, é o momento de maior tensão para o assoalho pélvico feminino. “O parto é uma agressão ao períneo e isso afeta, além da saúde, a qualidade de vida da mulher. Se trabalhar essa musculatura fosse mais comum, poderíamos ver uma diminuição de gastos com internações e tratamentos das disfunções, por exemplo”, alerta Líris Wuo, fisioterapeuta especialista em disfunções do assoalho pélvico pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

“Apesar de ter uma grande importância no período gestacional, não só as gestantes deveriam se preocupar em fortalecer essa musculatura. As disfunções do assoalho pélvico também são comuns em mulheres que correm, por exemplo. Deveria haver um trabalho em torno do períneo já no início da vida sexual”, enfatiza Líris.

Reeducação do Períneo previne diversas disfunções, como incontinência urinária e prolapso genital
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Reeducação do Períneo previne diversas disfunções, como incontinência urinária e prolapso genital
Acompanhamento profissional

A francesa Claire Millerioux, professora de inglês de 31 anos, acredita que as sessões de reeducação do períneo, iniciadas seis semanas após o parto, surtiram efeito nas tarefas da vida cotidiana. Além das habituais dez sessões recomendadas pelas autoridades francesas, Claire também fez dez sessões de exercícios para fortalecer a região do abdômen.

“Aprendi a contrair o períneo e o abdômen quando carrego peso, assim não sobrecarrego a coluna”, diz. “Na verdade, gostaria de ter feito a reeducação também antes do parto, para ganhar consciência desse músculo, que eu não conhecia, e poder controlá-lo.”

Apesar de muitas pessoas acharem que pompoarismo é uma espécie de exercício para o assoalho pélvico, especialistas discordam. “O pompoarismo tem objetivo sexual e às vezes os exercícios são errados para quem tem a musculatura fraca na região”, afirma Líris.

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Assim como é feito na França, apenas especialistas habilitados da área da fisioterapia podem recomendar exercícios com o objetivo de fortalecer a musculatura da região pélvica. “O profissional deve verificar se os exercícios estão sendo feitos corretamente para que não haja um efeito inverso: em vez de ajudar, a pessoa acaba agravando seu problema por realizar movimentos contraindicados”, alerta a fisioterapeuta Mirca Ocanhas.

(Com reportagem de Gisela Anauate, de Paris)

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