Bebês que morreram da síndrome apresentaram níveis mais baixos do neurotransmissor

A síndrome da morte súbita do lactente, ou SMSL, há muitos anos tem a reputação de ser um assassino silencioso de recém-nascidos. Mas pesquisadores acreditam que agora conseguiram revelar o mistério que leva bebês à morte, avanço que pode salvar centenas de vidas a cada ano.

Médicos descobriram que bebês que morrem desta síndrome costumam ter níveis de serotonina consideravelmente mais baixos do que aqueles que morrem por outras causas. A serotonina é um neurotransmissor hormonal ligado a diversas funções vitais do organismo, dentre elas o ciclo de sono e vigília.

A carência de serotonina poderia dificultar a habilidade que o bebê tem de acordar quando sua segurança é ameaçada pela falta de oxigênio ou por outro risco à saúde, disse Rachel Y. Moon, pediatra, pesquisadora e chefe associada da divisão de pediatria geral e saúde comunitária do Goldberg Center for Community Pediatric Health at Children’s National Medical Center, em Washington D.C.

“Acreditamos que grande parte desta questão tem a ver com a habilidade e as formas de despertar do bebê. Alguns bebês começam a ficar hipóxicos quando entram em uma situação de risco. Muitas vezes eles estão em um sono tão profundo ou têm algum problema que os impede de despertar”, disse Rachel.

Para dormir tranquila: pesquisas avançam na descoberta das causas da síndrome da morte súbita
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Para dormir tranquila: pesquisas avançam na descoberta das causas da síndrome da morte súbita
Segundo dados do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, a SMSL é a principal causa de mortes de bebês de um mês a um ano de vida. A maioria delas ocorre entre o segundo e o quarto mês de vida, sendo que mais de 2.200 de bebês morrem desta causa anualmente nos Estados Unidos (leia recomendações para reduzir os riscos da síndrome) .

Inexplicáveis

Tais mortes são súbitas e inexplicáveis, mesmo depois da saúde do bebê ser avaliada e da realização da autópsia. Como a maioria delas acontece durante o sono do bebê, a síndrome também é conhecida pelo nome de “morte do berço”.

Pesquisadores acreditam que algum tipo de problema de nascença leve à deficiência de serotonina em alguns bebês, disse Laura Reno, vice-presidente de negócios públicos da First Candle, organização sem fins lucrativos dedicada ao estudo e prevenção da SMSL.

Algumas das pesquisas mais recentes são originárias de trabalhos liderados por Hannah C. Kinney, neuropatologista do Children’s Hospital de Boston e professora de patologia da Escola de Medicina da Harvard. A pesquisadora e sua equipe constataram que o nível de serotonina de 35 bebês que morreram de SMSL era 26% mais baixo do que de bebês que morreram de outras causas. Os bebês que morreram de SMSL também apresentaram nível de triptofano hidroxilase, enzima que auxilia na produção de serotonina, 22% mais baixo.

Suspeita-se que a serotonina seja crucial no sistema de despertar do bebê, comparado por Reno a um alarme que desperta a criança quando sua saúde está comprometida.
“No caso destes bebês, é como se este alarme não tocasse. Eles continuam a dormir, mesmo existindo um desafio no ambiente em que vivem, levando-os à morte”, disse Reno.

Dentre os riscos do ambiente que podem levar à SMSL, Reno destaca:

Dormir de bruços. Bebês colocados para dormir nesta posição acabam respirando o ar exalado por eles próprios, ao invés de ar fresco. “Eles estão recebendo dióxido de carbono ao invés de oxigênio, o que cria uma deficiência de oxigênio que pode levar à morte”, ela explicou.

Excesso de calor. Bebês vestidos com roupas muito quentes ou envoltos em mantas espessas podem ficar com o corpo quente demais, comprometendo a saúde. “Tais bebês ficam superaquecidos e, mais uma vez, o alarme não toca”, disse ela.

Excesso de roupas de cama e travesseiros macios demais no berço podem também levar o bebê à asfixia. Bebês que compartilham a cama com os pais também têm maior probabilidade de morrer de SMSL, disse Reno.

Cigarros. A fumaça do cigarro rouba o oxigênio necessário aos bebês durante o sono. Ela diz que o tabagismo passivo é “realmente muito perigoso para estes bebês”.

O próximo passo nas pesquisas seria encontrar uma forma de identificar os bebês que sofrem de deficiência natural de serotonina. “Esse é o nosso objetivo, pois só assim conseguiremos melhor direcionar nossas informações”, disse ela.

Enquanto pesquisas mais definitivas não são feitas, as mães podem seguir algumas recomendações médicas para diminuir o risco de mortes por SMSL:

- Sempre coloque o bebê para dormir de costas. Desde que esta recomendação foi lançada pela Academia Americana de Pediatria, em 1992, o número de mortes por SMSL nos Estados Unidos já caiu pela metade.

- Coloque o bebê para dormir em uma superfície firme, recoberta com um lençol bem ajustado. Nunca deixe o bebê dormir sobre um travesseiro, edredom ou qualquer outra superfície fofa.

- Vista roupas leves no bebê na hora de dormir e mantenha o quarto em uma temperatura considerada confortável pelos adultos.

- Ao colocar o bebê para dormir, dê a ele uma chupeta . Estudos constataram que bebês que usam chupeta são menos propensos à morte por SMSL. “Acreditamos que a chupeta pode alterar o limiar de despertar do bebê, ou a maneira como ele respira”, disse Rachel.

As orientações devem ser seguidas pelos pais mesmo que eles acreditem que seus filhos não sofram de deficiência de serotonina. “O bebê podem asfixiar, pode ficar preso entre o colchão e outros objetos. Por isso estas recomendações para um sono mais seguro vão ajudar a proteger o bebê contra tais riscos”, completou Rachel.

(Tradução: Claudia Batista Arantes)

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