Muitos pais adoram contar com a companhia dos filhos o tempo todo, mesmo quando o programa não tem nada de infantil. Com alguns cuidados, isso é possível

É só nascer o primeiro filho que a vida social do casal vira história, certo? Errado. Não faltam por aí pais que carregam os pequenos para todos os lados, mesmo a programas considerados “de adulto”. Com alguns cuidados, não há problema algum em liberar a babá ou a ajuda dos avós e contar com esta pequena grande companhia.

Social é com ele mesmo

Basta Theo chegar a uma festa para as atenções se voltarem pra ele. Até quem não nota a presença logo de cara acaba se rendendo quando ele vem puxar papo com desconhecidos e contar histórias. É com esta desenvoltura que o menino de dois anos e meio desfila pelo ambiente nas comemorações a que vai junto com os pais, os empresários Clarissa e Silvio Bianchi.

Julie e João veem a Torre Eiffel, em Paris, França
Arquivo pessoal
Julie e João veem a Torre Eiffel, em Paris, França
“Em uma festa de final de ano ele parou em frente ao DJ e ficou dançando. Fomos embora à 1h da manhã, mas ele foi chorando, porque queria ficar lá”, conta Clarissa. Desde bebê, Theo foi acostumado a dormir com barulho ambiente e luz quando estava fora de casa. “Nunca fui de tirá-lo de uma festa pra dormir em um quarto escuro e em silêncio. Por isso hoje podemos levá-lo aos lugares que frequentamos, como restaurantes, bares e festas”, completa a mãe.

Claro que alguns cuidados são tomados pelos pais. Eles não o levam a lugares com som muito alto e ficam longe das caixas de som. Clarissa percebe que o desenvolvimento de Theo é diferente de crianças mais poupadas. “Às vezes nem eu acredito nas expressões que ele usa. Acho que isso é por ele estar sempre com a gente e nos ambientes que frequentamos”.

E não é só “na noite” que Theo acompanha os pais. A última aventura do menino foi uma trilha até uma cachoeira. “Todos me falaram que não seria apropriado pra ele, mas fomos, entre pedras e buracos. E ele adorou. Até pediu pra entrar na cachoeira comigo”, conta a mãe orgulhosa. Clarissa também teve a ilustre companhia quando foi fazer suas últimas duas tatuagens. Enquanto a tatuadora fazia um braço, Theo treinava suas habilidades desenhando no outro braço da mãe.

Mas levar para festas faz mal?

“As crianças têm uma sensibilidade auditiva maior que os adultos. Em lugares com música alta, depois de 40 minutos recomendo levá-la para um local de descanso e permanecer ali por 10 minutos, porque o problema é a exposição prolongada. Se for um bar sem música, a criança pode ficar até quatro horas direto. Uma ótima saída é usar protetor auricular, que diminui em até 30% o volume”, diz o otorrinolaringologista Julio Miranda Gil.

Fazendo arte

O cineasta Rafa Calil era um desses pais que ouviam: “quando o bebê nascer, sua vida social vai mudar muito”. Mas, para sorte dele e da esposa, a assistente de arte Cynthia Cidade, não foi bem isso o que aconteceu.

Julie e João veem a Torre Eiffel, em Paris, França
Arquivo pessoal
Julie e João veem a Torre Eiffel, em Paris, França
“Claro que a frequência com que saímos diminuiu um pouco, mas geralmente a Maria nos acompanha nos programas”, conta Rafa. Os passeios que a menina de um ano e nove meses mais gosta são exposições e galerias de arte. “O gosto começou aos três meses, quando Maria ficou hipnotizada por uma obra que lembrava um móbile.

“Ela adorou a exposição do Vik Muniz e toda vez que a levamos a exposições de grafite e arte urbana ela pira. Os quadros do Carlos Dias e da Ana Elisa Egreja, por exemplo, geram uma reação de fascínio. Ela diz ‘oh!’, ‘uau!’”, descreve o pai.

A pequena, como Rafa, adora um show de rock, mas os pais preferem carregá-la apenas a projetos acústicos. “Ela rouba a cena. Teve um show da banda Visitantes, na qual meu irmão toca, onde a Maria dançou a noite toda, subiu no palco e no final até tentou tocar a bateria do tio”. Bares da Vila Madalena (bairro boêmio de São Paulo) também são velhos conhecidos da menina. “Enquanto os pais bebem suco de cevada, ela bebe suco de laranja”, brinca Rafa.

Mas as exposições são absorvidas por alguém tão nova?

“Quando o programa é bem planejado, a criança tem suas necessidades respeitadas e seu olhar acolhido, ela vai desenvolver um vínculo afetivo positivo com o que lhe foi mostrado. E a melhor forma de estimular o cérebro é pelo coração. Todos nós já esquecemos as fórmulas físicas do tempo de colégio, porém lembramos muito bem da peça de teatro de que participamos. Assim, quanto mais envolvida afetivamente com a arte, mais a criança vai aproveitar, desenvolver gosto e curiosidade pelo que viu”, opina a arteterapeuta Juliana Naso.

Garoto internacional

Antes mesmo de João nascer, o pai, o gerente de segmentos Daniel Mitraud, tinha uma filosofia estabelecida: “ele que está chegando agora; ele que se adapte”. Parece radical, mas logo Daniel e a mulher, a empresária Julie Anne Caldas Mitraud, perceberam que havia uma escolha a se fazer: viver em função do novo membro da família ou integrá-lo a uma vida e uma rotina que já existiam.

Julie e João veem a Torre Eiffel, em Paris, França
Arquivo pessoal
Julie e João veem a Torre Eiffel, em Paris, França
“E foi isso que fizemos. Sempre gostamos muito de sair, comer fora, visitar amigos, viajar. E para tudo isso levamos o João desde muito pequeno”, conta Julie. Hoje com dois anos e três meses, o menino é o grande companheiro dos pais, mas às vezes reclama de estar em um programa sem distrações infantis. Pra isso, a mãe carrega seus brinquedos pra todo lugar que vai.

Há dois meses a família fez a primeira viagem internacional com o pequeno. Foram para a França, Espanha e deram uma esticadinha até o Marrocos. “Quando resolvemos fazer essa viagem tínhamos muitos medos: como seria o voo de 11 horas, como seria andar com ele pelas ruas de cidades grandes, como Madri e Paris, se ele iria se cansar e se a gente conseguiria aproveitar”, enumera a mãe.

O voo foi tranquilo graças a um conselho do pediatra: ministrar algumas gotinhas de um remédio para enjoo que dá sono. João dormiu quase a viagem inteira. Já em solo europeu, alguns passeios foram divertidos, como parques e a estadia em um resort. Outros, nem tanto. “Em Paris, por exemplo, alguns dias ele ficou muito irritado de ter que passar a maior parte do tempo no carrinho, pois como era uma cidade muito grande, não dava pra tirá-lo”.

Quando estavam na Espanha, uma mulher falou com João, ele olhou para a mãe e disse: “o que ela tá falando, mamãe?” Ele tinha percebido que era outra língua. “Expliquei as diferenças dos países e dos idiomas e durante a viagem ensinamos algumas frases em outras línguas, que ele lembra até hoje e sabe até dizer de que países são”, lembra.

Julie costumava imprimir ao filho o ritmo de vida que leva: agitado, com constante correria de um lado para o outro. Até que um dia ela pegou João na casa da avó e ele tascou a pergunta: “mamãe, para onde você vai me levar hoje?” Nessa hora bateu a culpa e ela parou pra pensar se não estava criando uma pessoa hiperativa.

Desde então, a mãe busca tirar o pé do acelerador e, sempre que possível, deixa de sair quando vê que ele está muito cansado ou poupa-o de acompanhá-la em afazeres seguidos. “Acho que isso é só uma questão de encontrar o equilíbrio, algo que estou tentando. No geral, gosto do nosso estilo, por pensar que estamos ajudando nosso filho a aprender sobre coisas, pessoas e lugares diferentes e a se portar – e de preferência se comportar bem – em todos eles”, diz.

Mas viajar com as crianças faz bem para elas?

MiGCompLinks_C:undefined “O segredo ao fazer uma viagem com o filho é programá-la em função das necessidades dele. Por exemplo, os pequenos não podem ficar 15 horas na rua, precisam descansar mais que adultos. Bebês que mamam no peito devem continuar com a mesma rotina durante a viagem. Se estiverem na fase de transição da alimentação, é fácil de encontrar papinhas industrializadas em qualquer país. Com crianças maiores deve-se ter a preocupação de oferecer alimentos saudáveis e balanceados. Lanche, por exemplo, pode ser ingerido só uma vez ou outra. Quanto à viagem de avião, não existe problema algum em levar crianças”, explica Gerson Matsas, pediatra do Hospital Samaritano de São Paulo.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.