Primeiro modelo de relacionamento conhecido por eles será imitado fora de casa

Modelo de relacionamento entre os pais se reflete na formação da personalidade infantil
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Modelo de relacionamento entre os pais se reflete na formação da personalidade infantil
Você lê todos os livros que caem em suas mãos sobre como educar filhos, faz o que manda a cartilha da boa mãe e acha que seu papel está cumprido. Não é bem assim. Além de cuidar do que ensina diretamente para as crianças, já parou para pensar quais lições seu relacionamento com o pai delas vem transmitindo? Especialistas dizem que os filhos copiam comportamentos que presenciam dentro de casa, afetando suas reações na escola e em situações sociais.

“Se o relacionamento entre os pais não é saudável, eles estão ensinando as crianças sobre relacionamentos não-saudáveis. E um relacionamento saudável entre os pais geralmente as ensina como se ter um relacionamento saudável”, disse a terapeuta norte-americana Jennifer Baxt, em um artigo publicado no site EzineArticle.com. E isso vale tanto para pais casados quanto para aqueles que não estão mais em um relacionamento amoroso. O importante é tratar desta relação pai e mãe para garantir que seu filho esteja com as melhores ferramentas pra se tornar uma criança – e um adulto – socialmente saudável.

“As crianças ‘absorvem’ os aspectos afetivos e culturais numa velocidade muito maior do que podemos imaginar. Aquelas que vivem em ambientes nocivos tendem a apresentar comportamentos extremados. Algumas podem ser quietas demais, outras agitadas ou displicentes, e outras cuidadosas”, explica o psicólogo Arthur Müller, de Santa Catarina. Todos os especialistas concordam que não existe um manual para prever que projeção cada tipo de relacionamento vai ter sobre os filhos, porque nesta conta entram ainda as características individuais do pequeno. É comum, porém, que cada irmão aja seguindo o modelo de um dos cônjuges. “Quando eles têm pais abusivos e violentos, um deles pode tornar-se excessivamente agressivo, chegando ao descontrole. E o outro, agir passivamente, sem reação nenhuma de defesa”, descreve a assistente social gaúcha Gloria Maria Garcia Dócolas.

Bullying

Elizabeth Sweeney, estudante de mestrado em sociologia da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos, escreveu um artigo mostrando como o comportamento dos pais pode formar os chamados “bullies” – pessoas que cometem abusos sistemáticos, físicos ou psicológicos, contra os colegas. Analisando diversos estudos e pesquisas anteriores, ela chegou à conclusão que filhos criados por pais autoritários são mais propensos a praticar o bullying do que aqueles que vêm de famílias carinhosas. “Se eles estão aprendendo sobre agressão e raiva em casa, tenderão a usar estes comportamentos como mecanismos de ação ao interagir com seus iguais”, escreveu a estudante.

Isso não quer dizer que os pais não possam discordar na frente das crianças. É normal haver desentendimentos entre o casal, o que faz a diferença é a frequência e a maneira que as crianças presenciam estes momentos. “Discordar faz parte das relações humanas, mas podemos fazer isso de forma adequada, utilizando argumentos, ouvindo e respeitando a opinião do outro, mesmo não concordando”, ensina a psicóloga Deborah Toniolo, especializada em terapia comportamental infantil.

Evitar discutir e brigar na frente dos filhos é ponto pacífico, mas ninguém está a salvo de, vez ou outra, dizer algumas palavras duras no calor do momento. Nesse caso, quem está com a cabeça mais fresca deve se afastar da discussão. “Mesmo que a briga não se dê na frente das crianças, elas percebem o clima. Isso pode refletir no desempenho escolar e na interação com os amiguinhos”, diz Arthur Müller.

Portanto, não meça esforços para acertar as diferenças com o seu companheiro de jornada e converse bastante com seu filho para que ele tenha certeza de que o canal de comunicação entre vocês está aberto. A recompensa é grande: “quando um casal consegue, na busca de uma solução satisfatória para todos, expressar e defender seus pontos de vista e suas diferenças, cedendo ou encontrando uma terceira alternativa para o impasse, isso se torna um ótimo exemplo para os filhos”, diz Glória.

As psiquiatras norte-americanas Hilary Rich e Helaina Laks Kravitz, autoras do bem-humorado “The Complete Idiot's Guide to the Perfect Marriage” (em tradução livre, “O guia do completo idiota sobre o casamento perfeito”), resumiram: o mais importante que você pode fazer por seu filho é ter o melhor relacionamento possível com seu companheiro. “Se eles virem vocês dois se dando bem e apoiando um ao outro, irão se espelhar e se dar bem uns com os outros e com os amigos”. Portanto, o primeiro passo para cuidar da educação e a da formação de seu filho é resolver os problemas que você tem com o pai dele. Se as barreiras forem muito grandes, procure um terapeuta. A saúde mental da família inteira agradece.

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