Intercâmbio é uma experiência valiosa para pais e filhos. Descubra o que é preciso para ajudar seu filho a levantar velas e começar a navegar

Estudar fora é experiência enriquecedora - e pode acontecer antes mesmo do seu filho completar 10 anos
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Estudar fora é experiência enriquecedora - e pode acontecer antes mesmo do seu filho completar 10 anos
As agências de intercâmbio oferecem programas de estudo no exterior para crianças a partir dos 7 anos. A idade parece pouca, mas em países estrangeiros, mandar os filhos para longe de casa nas férias é prática comum. Já os brasileiros não têm este costume. “Por esse motivo, foram elaboradas soluções que permitem a experimentação”, explica Gabriel Canellas, responsável pelo intercâmbio de férias Teen da CI – Central de Intercâmbio, voltado para os mais novos.

Os adolescentes são o foco principal dos programas. A experiência de viver fora pode beneficiá-los de muitas formas. Mesmo jovens que já são independentes aproveitam a vivência: Ana Claudia Braga é mãe de Barbara, 19, que passou 10 meses nos Estados Unidos, aos 16 anos. “Ela sempre foi muito independente. Mas o que mudou efetivamente foi que minha filha passou a entender que o mundo não é o quarto dela. O que ela viu e vivenciou foi acima de todas as expectativas. Ela saiu muito preparada para se adequar a novas rotinas, pessoas, culturas”, conta a mãe.

E não foi só isso. Barbara adquiriu fluência na língua inglesa, o que lhe proporcionou uma promoção relâmpago. Cursando a faculdade de Hotelaria, ela iniciou um estágio que não exigia o idioma, porém sua proatividade a colocou na recepção, para resolver problemas de hóspedes estrangeiros. “Em 3 meses ela foi promovida e, logo depois, convidada para trabalhar em um banco, lidando diretamente com estrangeiros”, conta Ana Claudia.

Os pais mais ansiosos, que acham que vão morrer de saudade, podem encontrar consolo na tecnologia. “Se quiser, posso estar em contato com meu filho diariamente, por Skype, Facebook, MSN. Os pais que entram no universo das redes sociais acabam conhecendo um pouco mais seus filhos”, conta a psicóloga Ana Carlota, que criou um perfil no Facebook recentemente para acompanhar a vida social e conhecer os novos amigos do filho Giovanni, 16 anos, que estuda nos Estados Unidos desde agosto do ano passado ( leia mais sobre pais e filhos que vencem a distância com ajuda da web ).

Embora especialistas em educação acreditem que o ideal seja realizar a experiência na adolescência, eles não deixam de apontar alguns benefícios que os menores podem usufruir de uma temporada fora. Afinal, o que é comum a todos os programas é a oportunidade de conhecer um pouco do mundo, principalmente por meio das relações com crianças de outros países. Além de roupa suja e suvenires, crianças que ingressam em programas de intercâmbio voltam com uma valiosa bagagem cultural.

Conheça cada programação e o que ela oferece de melhor para o seu filho, de acordo com a idade dele: até 10 anos , depois dos 10 , na idade do ensino médio , acima de 18 ou para qualquer idade .

Até 10 anos: férias sob tutela

Para as crianças experimentarem a sensação de aprender um idioma e conhecer um país estrangeiro, as agências oferecem programas de férias para a família ou com monitores, que podem durar de 2 a 8 semanas, nas temporadas de recesso escolar. “Quanto mais nova a criança, se ela estiver imersa no universo de um novo idioma, mais rapidamente ela vai aprendê-lo, e sua pronúncia, inclusive, será livre de sotaque da língua nativa”, explica a psicóloga Ana Carlota – que também é coordenadora educacional do Colégio Franciscano Nossa Senhora Aparecida, o Consa.

Mas deixar as crianças menores longe da família é uma questão observada com ressalvas. “Aos 7 anos, a criança não tem maturidade para vivenciar a cultura de um país diferente sem a supervisão dos pais. Isso pode apressar o processo de construção de identidade e valores”, pondera a psicopedagoga Sandra Kraft.

Para Gabriel Canellas, a partir dos 10 anos a criança já pode viajar sozinha, mas com um monitor que acompanha a turma. “Nessa idade, inclusive, ela pode optar pela casa de família ou residência estudantil”, conta. Nas atividades, 15 horas semanais de aulas do idioma local em escolas próprias para estudantes internacionais, passeios e excursões. Conviver com crianças de todas as partes do mundo, que estão passando pela mesma situação – longe de casa e inseridas em um mundo novo – transmite segurança e torna a sensação de troca mais clara, apesar da pouca idade.

Acima de 10: férias por conta própria

Aline nos EUA: ela viajou sozinha pela primeira vez aos 16 anos e surpreendeu a mãe com capacidade de se organizar e cooperar com os colegas
Arquivo pessoal
Aline nos EUA: ela viajou sozinha pela primeira vez aos 16 anos e surpreendeu a mãe com capacidade de se organizar e cooperar com os colegas
A opinião dos especialistas é unânime: quando adolescente, seu filho já se estruturou psiquicamente. Os valores transmitidos pela família já foram assimilados. Para Ana Carlota, os estudantes do ensino médio podem conhecer outra forma de viver sem riscos de “perder a base”. “O adolescente quer conhecer o outro lado, comparar com o que tem e escolher, na vida adulta, o que é importante e ideal para ele”, completa.

O intercâmbio de férias é perfeito para isso, inclusive para “testar” os próprios limites e ver se dá pé esticar a experiência numa próxima vez e passar um semestre ou um ano estudando fora do país. Além do mais, a vivência injeta uma dose rápida de maturidade, que dificilmente seria conseguida na barra da saia da mãe. “Entre os inúmeros benefícios da prática, as habilidades mais desenvolvidas são a capacidade de adaptação, responsabilidade, independência e autoconfiança”, enumera Felipe Trigo, gerente da agência Friends in the World.

Para ele, a adolescência é a fase perfeita para a experiência. De cara, o jovem é exposto ao sentimento de insegurança, causado pela distância e ausência dos pais, somado à barreira do idioma. Ao mesmo tempo, ele tem todo o apoio e segurança de uma estrutura de ensino e de adultos que o receberão. E terá de superar o desafio. “Ele se verá responsável por si e pela forma como agirá. Suas atitudes, seus relacionamentos, tudo isso fará parte da base de sua formação adulta e de seu comportamento no futuro, frente às mais diversas situações”, completa.

Marisa Maion, por exemplo, se surpreendeu com a capacidade de liderança desenvolvida pela filha, que passou um mês nos Estados Unidos, hospedada em casa de família. Aline, 16 anos, nunca havia viajado sem a mãe. No final da temporada, comandou um mutirão para ajudar uma das intercambistas, desesperada com o excesso de compras que fizera nos parques da Flórida e não cabia na sua mala. Ela prontamente dividiu os pertences com os outros colegas, anotando o que estava com cada um e esquematizando a devolução no aeroporto. “Agora ela tem mais jogo de cintura e busca resolver todos os impasses que surgem na dinâmica familiar”, orgulha-se a mãe.

Nos intercâmbios de um mês, o aprendizado do idioma apresenta ganhos, mas não tanto quanto nos programas de um semestre ou mais. Porém, no caso de Aline, as aulas no Brasil – que andavam meio abandonadas – voltaram para a agenda com entusiasmo. E ela decidiu que, durante ou depois da faculdade de Relações Públicas (ela acabou de passar no vestibular), vai encarar, sim, uma especialização ou um curso fora do Brasil.

Adolescentes: high school, o ensino médio lá fora

Em termos de independência e desenvolvimento do idioma, o programa de high school é o mais completo e enriquecedor. Enquanto os intercâmbios de férias funcionam como uma preparação – tanto para o jovem, que vê na prática como é conviver em outra cultura, quanto para os pais, que aprendem a suportar a saudade e a ansiedade –, o semestre ou ano fora enraíza certos comportamentos. As aulas não são encaradas como um curso extracurricular e há mais tempo para se adaptar à nova rotina.

Gabriel Canellas lembra que as leis no exterior são muito rígidas. Jovens têm horário para voltar e não podem entrar em contato com bebidas alcoólicas. Isso sem contar que as casas de família são instruídas para estabelecer regras, que vão desde a arrumação do quarto até questões que dizem respeito à cultura do país. “Na Inglaterra, por exemplo, todos tomam um banho por dia, com duração máxima de 10 minutos por conta da escassez da água. E não vai ter empregada para levar um copo de leite em frente à televisão para ninguém”, explica Gabriel. Sendo assim, o intercambista vai rever certos conceitos e valores e adquirir independência.

Giovanni, 16 anos, é filho da psicóloga Ana Carlota e está desde agosto de 2010 nos Estados Unidos, cursando o Ensino Médio e jogando futebol – ele ganhou desconto na mensalidade escolar por causa do esporte. “Ele aprendeu a se organizar financeiramente. Aqui, ele tinha uma mesada. Lá, ele precisa administrar o dinheiro que depositamos todos os meses em uma conta, e deve pagar parte da escola, a hospedagem na casa de família, avaliar os seus gastos e poupar para passeios”, comemora a mãe.

O mesmo aconteceu com Aline que, hoje em dia, após a experiência de administrar o dinheiro longe da família, não quer comprar tudo o que vê nas vitrines do shopping. “Ela avalia e diz que aquilo – que todas as amigas dela querem – é desnecessário”, conta Marisa.

O programa de high school é para jovens de 15 a 18 anos, tem duração de um semestre ou um ano letivo. Os jovens vivem com famílias locais e frequentam a escola de ensino médio, totalmente inseridos no dia-a-dia da cidade. “Eles devem ter bom desempenho escolar e obtêm equivalência de matérias, reconhecida pelo MEC”, detalha Felipe Trigo. Tem início no começo do semestre escolar, em janeiro/fevereiro e agosto/setembro.

Depois dos 18: au pair combina estudo e trabalho

Os meninos também podem, mas é mais comum encontrar meninas que desejem ser au pair no exterior. O programa combina trabalho e estudo, por isso é indicado para maiores de idade. “É um programa onde jovens entre 18 e 26 anos moram com uma família, trabalham cuidando dos filhos deles e estudam em uma universidade local. Para isso, eles recebem um salário semanal de US$ 195,75, uma bolsa de estudos de até US$ 500, têm um dia e meio de folga por semana e duas semanas de férias remuneradas. Funciona como uma forma econômica de aprimorar o idioma, viajar e voltar para casa com algum dinheiro”, explica Heloísa Chaves, diretora da agência Cultural Care.

O programa inclui um ano de trabalho e depois mais quatro semanas para turismo. Os participantes podem, ainda, estender o visto por mais seis, nove meses ou um ano.

Para ingressar no programa de au pair são necessárias algumas habilidades: ter pelo menos 200 horas de experiência de trabalho com crianças, saber inglês no nível intermediário, ter o ensino médio completo, ser flexível, madura, independente e positiva. Também é preciso ter carteira de motorista, não ter antecedentes criminais, não ser fumante, ser solteira e sem filhos. Dos rapazes são exigidos alguns itens a mais, como estar entre 19 e 26 anos, ter pelo menos 1.000 horas de experiência de trabalho com crianças na área de esportes, apresentar nível avançado de inglês e ter carteira de motorista há pelo menos um ano.

Para todas as idades: cursos de idiomas

As agências também oferecem cursos de idiomas com duração mínima de uma semana e máxima de um ano. Na Friends in the World, os alunos vivem com famílias locais e frequentam a escola de idioma todos os dias, por até 5 horas. O restante do dia é livre ou de atividades da própria escola. Nos finais de semana, podem fazer as atividades propostas pelas famílias ou excursões promovidas pela escola. Os inícios são semanais ou mensais.

Serviço

Central de Intercâmbio
www.ci.com.br

Friends in the World
www.friendsintheworld.com.br

Cultural Care
www.culturalcare.com.br

STB
www.stb.com.br

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