Programa espanhol previne com sucesso o desenvolvimento de comportamentos antissociais entre as crianças, mas papel dos pais é fundamental

Crianças se tornaram menos agressivas e mais cooperativas após o programa
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Crianças se tornaram menos agressivas e mais cooperativas após o programa
Todos os pais já devem saber que, lá pelos três anos, as crianças têm atitudes pautadas por uma boa dose de egocentrismo, seja em casa ou na escola. Naturalmente, as crianças devem crescer e abandonar a fase. Algumas, no entanto, não superam esta postura. Seria possível prevenir que esse tipo de comportamento – entre outros relacionados à sociabilidade – prevaleça também no futuro? Para pesquisadores da Universidade de Granada , na Espanha, sim.

Esta resposta se assenta no programa “Aprender a Convivir” (“Aprender a Conviver”, em tradução literal), que começou a ser desenvolvido em 2004 pelo Departamento de Psicologia Evolutiva e Educação da Universidade e que atualmente mostra resultados. Com o objetivo de prevenir a existência de comportamentos antissociais na idade adulta, o projeto contou com 131 crianças de três anos de idade – e de diferentes escolas – que foram acompanhadas durante oito meses.

María Fernández Cabezas, condutora do projeto, explica que 78 crianças ficaram no grupo experimental e 53 no de controle – um grupo que não participa das atividades do programa e serve para comprovar se o progresso do comportamento social das crianças se deve de fato à intervenção dos especialistas ou somente aos efeitos do próprio desenvolvimento delas. O grupo experimental passou por experiências relacionadas a quatro temáticas: as normas e o cumprimento delas, os sentimentos e as emoções, as habilidades de comunicação e, por último, a ajuda e a cooperação para com os outros.

Primeiramente foram utilizados fantoches para explicar às crianças o conteúdo que seria trabalhado – e com isso obter uma atenção ainda maior deles. Depois, eles foram divididos em grupos menores, com a missão de colorir desenhos, cantar e brincar – tudo isso relacionado ao tema tratado no dia. Embora alguns possam pensar que este tipo de atividade simples não tenha a capacidade de influenciar muito a vida de uma criança de três anos, mas María Fernández diz o contrário. “Dado o aumento das condutas antissociais na adolescência e na vida adulta, vimos que essa prevenção era necessária desde muito cedo”.

Telma Scott Rodrigues de Lima, coordenadora pedagógica do Colégio Sidarta, em São Paulo, concorda. É nesta idade que a criança começa a se apropriar de algumas regras e convenções sociais, então é o momento certo para aprender mais sobre o assunto. “E esse é um aprendizado que deve acontecer com a família e com a escola”, acrescenta a coordenadora pedagógica, que preza por programas como o “Aprender a Convivir”. Para ela, a escola de hoje em dia precisa desenvolver a questão da competência social dentro da rotina, além das atividades acadêmicas: “É um espaço em que as crianças estão entre iguais. A escola não pode negar seu papel de tornar relevante a questão da convivência. Se fingirmos que não, depois já pode ser tarde demais”.

A vida como ela é

Se, por volta dos 7 anos de idade, a criança ainda não se livrou do egocentrismo típico da fase dos 3 anos e continua achando difícil respeitar limites, ela pode estar caminhando para a direção oposta à ideal. A busca pela prevenção de comportamentos antissociais desde cedo é, para Telma, uma maneira de fazer com que as crianças tenham, entre outras características, uma tolerância maior à frustração. “É preciso ensiná-las que nem tudo é do jeito que elas querem. Então, se uma criança quer um brinquedo que está nas mãos de outra criança, ela precisa entender que não pode tê-lo naquele momento”, explica. E se é concedido à criança tudo que ela quer desde pequena, e se não há uma determinada imposição de limites, a coisa pode ficar feia.

“Por volta dos sete aos nove anos, a questão das regras ainda pega para muitas crianças atualmente”, avalia a especialista. E a insegurança das famílias em dizer “não” para os filhos está bastante relacionada a isso. Segundo ela, quando a criança escuta alguns “nãos” dos pais, pode aprender mais facilmente a lidar com frustrações. Abrir espaço para discutir o que não se pode proporcionar ao filho, como uma viagem com a escola, por exemplo, também é recomendável. “Quanto mais as famílias explicarem que isso faz parte da vida de todo mundo, melhor”, diz Telma.

Mas existem outros motivos que podem colaborar para a sociabilidade defasada das crianças de hoje em dia. De acordo com a psicanalista especialista em questões familiares Miriam Chicarelli Furini, a tecnologia e a redução do número de familiares presentes acabam colaborando para que as crianças tenham uma conduta mais antissocial, principalmente nos centros urbanos. “Falta espaço para a socialização, as crianças estão muito tecnológicas, a convivência familiar já não existe tanto e em alguns casos o brincar está muito escasso, por culpa de agendas superlotadas com atividades como natação e inglês”, afirma a especialista.

Sociabilidade em alta


Com isso, é preciso estar atento. De acordo com María, as crianças que participaram do programa mostraram uma significativa melhora no que diz respeito à competência social: depois do programa, 47,8% das crianças passaram a ter maior pontuação no quesito, quando anteriormente somente 7,8% atendiam ao maior rendimento. “Elas passaram a ser mais cooperativas, a escutar e respeitar mais os adultos, a pedir ajuda quando precisavam, a pedir desculpas, a reconhecer o sentimento dos outros, a se bem adaptar socialmente com os colegas de classe e a ser mais independentes na realização das atividades”, conta Cabezas.

Já os índices das condutas antissociais sofreram uma queda. De 27,8% de crianças com pontuações elevadas relacionadas ao problema, apenas 11,9% ainda precisavam modificar o comportamento depois do programa. “Eles passaram a refletir mais antes de agir, a não agredir ou agredir menos os outros, a não precisar chamar a atenção com tanta frequência, a não mentir tanto, a não ter problemas na hora de fazer amigos e a não se isolar”, descreve María.

Além disso, ela comenta que, depois do programa, as crianças passaram a se queixar menos, a demonstrar maior interesse e afeto pelos outros e a mostrar menos comportamentos agressivos, seja física ou verbalmente. María lembra que comportamentos antissociais podem surgir a qualquer momento da vida, e proteger as crianças de fatores de risco – sejam individuais, familiares, escolares ou contextuais – que possam desencadear tais comportamentos são o principal objetivo do programa. E os pais também devem estar ligados nisso.

Começando em casa

De acordo com Miriam, é preciso que os pais aumentem o número de horas de convivência com os filhos e que não abusem tanto de brinquedos tão tecnológicos. “Se não é possível nos dias de semana, que brinquem com bola, bicicleta, que façam brincadeiras diversas aos finais de semana, com outras crianças também”, comenta. Segundo ela, sociabilidade em baixa pode prejudicar a criança no futuro, até mesmo na hora de conseguir um emprego. “Se ela não desenvolver um comportamento mais social, toda a vida dela ficará comprometida”, diz a psicanalista.

Para Telma, propiciar um espaço de convivência entre crianças também é essencial: “É preciso que não se deixe a criança tão fechada dentro de casa”, afirma. “Levá-la à casa dos amigos, sair em espaços públicos e incentivar que ela se aproxime de outras crianças é essencial”. Isso se torna mais importante ainda quando a criança tem uma babá à disposição: “se alguém sempre faz tudo por ela, é ainda mais necessário propiciar locais em que a criança conviva com os outros e os pais possam limitar e mediar essa conduta”.

A família, como sempre, possui um papel fundamental para que a criança se desenvolva com um traquejo significativo de sociabilidade. Segundo María, a combinação de afeto e comunicação supervisionada é uma das principais atitudes que os pais devem tomar. “É preciso fomentar o diálogo, estar em contato com a escola para que a instituição e os pais sigam na mesma direção e mostrar apoio em todos os momentos, dando aos filhos a autonomia necessária para que possam aprender”, completa a especialista. E conviver.

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