Livro aborda os paralelos entre o gerenciamento de empresas e a função materna. E sugere reconhecimento social – e financeiro – para as mães

Habilidades desenvolvidas na criação dos filhos são aplicadas à carreira: ser mãe torna as executivas melhores
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Habilidades desenvolvidas na criação dos filhos são aplicadas à carreira: ser mãe torna as executivas melhores
Jornalista e mãe, Ann Crittenden estava em uma festa em Nova York quando um homem, que ela nunca vira antes, a abordou perguntando: “você não era a famosa Ann Crittenden?”. A conjugação do verbo no passado fez cair a ficha: ela havia deixado para trás o prestígio de uma consolidada carreira como repórter do New York Times para ser mãe em tempo integral. Finalista de prêmios como o Pulitzer, Ann percebeu que a tarefa de criar um filho pode ser a pedra fundamental de uma sociedade, mas ninguém está disposto a pagar por ela – nem financeiramente, nem ao menos com reconhecimento. Desta sensação surgiu “Liderança começa em casa”, lançado agora pela Verus Editora. O original, “If You’ve Raised Kids, You Can Manage Anything”, foi publicado nos Estados Unidos em 2004. “The Price of Motherhood”, também sobre o tema e ainda sem tradução para o português, já foi comparado ao lendário “A Mística Feminina”, livro de Betty Friedan sobre o qual foi construída boa parte do movimento feminista dos anos 60.

“Hoje há mais opções para as mulheres que tem filhos. Mas não para todas”, diz. Em 1982, quando o filho de Ann nasceu, o jornal não tinha a flexibilidade de horários mais comumente oferecida atualmente, quando muitas mães norte-americanas conseguem contratos de trabalho de quatro ou até três dias por semana. “Se eu tivesse esta oportunidade quase 30 anos atrás, não teria deixado o jornal”.

Ann Crittenden: luta pelo reconhecimento da função materna
Divulgação
Ann Crittenden: luta pelo reconhecimento da função materna
“Liderança começa em casa” (dedicado ao filho de Ann, James) parte da premissa melhor explicada pelo título original do livro: se você criou filhos, pode gerenciar qualquer coisa. Durante a carreira como jornalista de economia e negócios, a autora notou que os conselhos dados em livros sobre gerenciamento eram basicamente os mesmos encontrados em obras que se propunham a dar lições e conselhos sobre a maternidade. Através de entrevistas com centenas de pais e mães presentes e ativos no mercado de trabalho, ela confirmou suas desconfianças e concluiu que criar um filho exige tanto das habilidades destes pais e mães quanto ocupar os cargos mais altos de empresas multinacionais.

Para Ann, construir uma carreira no competitivo jornalismo norte-americano foi tão desafiador quanto criar filhos. Mas o reconhecimento pela segunda tarefa foi bem maior do que o obtido pela primeira. A realização que envolve ter e criar uma criança pode estar mais ligada ao sentimento de orgulho e satisfação ao ver seu filho feliz. Mas há um longo caminho a se percorrer até o reconhecimento da importância do trabalho de educar um filho – e este caminho passa pelas áreas familiar, profissional e social.

Um milhão de dólares

Dependendo de sua escolaridade e preparo, mães que deixam a carreira para se tornarem as principais responsáveis pela criança podem estar abrindo mão de mais de um milhão de dólares em ganhos que aconteceriam até o fim de sua vida profissional, segundo cálculos da autora publicados em “The Price of Motherhood”. Em caso de separação, nem todas serão recompensadas financeiramente. “Em um divórcio, o principal cuidador da criança deve receber um acordo financeiro mais justo”, defende. “E ambos os adultos de um casamento deveriam ter direitos iguais sobre a renda da casa”, completa – mesmo que um deles tenha largado a carreira profissional para ficar em casa. Especialmente por isso, aliás.

No ambiente profissional, empregadores também podem pensar melhor antes de recusar o currículo de uma mãe, pelo simples fato de achar que ela ficará mais dispersa e menos disponível. “É preciso reconhecer que criar um filho requer inúmeras habilidades que são perfeitamente aplicáveis ao trabalho”, acredita Ann. Uma das entrevistadas da autora não teve dúvidas e elegeu as mães como suas colaboradoras mais focadas: segundo ela, mães que trabalham fora não têm tempo para fazer política ou jogar conversa fora tomando um cafezinho. Elas querem fazer o trabalho e ir para casa ver o filho. (Veja dicas de Ann para elaborar seu currículo na volta ao mercado de trabalho) .

Socialmente, investir no reconhecimento da função de criar um filho em tempo integral tem retorno certo. Se a sociedade como um todo só tem a ganhar com a produtividade e a ação de bons cidadãos, deve investir na educação deles. “É preciso dividir os gastos de criar cidadãos preparados, oferecendo saúde e educação públicas de qualidade”, diz Ann.

Mas acumular as responsabilidades de um trabalho e de uma criança não torna estas mulheres infelizes? Segundo Ann, não há evidências disto. “Elas podem ficar estressadas, especialmente se trabalham por longos períodos”, conta. “Mas, curiosamente, as mulheres que mais relataram o sentimento de infelicidade em minha pesquisa eram as mães em tempo integral, que ficavam em casa o dia todo, e que vinham de famílias de menos renda”.

Abraçar os papéis de mãe presente sem deixar de ser profissional, portanto, é uma vantagem aos olhos de Ann. Mas nem por isso as mulheres devem deixar de buscar um equilíbrio nas funções de criação e educação dos filhos com os pais. A luta pela valorização da função materna pode até ajudar: “se cuidar das crianças fosse visto mais respeito, e tivesse reconhecimento financeiro, os homens estariam mais dispostos a assumir o trabalho”, acredita.

Pode faltar muito, mas Ann já tem uma fórmula para saber quando chegaremos lá. “Quando mães tiverem o mesmo status que os soldados”, resume ela.

Capa do livro
Reprodução
Capa do livro "Liderança Começa em Casa"
Coloque sua experiência de mãe no currículo

Ann Crittenden, autora de “Liderança começa em casa” (Verus Editora), recomenda às mulheres que incluam no currículo suas experiências com a maternidade. “O importante é não ter vergonha”, escreve ela. Afinal, continua, “no caso de quase todas as pessoas, a matéria-prima existe”.

No livro, ela sugere a anexação de um currículo de “habilidades transferíveis”, em que as experiências de criar um filho ou participar de trabalhos voluntários ou organizações sociais podem ser expostas. Leia no trecho abaixo – e atire a primeira mamadeira se você não reconhecer nas descrições seus momentos como mãe.

“Além de meu currículo tradicional anexado, a seguir apresento uma lista de habilidades funcionais que definem minha fusão de experiência como [mãe e/ou outra atividade não remunerada] e como [profissão especificada].

Negociadora organizada
Sabe o que obter para ambos os lados, mantendo-se concentrada na resolução apenas do problema em questão.

Atenciosa
Entende o que é dito e imediatamente processa esse pensamento de modo a levá-lo ao próximo nível de complexidade.

Solucionadora de problemas
Sugere, de modo independente, como reduzir custos, delinear processos e trazer melhores resultados, nunca apontando um problema sem dar a solução.

Viciada em adrenalina
Acostumada a trabalhar com urgências; consegue cumprir prazos e continuar a produzir”.



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