Pesquisa afirma que os filhos mais velhos possuem um papel de "agentes da socialização" para os irmãos menores

Irmãos mais velhos influenciam tanto o caçula quanto os pais
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Irmãos mais velhos influenciam tanto o caçula quanto os pais
Diante do comportamento de uma criança, existem diferentes influências e, na maioria das vezes, os pais são o maior exemplo. No entanto, ao contrário do que muitos pensam, Laurie Kramer, professora de Estudos Aplicados da Família da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, afirma que os irmãos mais velhos também caracterizam um modelo bastante significativo para os menores; e este modelo é tão fundamental quanto o dos pais.

Para ela, o que é aprendido com os irmãos durante o crescimento possui, para melhor ou pior, uma influência considerável no desenvolvimento social e emocional. Em entrevista ao jornal britânico The Telegraph, Kramer afirmou: “o que aprendemos com nossos pais pode se sobrepor ao que aprendemos com nossos irmãos, mas podem haver áreas em que eles se diferem significativamente”.

Os pais, de acordo com a pesquisadora, são os principais exemplos a serem seguidos pelos filhos no que está relacionado às características mais formais, como modos na mesa de jantar e como agir em público. No caso dos primogênitos, é diferente: eles possuem maior influência em como os irmãos menores vão se comportar fora de casa, na escola, e em como se posicionarão frente aos amigos.

Os irmãos maiores estão mais próximos do ambiente social em que os menores se encontram durante a maior parte dos dias, o que também os torna bem importantes na atuação sobre o comportamento dos mais novos. Com isso, chega-se à conclusão de que manter um relacionamento saudável entre os irmãos contribui para melhores resultados, seja para adolescentes, seja para adultos.

É preciso estar atento, portanto, às influências indesejadas que podem vir à tona. A professora Krammer ainda alerta: “Muitas das pesquisas atuais analisam a maneira como as crianças aprendem a fumar, a beber e a cometer atos inesperados, tudo pela exposição ao comportamento anti-social do irmão mais velho, ou até dos amigos dele”. Para ela, compreender melhor como os irmãos funcionam como “agentes da socialização” irá ajudar a responder diferentes questões sociais.

Segundo a especialista, uma adolescente corre maior risco de engravidar, por exemplo, se sua irmã mais velha se tornou mãe ainda quando era jovem. Assim sendo, desenvolver uma melhor compreensão das influências do primogênito no irmão menor pode ajudar os pais a criarem estratégias efetivas para proteger os mais novos da família.

Familiares também influenciam

No entanto, há outros fatores que também influenciam para esta constatação. De acordo com Vicente Faleiros, Assistente Social, Professor e Pesquisador da Universidade de Brasília, esta relação dependerá muito da cultura a que a família pertence. “Na visão antropológica, há de relativizar esta questão. Na África, por exemplo, normalmente é o tio que possui mais influência”, explica.

“A afirmação surpreende porque ela rompe com a relação horizontal que os irmãos possuem e a torna vertical. Mas depende muito da família, se é rural ou urbana, por exemplo”, afirma o pesquisador. Por outro lado, para a psicóloga Luciana Blumenthal, da Elipse Clínica Multidisciplinar, em São Paulo, esta constatação não está muito distante do que é visto na vida prática; mas há um porém: “os pais possuem a onipotência de pensar que somente eles são responsáveis pelo que os filhos fazem, mas nem tudo é exemplo dado por eles”, conta.

“Tanto os irmãos quanto os amigos influenciam muito na vida da criança. Assim como também os parentes”, constata a psicóloga. Para ela, todas as pessoas que são afetivamente significativas para aquela criança podem ser uma influência. “Neste aspecto, os pais devem tomar cuidado para que todos estes agentes estejam alinhados entre si, para que ninguém dê indicações contrárias”, explica Blumenthal.

Ainda, segundo a psicóloga, um erro que é muito recorrente e que deve ser precavido é a omissão dos pais. “Eles deixam os irmãos sozinhos para descansar um pouco e não veem o que acontece naquela relação. O mais importante é participar”, avisa. Principalmente na fase educativa inicial da criança, quando ela entra na pré-escola: este início é muito importante para a formação da personalidade e afetividade.

No caso de filhos únicos, a especialista norte-americana justifica que eles são tão competentes socialmente quanto as crianças que possuem irmãos, mas estão mais suscetíveis a se desenvolverem neste aspecto por meio dos amigos mais próximos. “Pais de filhos únicos devem questionar como eles podem ajudar as crianças a terem experiências sociais, o que pode ser feito por meio de creches, pré-escola e atividades marcadas com outras crianças”, explica.

Krammer também ressalta ao jornal britânico The Telegraph que o melhor que os pais podem fazer é promover um relacionamento favorável entre os irmãos desde o início. “É importante que os adultos encorajem a conexão entre os filhos e a desenvolverem uma relação onde haja respeito mútuo, cooperação e a habilidade para resolver problemas”, explica a pesquisadora.

Luciana encoraja os pais a sempre conversarem com o irmão mais velho para que ele possa perceber a influência que possui sobre o mais novo. “Se o seu filho maior estiver fazendo coisas inadequadas perto do filho mais novo, é preciso alertá-lo”, indica.

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